Subornos e propinas

Quem são os dois ex-ministros de Defesa da China condenados à prisão perpétua por corrupção

Caso dos ex-ministros da Defesa envolvendo propinas ilustra escala da campanha anticorrupção militar da China

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Ex-ministro da Defesa da China, Wei Fenghe, participa da cúpula do Diálogo Shangri-La do IISS em Singapura, em 2 de junho de 2019.
Ex-ministro de Defesa da China, Wei Fenghe, participa da cúpula do Diálogo Shangri-La do IISS em Singapura | Crédito: Roslan Rahman/AFP

O tribunal militar da China condenou à pena de morte, na quinta-feira (7), os ex-ministros da Defesa Wei Fenghe e Li Shangfu, que também foram membros da Comissão Militar Central do Partido Comunista da China (PCCh). Ainda assim, a própria sentença suspende a execução por dois anos; caso os condenados apresentem bom comportamento nesse período, a pena é convertida automaticamente em prisão perpétua, sem qualquer possibilidade de redução ou liberdade condicional.

As sentenças foram proferidas separadamente pelo mesmo tribunal e confirmam acusações de corrupção investigadas desde 2023.

Wei foi condenado pelo crime de recebimento de subornos, enquanto Li respondeu por dois crimes simultâneos: recebimento e oferta de subornos, com penas aplicadas em concurso material. Ambos tiveram os direitos políticos cassados vitaliciamente e todos os bens pessoais confiscados.

Quem são Wei Fenghe e Li Shangfu

Wei Fenghe nasceu em fevereiro de 1954 no estado de Shandong e fez carreira no Segundo Corpo de Artilharia, braço de mísseis balísticos do Exército de Libertação Popular. Se tornou comandante do Segundo Corpo de Artilharia em 2012 e, em dezembro de 2015, assumiu o comando da recém-criada Força de Foguetes, cargo que exerceu até 2017, segundo currículo oficial publicado pela Xinhua. Em outubro de 2017, foi eleito membro da Comissão Militar Central do PCCh na 19ª sessão plenária do Comitê Central. Em março de 2018, foi nomeado conselheiro de Estado e ministro da Defesa, cargo que ocupou até 2023.

Em junho de 2022, Wei representou a China na 19ª edição do Diálogo Shangri-La, principal fórum de segurança da Ásia-Pacífico, realizado em Singapura. Foi a primeira vez, desde 2011, que a China elevava sua representação no fórum ao nível de ministro da Defesa. Na ocasião, Wei afirmou que Taiwan é uma questão interna da China e que o país não hesitaria em ir à guerra, a qualquer custo, caso alguém tentasse promover a separação do território. Wei também abordou a situação no Mar do Sul da China, as relações sino-estadunidenses e a crise na Ucrânia.

Li Shangfu, nascido em fevereiro de 1958 em Chengdu, província de Sichuan, formou-se em 1982 pela Universidade Nacional de Defesa em Ciência e Tecnologia e fez sua carreira no Centro de Lançamento de Satélites de Xichang ao longo de décadas, segundo a enciclopédia estatal Baidu Baike. Atuou como comandante-geral do sistema de lançamento da missão lunar Chang’e-2 e chefiou o Departamento de Desenvolvimento de Equipamentos da Comissão Militar Central. Em 2021, foi Li quem emitiu a ordem de lançamento da missão tripulada Shenzhou-12, que levou três astronautas à estação espacial chinesa, Tiangong.

Ao assumir o Ministério da Defesa em 2023, Li já figurava, desde 2018, na lista de sanções do governo dos Estados Unidos, aplicadas com base na lei Caatsa (sigla em inglês de Lei de Combate aos Adversários dos Estados Unidos por Meio de Sanções), por ter supervisionado a compra de 24 caças Su-35 e sistemas de mísseis S-400 da Rússia quando chefiava o Departamento de Desenvolvimento de Equipamentos, conforme registros do Departamento de Estado estadunidense.

A parte chinesa citou essa condição como justificativa para recusar encontros formais com o então secretário de Defesa estadunidense, Lloyd Austin, durante o Shangri-La de 2023. Li Shangfu foi afastado do cargo em outubro de 2023, após quase dois meses sem aparições públicas, e formalmente expulso do Partido Comunista da China em junho de 2024, por decisão do Politburo.

Ex-ministro da Defesa da China, Li Shangfu, na 20ª Cúpula do Diálogo de Shangri-La, em Singapura, em 4 de junho de 2023.
Ex-ministro da Defesa da China, Li Shangfu, na 20ª Cúpula do Diálogo de Shangri-La, em Singapura, em 4 de junho de 2023 | Crédito: Roslan Rahman – AFP

Fontes oficiais confirmam que Li Shangfu foi condenado tanto por receber quanto por oferecer subornos, o que indica que ele próprio pagou propinas para obter benefícios na carreira. Os documentos oficiais não especificam os destinatários dos pagamentos.

Campanha anticorrupção em números

A condenação dos dois ex-ministros se insere na mais extensa campanha de combate à corrupção já levada a cabo pelo Partido Comunista da China. Em 2025, os órgãos de fiscalização disciplinar em todo o país instauraram 1 milhão de processos e aplicaram punições a 983 mil pessoas, incluindo quadros de nível ministerial e provincial, segundo comunicado da Comissão Central de Disciplina e Supervisão do Estado divulgado em janeiro de 2026. No primeiro semestre de 2025, foram abertos processos contra 43 quadros de nível provincial e ministerial, conforme dados da mesma comissão.

No setor militar, os quatro primeiros comandantes da Força de Foguetes após sua criação em 2015 foram investigados: Wei Fenghe, Zhou Yaning, Li Yuchao e Wang Houbin. Também foram afastados e investigados o ex-vice-comandante Zhang Zhenzhong, o ex-chefe do Estado-Maior da Força de Foguetes Sun Jinming e o ex-chefe do Departamento de Armamentos Lü Hong, segundo comunicados oficiais do Ministério da Defesa e da Comissão Central de Disciplina.

A sentença deste 7 de maio representa o nível mais alto de punição previsto no sistema jurídico chinês para crimes de corrupção sem execução imediata, a chamada pena de morte com suspensão, que, na prática, equivale à prisão perpétua sem progressão de regime.

Editado por: Rafaella Coury

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