ALEGAÇÕES FINAIS

‘A Guiana Essequiba é parte da Venezuela desde seu nascimento’, diz Delcy Rodríguez em Haia

Presidenta venezuelana compareceu pessoalmente ao último dia de sessões sobre controvérsia territorial

Delegação venezuelana, chefiada pela presidenta Delcy Rodríguez, na Corte Internacional de Justiça, em Haia.
Delegação venezuelana, chefiada pela presidenta Delcy Rodríguez, na Corte Internacional de Justiça, em Haia | Crédito: Divulgação/Prensa Presidencial VE

Nesta segunda-feira (11), último dia de sessões na Corte Internacional de Justiça (CIJ), a Venezuela apresentou suas alegações finais a respeito da disputa territorial com a Guiana sobre a soberania do território do Essequibo. A presidenta venezuelana, Delcy Rodríguez, compareceu pessoalmente e defendeu a ausência de jurisprudência da CIJ para julgar o caso. 

“A posição histórica da Venezuela de não submeter a mecanismos de resolução judicial de controvérsias os assuntos relacionados com seus interesses vitais não é um ato de rebeldia nem de desconhecimento da corte como instituição. A Venezuela é uma fervorosa promotora e defensora do direito internacional. Por isso, respeita a Corte Internacional de Justiça como principal órgão judicial das Nações Unidas. Trata-se, contudo, de defender um dos atributos essenciais de nosso Estado, como é sua soberania”, disse a presidenta.

Segundo Rodríguez, a base para a resolução da disputa territorial sobre a Guiana Essequiba reside na aplicação de tratados que priorizam o entendimento diplomático em detrimento do litígio técnico. O Acordo de Genebra de 1966 é destacado como o instrumento jurídico vinculante que exige uma solução negociada e mutuamente aceitável, reforçando que a natureza desta controvérsia é, antes de tudo, política e diplomática, e não meramente jurídica.

“A controvérsia territorial sobre a Guiana Essequiba é regulada por um tratado internacional juridicamente vinculante que deve ser cumprido pelas partes de boa fé. Este não é outro que o Acordo de Genebra de 1966. É um tratado singular ao qual seria difícil encontrar um paralelo na prática descolonizadora que busca resolver uma injustiça colonial mediante um acerto mutuamente aceitável. A solução negociada é, portanto, uma condução inevitável e indispensável da controvérsia”, afirmou.

“Nunca se tratou de uma controvérsia jurídica. Sempre o objeto, natureza e razão foram resolver a controvérsia territorial sobre a Guiana Essequiba mediante a negociação política, pacífica e diplomática”, defendeu Rodríguez. “Trata-se de resolver uma controvérsia territorial que ambas as partes reconheceram expressamente como não resolvida em 1966 e para a qual acordaram um método específico de solução. Esse método é a negociação, não a imposição. Não há vencedores nem vencidos”, completou. 

A presidenta venezuelana criticou a iniciativa da Guiana de judicializar o conflito sem o consentimento da Venezuela, argumentando que essa mudança de estratégia rompe com a lógica da negociação de 1966 e utiliza a Corte de forma a vulnerar a legalidade internacional e exacerbar as divergências.

“A Guiana abandonou a lógica de uma solução mutuamente aceitável e adotou uma estratégia ilícita de judicialização destinada a obter por meio desta corte e sem o consentimento da Venezuela o que não pôde alcançar no marco do Acordo de Genebra, que é validar um laudo fraudulento. Foi uma fórmula de tudo ou nada. A negociação foi substituída pelo litígio, os bons ofícios pela pressão e o consenso político pela ação unilateral que perpetua e exacerba a controvérsia. A Venezuela não pode aceitar que esta virada impulsionada pela Guiana redefina a natureza da controvérsia ou a forma como deve ser resolvida. Tampouco pode apoiar a utilização da corte como instrumento para consolidar essa mudança, vulnerando o Acordo de Genebra e a legalidade internacional”, acusou a presidenta. 

Rodríguez retomou elementos históricos e afirmou que qualquer decisão judicial externa dificilmente proporcionará uma solução definitiva para as partes; ao contrário, tal intervenção poderia radicalizar as posições e afastar as nações do compromisso original.

“A Guiana Essequiba faz parte do território venezuelano desde o seu nascimento. Em 1777, a coroa espanhola criou a Capitania Geral da Venezuela, integrada, entre outras, pela província de Guiana”, disse a presidenta. “Nenhuma sentença desta corte sobre a controvérsia territorial oferecerá uma solução definitiva aceitável para ambas as partes. Pelo contrário, vai exacerbar as diferenças e levaria as partes a se entrincheirarem em suas respectivas posições, afastando-as do acerto prático, satisfatório e mutuamente aceitável ao qual se comprometeram em 1966 com sua assinatura no Acordo de Genebra”, disse.

“Nós ratificamos que a Venezuela está pronta e preparada para avançar em uma negociação direta que seja o resultado deste processo que busca levar a corte a uma situação vergonhosa como é pretender validar um fraude ocorrido há 127 anos. A Venezuela não vai reconhecer porque estaríamos nós mesmos incorrendo em ilegalidade internacional. E ao final do caminho somente resta uma opção. Essa opção é a negociação direta. Essa opção é nos sentarmos as partes para resolver esta controvérsia territorial. E digo isso pelo bem do futuro da Guiana, da Venezuela”, finalizou a mandatária. 

A controvérsia

A área em disputa possui quase 160 mil quilômetros quadrados e representa cerca de dois terços do território atual da Guiana. 

A Venezuela baseia sua defesa no Acordo de Genebra, assinado em 1966, segundo o qual se reconhece a existência da controvérsia e estabelece a necessidade de uma solução negociada e satisfatória para ambas as partes.

Enquanto isso, o governo guianense defende a validade de um tratado anterior, o Laudo Arbitral de Paris, firmado em 1899, sem a participação dos venezuelanos.

A disputa ganhou novos capítulos a partir de 2015, quando a empresa norte-americana ExxonMobil descobriu grandes reservas de petróleo na região. A Venezuela acusa a Guiana de violar acordos internacionais ao permitir a exploração de riquezas em uma área que ainda não teve sua fronteira definida de forma consensual.

A delegação da Guiana defende a validade da fronteira estabelecida no século 19 e pede que o tribunal ratifique a demarcação atual. Os 15 magistrados da Organização das Nações Unidas vão avaliar as provas apresentadas por ambos os lados antes de anunciar uma decisão final, para a qual não há prazo específico.

Editado por: Thaís Ferraz

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