Maio das mães

Òǹkọ̀wé: a história do Brasil em Um defeito de cor

Entre perdas e resistência, Kehinde revela a força das mães negras na história do Brasil

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ana maria gonçalves
A escritora brasileira Ana Maria Gonçalves é autora do livro ‘Um Defeito de Cor’ | Crédito: Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Escrever sobre esta obra talvez seja um dos meus maiores desafios. Dada sua profundidade, complexidade e beleza, as palavras chegam a faltar para defini-la em algumas poucas linhas. Mais do que apresentar a obra de Ana Maria Gonçalves, este texto é um convite à sua leitura, a descobrir um Brasil contado pela narrativa de uma mulher negra que foi arrancada de sua terra, viveu as mais diversas violências, mas nunca permitiu ser dobrada pelo açoite, pelas condições degradantes de vida, pela tentativa de apagamento de sua história, de sua fé e de sua cultura.

Meu primeiro acesso a ‘Um defeito de cor’ se deu em 2020, no início da pandemia, quando qualquer coisa parecia incapaz de suspender aquele cenário caótico e amedrontador. Superando todas as minhas expectativas, a obra se apresentou para mim não somente como uma narrativa da trajetória de Kehinde, inspirada na vida de Luísa Mahin, mãe do poeta e advogado Luiz Gama (o que descobri apenas depois, quando, instigada pela leitura, busquei saber mais sobre o livro e sua construção histórica).

Mas o fato é que Um defeito de cor me contou sobre a história do Brasil: as raízes de uma sociedade marcada pelo escravismo, a violência como pedra de torque, a constituição de uma economia dependente e as desigualdades estruturais racializadas e generificadas. Para além disso — e talvez seja esse o elemento mais bonito e profundo da obra — o livro me contou sobre insurgências, sobre formas diversas de reinventar a vida, de manter vivas as memórias, os afetos e os vínculos mesmo diante da brutalidade cotidiana.

E talvez seja impossível escrever sobre a obra neste mês de maio das mães sem pensar no quanto a maternidade, para mulheres negras, esteve historicamente atravessada pela violência, pela perda e pela luta permanente por reparação. Longe da romantização do amor materno como sentimento puro e incondicional, Um defeito de cor nos apresenta uma maternidade construída também na ausência, na separação forçada, no medo e na busca incessante pelos filhos arrancados de seus braços. 

Kehinde carrega a dimensão do cuidado, mas também da revolta e da insistência em reencontrar aquilo que lhe foi roubado. Sua trajetória ecoa a luta de tantas mães brasileiras que transformaram o luto em denúncia e resistência, como as Mães de Maio, as Mães pela Diversidade e as Mães do Curió. Mulheres que, diante da violência do Estado e da tentativa de apagamento de seus filhos, seguem reivindicando memória, justiça e o direito de continuar existindo.

Kehinde não é apenas uma personagem. Ela é a expressão de milhares de mulheres negras que sustentaram este país enquanto eram violentadas, silenciadas e invisibilizadas pela história oficial. Pela narrativa de Ana Maria Gonçalves, acompanhamos não apenas os horrores da escravidão, mas também as estratégias de sobrevivência, as redes de solidariedade, a preservação das tradições africanas, a força das espiritualidades e a recusa permanente em aceitar a desumanização como destino.

Talvez por isso a leitura seja tão avassaladora. Porque ela nos obriga a encarar um Brasil que ainda existe. Um país onde a herança escravista permanece estruturando relações sociais, econômicas e políticas; onde a população negra segue sendo alvo prioritário da violência, da fome e da precarização da vida. Ao mesmo tempo, a obra também revela a potência histórica da resistência negra, frequentemente apagada ou reduzida a notas de rodapé.

Ler Um defeito de cor é perceber que a história do Brasil não pode ser compreendida sem ouvir as vozes daqueles e daquelas que foram sistematicamente silenciados. É entender que existe uma memória subterrânea deste país, construída nos terreiros, nos quilombos, nas favelas, nos levantes, nos corpos marcados pela violência, mas também pela coragem de continuar existindo.

Òǹkọ̀wé, palavra iorubá que remete àquela que escreve, ganha aqui um sentido ainda mais profundo. Escrever, para Kehinde, é também um ato de permanência. E talvez seja isso que Ana Maria Gonçalves nos entrega: uma obra monumental que transforma a literatura em memória, denúncia e resistência.

*Samilly Alexandre é mestre em serviço social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e militante do Movimento Brasil Popular.

Editado por: Camila Garcia

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