De acordo com os números divulgados pelo Governo de Pernambuco, por meio da Defesa Civil, o número de desabrigados e desalojados no estado subiu de 2.282 para 2.882, um aumento de 600 pessoas que precisaram deixar suas casas entre os balanços publicizados na última segunda-feira (4) e terça-feira (5). No bairro de Peixinhos, em Olinda, a escola estadual Monsenhor Arruda Câmara foi transformada em um abrigo para 80 pessoas, sendo 50 adultos e 30 bebês, crianças e adolescentes.
Alexsandra Oliveira, 50, é moradora da Comunidade da Xuxa e está no abrigo desde a madrugada de 1º de maio. Ela afirma que, entre as principais dificuldades enfrentadas, está o acesso à alimentação, contando apenas com doações de ONGs e igrejas nos primeiros dias, sem fornecimento regular da gestão municipal. “A prefeitura de Olinda não nos deu refeição nenhuma na sexta-feira, no sábado e no domingo. Só veio nos dar um pedaço de melão e uma sopa na segunda-feira (4) — e estava azeda”, diz.
Cristiane Nascimento, 35, mãe de duas crianças — de 1 e 5 anos — e de uma adolescente de 18, afirma que as famílias têm feito a primeira refeição do dia no fim da tarde. “A gente passa o dia sem comer, porque a prefeitura só traz biscoito e bolacha. Quando chega o almoço, às 16 horas, são doações trazidas por igrejas ou vizinhos que têm uma condição de vida um pouco melhor”, diz. Sobre as refeições que a gestão municipal diz estar enviando, Cristiane reage. “É mentira. Se eles estivessem mandando comida, a gente não precisava protestar. Os adultos aguentam a fome, mas crianças e idosos não”.
Na terça-feira (5), data da entrevista concedida ao Brasil de Fato, Alexsandra afirma que não foi ofertado almoço e jantar às famílias. “Se depender deles, a gente morre. Precisamos lutar. Nós temos voz, temos força, mas precisamos brigar”, diz. Os desabrigados já realizaram dois protestos denunciando a situação, na segunda e terça-feira (4 e 5), fechando o tráfego na avenida Presidente Kennedy, principal via do bairro.
Segundo Alexsandra, funcionários da rede de assistência social da prefeitura fizeram visitas às moradias atingidas, fazendo registros dos locais, mas sem devolutivas de que ações devem ser tomadas em prol das famílias afetadas.
Desde domingo (3), os ocupantes do abrigo sentem que podem ser removidos do local a qualquer momento, sem ações de reparo às perdas e danos sofridos nos lares afetados pelas chuvas. “Tem gente que perdeu tudo: cama, eletrodomésticos, roupas, comida do armário e documentos. E a prefeitura só nos deu um kit de água sanitária, vassoura, um pano de chão e um balde para limparmos a lama”, afirma Alexsandra, afirmando que também receberam um colchão de solteiro para um possível retorno às casas, que sofrem com a presença de ratos, escorpiões, baratas, mosquitos e outros bichos. As famílias pedem doações de produtos de higiene, fraldas, roupas e alimentos crus.
Cristiane Nascimento, que não é residente em Peixinhos, mas foi levada àquele abrigo após ser resgatada pelo Corpo de Bombeiros, espera do poder público ações mais resolutivas quanto às necessidades dos atingidos. “Eu moro em Salgadinho, na beira do mangue, e perdi tudo com a água. Não tenho como voltar para casa com meus filhos, porque é tempo de chuva e vai acontecer de novo. Eu preciso de auxílio moradia para recomeçar a vida”, resume a mãe, que teme ser colocada na rua sem amparo estatal. “A diretora da escola já foi lá nos dizer que a prefeitura quer a desocupação da escola para retomar as aulas”, diz ela.

| Crédito: Cedida ao Brasil de Fato
Em nota enviada ao Brasil de Fato, a prefeitura de Olinda diz estar distribuindo alimentos e refeições no abrigo da escola Monsenhor Arruda Câmara “sem interrupção” desde a última sexta-feira (1º). “Equipes formadas por profissionais da Assistência Social e merendeiras do município atuam no local, acompanhando de perto a situação das famílias acolhidas. Os alimentos passam por rigoroso controle de qualidade, garantindo segurança alimentar a todos”, diz a resposta da gestão municipal.
A prefeitura de Olinda também afirma estar prestando assistência psicossocial e humanitária às famílias atingidas, declarando também estar distribuindo donativos enviados pela Defesa Civil do Estado e pelo Governo Federal, além de ter iniciado uma campanha de arrecadação para ampliar apoio às vítimas. “A Defesa Civil segue em monitoramento contínuo das áreas afetadas, adotando as medidas necessárias para garantir a segurança da população e avaliar, quando possível, o retorno das famílias às suas residências”, conclui a nota da gestão municipal.
A Agência Pernambucana de Águas e Climas (Apac) prevê uma redução no volume das chuvas até a sexta-feira (8), mas alerta para o retorno de chuvas moderadas a fortes no fim de semana. Até o momento foram confirmadas as mortes de seis pessoas, no Recife, Olinda e São Lourenço da Mata.
O Governo Federal reconheceu situação de emergência em 23 cidades atingidas pelas águas em Pernambuco. Com o reconhecimento, os municípios poderão solicitar recursos federais para ações de defesa civil, tais como compra de cestas básicas, água mineral, refeição para trabalhadores e voluntários, kits de limpeza de residência, higiene pessoal e dormitório. Já o Governo do Estado reconhece 27 cidades em situação de emergência, com a liberação R$ 1,2 milhão para os municípios afetados.
