A assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, costuma ser apresentada nos livros de história como um gesto da monarquia brasileira. Em Minas Gerais e em todo o Brasil, porém, a abolição da escravidão foi resultado direto de décadas de resistência negra, articulação comunitária, rebeliões, fugas coletivas e mobilizações populares que desafiaram o sistema escravista até torná-lo insustentável.
Muito antes da lei assinada pela princesa Isabel, homens e mulheres negros já protagonizavam movimentos organizados pela liberdade em diferentes regiões do estado. Entre as figuras mais emblemáticas está o líder quilombola Rei Ambrósio, responsável pela articulação do Quilombo do Campo Grande, uma confederação formada por 27 quilombos espalhados pelas regiões Centro-Oeste, Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro.
Ambrósio
O Quilombo do Ambrósio, localizado na região do atual município de Cristais, chegou a abrigar cerca de 15 mil pessoas e é considerado um dos maiores e mais duradouros quilombos de Minas Gerais. Entre 1726 e 1760, a comunidade resistiu às ofensivas militares da Coroa Portuguesa, desenvolvendo formas próprias de organização política, produção agrícola e defesa armada.

Chico Rei
Outro símbolo da resistência negra em Minas é Chico Rei, personagem cuja trajetória mistura história e tradição oral. Segundo relatos preservados pela memória popular, ele teria sido um rei do Congo escravizado e levado para Vila Rica, atual Ouro Preto. Após conquistar sua alforria, teria comprado a liberdade de outros negros escravizados e ajudado na construção da Igreja de Santa Ifigênia, referência da religiosidade negra na cidade.

Rosa Cabinda
A luta contra a escravidão também teve protagonismo feminino. Em Juiz de Fora, Rosa Cabinda tornou-se símbolo da resistência urbana no século 19. Nascida na África e trazida à força para Minas Gerais, ela travou uma batalha judicial para garantir sua liberdade, conquistada apenas em 1873, mesmo tendo direito legal à alforria desde a promulgação da Lei do Ventre Livre, em 1871.
Sua trajetória expõe como a população negra precisou enfrentar não apenas a violência física da escravidão, mas também mecanismos jurídicos e políticos criados para prolongar a exploração. Atualmente, o nome de Rosa Cabinda é homenageado por movimentos feministas e negros da cidade.

Revolta de Carrancas
Além das lideranças individuais, Minas Gerais também foi palco de levantes coletivos organizados por pessoas escravizadas. Um dos episódios mais marcantes foi a Revolta de Carrancas, ocorrida em 1833, no Sul de Minas. Frequentemente lembrada como “o outro 13 de maio”, a revolta reuniu dezenas de escravizados que se insurgiram contra senhores de engenho e fazendeiros da região.
A rebelião foi violentamente reprimida, mas tornou-se símbolo da luta contínua pela liberdade décadas antes da abolição formal. Também naquele período, conspirações como a dos chamados “negros minas” revelavam que estratégias de resistência armada e articulação clandestina eram recorrentes nas senzalas mineiras.

Na segunda metade do século 19, o movimento abolicionista ganhou força também nos centros urbanos. Cidades como Mariana, Barbacena e Ouro Preto passaram a sediar festas abolicionistas, quermesses, peças de teatro e encontros organizados para arrecadar recursos e ampliar o debate público sobre o fim da escravidão.
A imprensa mineira também desempenhou papel importante ao abrir espaço para intelectuais, juristas e ativistas ligados à causa abolicionista. Ao mesmo tempo, cresciam as fugas coletivas, redes de proteção e ações organizadas por negros escravizados e libertos, que pressionavam o sistema econômico da província com maior número de pessoas escravizadas do Império.
13 de maio como momento de reflexão
Nas redes sociais, parlamentares negras mineiras destacaram o 13 de maio como uma data que precisa ser encarada como um momento de reflexão sobre as permanências do racismo estrutural no Brasil. Para elas, a abolição formal da escravidão não significou inclusão social, reparação histórica ou garantia de direitos à população negra, que continuou submetida à exclusão econômica, à violência e à marginalização política ao longo das décadas seguintes.
A deputada estadual Andreia de Jesus (PT) afirmou que “a cultura negra gera trabalho, renda, movimenta a economia e sustenta histórias, identidade, pertencimento e dignidade”. Ao defender políticas de valorização das comunidades tradicionais e regularização dos territórios quilombolas, a parlamentar aponta para a necessidade de reparação concreta, que passa pelo acesso à terra, incentivo à cultura e garantia de direitos historicamente negados.
Já a deputada federal Dandara (PT) utilizou as redes para questionar a narrativa oficial que atribui a abolição exclusivamente à princesa Isabel. Em sua fala, ela reforça que a liberdade foi construída pela resistência do próprio povo negro, nos quilombos, terreiros, periferias e movimentos populares.
Dandara relaciona o passado escravista às desigualdades atuais, como a maior incidência da violência sobre corpos negros, a precarização do trabalho e a concentração da população negra nas periferias urbanas.
A reflexão apresentada pelas parlamentares também evidencia como os impactos da escravidão permanecem presentes nas estruturas sociais brasileiras. Mais de um século após a Lei Áurea, a população negra ainda enfrenta maiores índices de desemprego, menor renda média e dificuldades de acesso a direitos básicos. Nesse contexto, o 13 de maio tem sido ressignificado por movimentos como um marco não de celebração, mas de denúncia e continuidade da luta por igualdade racial, justiça social e reparação histórica.
