Enquanto os adultos debatem os rumos da agricultura nacional no Centro Comunitário Athos Bulcão, em Brasília, um outro território de resistência ganha forma no pátio da Universidade de Brasília (UnB). É a Ciranda Camponesa do MPA Mirim. O espaço no festival do 4º Encontro Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) transforma a infância em semente de luta com olhar no futuro.
As atividades traduzem os temas debatidos nas plenárias, como soberania alimentar, agroecologia, feminismo e sementes crioulas, para a linguagem do brincar.
Vivian Catenacci, militante do MPA de São Paulo e integrante do coletivo de Educação Camponesa, explica que, no primeiro momento, a Ciranda surgiu para garantir a participação das mulheres nos espaços de decisão política.
“Este espaço não é só um espaço para que as mulheres possam participar da plenária. Ele nasce como um espaço para acolher as crianças, para que as mulheres possam ter as suas vozes colocadas na plenária por elas mesmas”, destaca a educadora.
Ao longo do tempo, o espaço se tornou uma extensão do próprio movimento. “Tudo o que a gente faz aqui está relacionado com a nossa luta. As crianças vivem um espaço de reconhecimento da sua identidade camponesa e a intenção é fortalecer essa consciência desde a infância”, explica.

Esperança e pertencimento
A coordenação da Ciranda entende que o trabalho com as crianças é fundamental para garantir a continuidade da resistência no campo. Érika Muniz, militante do MPA Bahia e integrante da coordenação do espaço, afirma que o movimento constrói o cotidiano da luta “semeando esperança”.
“A gente, enquanto movimento social, constrói o dia a dia da luta semeando esperança, e as crianças é que garantem a semeadura delas”, define. Segundo ela, o espaço permite que os pequenos compreendam o papel do campesinato para o Brasil a partir de uma linguagem acessível e construída coletivamente.
A formação humana é o eixo central das atividades, que reúnem cerca de 100 crianças de diferentes estados brasileiros. Kriscia Santos Argola, integrante do coletivo de educação camponesa, destaca que a Ciranda trabalha valores como respeito, solidariedade e partilha.
“O alimento para a gente tem sido um momento central de reflexão sobre de onde ele está vindo”, explica. Ela afirma que o espaço fortalece a consciência crítica e o sentimento de pertencimento das crianças ao movimento camponês.
O educador André Santos Villas Boas reforça que os temas debatidos nas plenárias adultas também precisam chegar às crianças. “Sempre que se cria o espaço de discussão dos adultos, as crianças também devem participar com a mesma temática a partir das brincadeiras”, defende.
Segundo ele, o objetivo é aproximar os pequenos de conceitos como agroecologia, sementes crioulas e soberania alimentar de maneira adequada para cada faixa etária.

Independência e cuidado com a terra
No cotidiano da Ciranda, a teoria se transforma em prática através de oficinas de culinária, rodas culturais e atividades ligadas ao cuidado com a terra. Maria Anaí, de 7 anos, vinda da Bahia, conta que a cozinha é sua atividade preferida.
“Eu gosto de fazer comida, salada de fruta, um bocado de coisa. É legal jogar bola e brincar com os amigos aqui”, relata. A chamada “cozinha infantil camponesa” funciona como espaço de troca cultural entre as crianças, reunindo receitas e saberes trazidos de diferentes regiões do país.
A autonomia também aparece como aprendizado importante para os pequenos participantes. “Estou aprendendo muita coisa legal, como ser mais independente”, afirma Valentina de Almeida Rodrigues, de 9 anos, também da Bahia.
A relação com a terra e com as sementes crioulas marca a experiência de Clara Vitória, de 7 anos, do Rio Grande do Sul. “Estou aprendendo a brincar e sobre as sementes crioulas. A gente aprende a plantar e a cuidar da terra, eu acho isso muito legal”, diz.
Protagonismo
A Ciranda também trabalha a escuta ativa e o protagonismo infantil. Elas participaram desde a construção do espaço, apontando o que gostariam de encontrar nas atividades. O processo resultou na criação de espaços como a biblioteca, oficinas de marcenaria e audiovisual.
A memória política do movimento também atravessa as atividades da Ciranda. A edição deste ano presta homenagem ao Frei Sérgio Görgen, liderança histórica do MPA que faleceu em fevereiro. As crianças carregam o rosto do Frei nas camisetas e participam de rodas de conversa, atividades culturais e momentos de mística sobre sua trajetória.
“A gente sabe que, se não envolver as crianças e a juventude, a chance da gente permanecer no campo diminui muito. Sem o chão de luta, fica muito difícil”, reflete Vivian.
A programação incluiu ainda musicalidade, capoeira, contação de histórias e atividades ligadas aos saberes populares e às ervas medicinais.

O futuro da luta camponesa
O MPA quer ampliar o trabalho com as infâncias como marco desses 30 anos. Segundo Kriscia Santos Argola, uma escola nacional de cirandeiros está prevista para fortalecer a formação dos educadores populares. “É na infância que a formação da consciência inicia, então a gente precisa dar mais força a esse momento da vida”, afirma.
Além das oficinas e atividades culturais, as crianças também participam de momentos internacionalistas ao lado de representantes de outros países e preparam uma carta-manifesto para ser apresentada no encerramento do encontro nessa quinta-feira (14).

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