REPARAÇÃO HISTÓRICA

13 de Maio: da abolição inconclusa à luta por vida além do trabalho

Campanha pelo fim da escala 6x1 relaciona tempo de vida do trabalhador, superexploração e legado da escravidão

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Movimento por “Vida Além do Trabalho” fez com que pauta ganhasse força e avançasse no Congresso Nacional
Movimento por “Vida Além do Trabalho” fez com que pauta ganhasse força e avançasse no Congresso Nacional | Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Nesse dia em que se comemora a Abolição da Escravatura no Brasil, estamos enfrentando mais um duelo contra a superexploração do trabalho em nosso país. Primeiramente, é preciso situar que os retrocessos trabalhistas aprovados na era Temer, em que o contrato de trabalho negociado com os patrões se sobrepõe às leis trabalhistas, estão permitindo jornadas de trabalho de 10×1. Dessa maneira, apesar da abolição, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), observa-se anualmente a atualização da lista de empresas brasileiras que lucram com o trabalho análogo à escravidão.

É nesse contexto que a campanha pelo fim da escala 6×1 ganha força, sendo protagonizada por atendentes, entregadores, garçons, empregadas domésticas e toda a diversidade da nossa classe que majoritariamente trabalha na área de prestação de serviços, o que significa uma resposta coletiva frente à dureza de ser trabalhador no Brasil.

O movimento que lidera essa campanha em âmbito nacional se chama Vida Além do Trabalho (VAT) e coloca no centro da discussão o tempo de vida do trabalhador, considerando o tempo de deslocamento em ônibus sujos, superlotados, num trânsito completamente engarrafado. O tempo destinado às tarefas domésticas sobrecarrega principalmente as mulheres trabalhadoras. A uberização do trabalho mediado por plataformas digitais, caracterizada pela informalidade e por cargas horárias longas, transferindo os riscos para o trabalhador, anda ao lado do trabalho remoto e das redes sociais, colocando o trabalhador 100% à disposição do trabalho.

A classe trabalhadora brasileira foi uma das últimas do mundo a ser forjada livre. As discussões feitas pelos oligarcas escravocratas nas câmaras e assembleias às vésperas da Lei Áurea eram de que “a abolição iria quebrar o país”, e essa resistência fez com que o Brasil se tornasse o último país do mundo a abolir a escravização, mas, além disso, se consolidasse como um país atrasado na industrialização, dirigido pelos interesses das oligarquias latifundiárias, destinado a ser o “celeiro do mundo”.

Agora, novamente, vemos esse mesmo argumento ser mobilizado para inviabilizar que a nossa classe trabalhadora consiga ter perspectiva de vida em tempos de revoluções tecnológicas que deveriam viabilizar justamente mais tempo livre aos trabalhadores.

A luta pelo tempo livre e a aprovação do fim da escala 6×1 estão intrinsecamente ligadas à necessidade de reparações aos crimes da escravidão e do colonialismo propagado por séculos em nosso território. Na história de luta do nosso povo escravizado, quem não avançava pela aquilombagem e rebeldia retrocedia. Não podemos seguir nos guiando pelos argumentos de quem vive do sufoco alheio; viver não é só trabalhar!

*Karen Santos é vereadora de Porto Alegre (Psol)

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Marcelo Ferreira

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