PELA VIDA

Bancos Vermelhos ocupam Porto Alegre em meio à alta dos feminicídios no RS

Projeto transforma espaços públicos em locais de memória, conscientização e enfrentamento à violência contra as mulheres

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Nesta segunda-feira (12), o Brasil de Fato realizou um ensaio fotográfico com algumas das embaixadoras da iniciativa na capital gaúcha
Nesta segunda-feira (12), o Brasil de Fato realizou um ensaio fotográfico com algumas das embaixadoras da iniciativa na capital gaúcha | Crédito: Clarissa Londero

Em meio ao aumento dos casos de feminicídio no Rio Grande do Sul, o projeto Bancos Vermelhos amplia sua presença em Porto Alegre com ações de conscientização sobre a violência contra as mulheres. O Brasil de Fato realizou, nesta segunda-feira (12), um ensaio fotográfico com algumas das embaixadoras da iniciativa na capital gaúcha.

O movimento acontece em um cenário alarmante. Segundo dados levantados pela imprensa, o Rio Grande do Sul já registra 33 feminicídios em 2026. Já o levantamento do Lupa Feminista contabiliza 44 casos entre 1º de janeiro e 10 de maio. Conforme o Observatório Estadual de Segurança Pública (Oesp), vinculado à Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP-RS), de janeiro a abril deste ano foram registrados mais de 18 mil casos de violência contra mulheres no estado, entre ameaças, lesão corporal, estupro, feminicídio tentado e consumado.

Em Porto Alegre, a iniciativa dos bancos vermelhos vem se expandindo em espaços públicos e instituições. Coordenadora-geral nacional dos Estados Gerais das Mulheres – Brasil (EGM/BR) e embaixadora nacional do projeto Panchine Rosse Itália, a advogada Denise Argemi afirma que a Capital já possui bancos instalados em praças, escolas, hospitais, órgãos públicos, instituições do sistema de Justiça e no Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (CEDM/RS).

Segundo ela, o banco vermelho do CEDM/RS foi inaugurado pela ministra das Mulheres, Márcia Lopes, em agosto de 2025, durante a abertura da 5ª Conferência Estadual de Políticas para as Mulheres, realizada no Ritter Hotel.

Argemi explica que a articulação institucional com Porto Alegre ocorreu diretamente com a Itália. De acordo com ela, a prefeitura, por meio do secretário municipal de Comunicação, Luiz Otávio Prates, entrou em contato com Isa Maggi, presidenta dos Stati Generali delle Donne, organização responsável pela marca internacional Panchine Rosse. Na ocasião, foi informado que a representação do projeto no Brasil está sob responsabilidade de Denise Argemi desde 2020.

“Temos um banco lançado na Praça da Alfândega, no dia 6 de março de 2026, e outro na Praça México, lançado em 7 de maio. Agora serão instalados mais nove bancos vermelhos em diversas praças da cidade, e já temos um calendário estabelecido junto à Prefeitura Municipal, por meio da Gerência das Praças”, afirma.

“Na Itália nós temos um lema: ‘Marzo Tutto l’Anno’, março o ano inteiro. O enfrentamento à violência contra as mulheres não pode se limitar ao mês de março ou a campanhas sazonais, como o Agosto Lilás ou os ’21 Dias de Ativismo'”, explica Argemi  | Crédito: Clarissa Londero
 A iniciativa busca associar memória, conscientização e responsabilização social | Crédito: Clarissa Londero
“O Banco Vermelho é memória das mulheres vítimas de feminicídio, mortas por homens que diziam amá-las”, afirma Argemi | Crédito: Clarissa Londero

As instalações também alcançam instituições do sistema de Justiça. “Temos bancos vermelhos no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), no Ministério Público e três junto ao Tribunal de Justiça, um no Palácio da Justiça e outros dois nos fóruns.”

Além da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio Grande do Sul, a coordenação dos EGM/BR foi convidada recentemente a integrar o ato de entrega de um Banco Vermelho no Centro Administrativo Fernando Ferrari (Caff), produzido por um apenado do sistema prisional gaúcho. A cerimônia ocorreu durante a gestão do então secretário da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo (SSPS), Jorge Pozzobon, e contou com a entrega simbólica do banco ao governador do estado.

A iniciativa busca associar memória, conscientização e responsabilização social, demonstrando que o enfrentamento à violência contra as mulheres também exige reflexão coletiva, transformação cultural e reconstrução de trajetórias humanas.

O atual secretário da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo (SSPS), César Kurtz, também avalia a possibilidade de estabelecer uma parceria mais efetiva com a coordenação dos Estados Gerais das Mulheres – Brasil (EGM/BR), com o objetivo de ampliar a produção de Bancos Vermelhos em conjunto com a Polícia Penal.

Surgimento do projeto e a importância da mobilização coletiva

Segundo ela, o projeto vem ampliando parcerias institucionais e ações educativas em diferentes áreas da sociedade. “Temos ido às escolas, por meio do projeto ‘Bancos Vermelhos na Escola’, aos municípios, às câmaras de vereadores e aos hospitais. Também estamos desenvolvendo novas parcerias com o Sistema Penal e Socioeducativo do Rio Grande do Sul e construindo uma parceria com a Polícia Rodoviária Federal, não apenas no Rio Grande do Sul, mas em todo o Brasil.”

A coordenadora nacional destaca ainda que o projeto é política pública na Itália desde 2016 e passou a integrar também a política externa italiana a partir de 8 de março de 2024, quando o vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, recomendou que todas as embaixadas italianas no mundo instalassem um Banco Vermelho em suas dependências como símbolo permanente de enfrentamento à violência contra as mulheres.

No Brasil, o projeto passou a integrar oficialmente o Agosto Lilás após legislação aprovada em julho de 2024. “Nós pretendemos expandir cada vez mais. E é importante lembrar que o nosso projeto internacional Panchine Rosse é totalmente gratuito, voluntário e social. Não é um projeto comercial.”

Argemi também criticou iniciativas que, segundo afirma, buscam lucrar com a pauta da violência contra as mulheres. “Não podemos comercializar a morte das mulheres. Não se pode vender bancos pintados de vermelho, cobrar por termos de adesão ou comercializar palestras em nome do projeto Panchine Rosse.”

“Memória das mulheres vítimas de feminicídio”

Para a advogada, o projeto replica no Brasil uma experiência italiana consolidada ao longo de uma década, utilizando bancos em locais de grande circulação de pessoas como símbolos de convivência, memória e reflexão coletiva. “Na Itália, o banco é um espaço de encontro, diálogo e convivência social. Foi justamente por isso que Tina Magenta, inspirada nos Zapatos Rojos do México (Juarez), lançou o primeiro Banco Vermelho, em 2016, na cidade de Lomello.”

Argemi destaca que os Bancos Vermelhos funcionam como espaços permanentes de memória, conscientização coletiva e prevenção. “O Banco Vermelho é memória das mulheres vítimas de feminicídio, mortas por homens que diziam amá-las. É conscientização. É prevenção. É um chamado permanente à responsabilidade social.”

 Para Argemi, o projeto replica no Brasil uma experiência italiana consolidada ao longo de uma década | Crédito: Clarissa Londero
Segundo a coordenadora, Denise Argemi, é necessário atuar ao mesmo tempo na prevenção, na proteção das mulheres e na responsabilização dos agressores, inclusive diante do avanço da violência vicária | Crédito: Clarissa Londero

Mobilização permanente

Para Argemi, o avanço dos feminicídios exige mobilização permanente e responsabilidade coletiva.

“Na Itália nós temos um lema: ‘Marzo Tutto l’Anno’, março o ano inteiro. O enfrentamento à violência contra as mulheres não pode se limitar ao mês de março ou a campanhas sazonais, como o Agosto Lilás ou os ‘21 Dias de Ativismo’, que iniciam em 20 de novembro — Dia da Consciência Negra, para evidenciar também o impacto do racismo estrutural sobre a violência contra mulheres negras, e terminam em 10 de dezembro, data instituída pela ONU em referência à adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1948, logo após a Segunda Guerra Mundial.”

Ela afirma que a violência de gênero é um fenômeno estrutural e multifatorial, que não será resolvido por ações isoladas ou políticas fragmentadas. Segundo a coordenadora, é necessário atuar ao mesmo tempo na prevenção, na proteção das mulheres e na responsabilização dos agressores, inclusive diante do avanço da violência vicária, quando filhos e familiares são usados para provocar sofrimento e controle emocional sobre as vítimas.

Nesse sentido defende a articulação entre instituições, transversalidade entre secretarias e políticas públicas integradas, que considerem fatores como raça, classe, território, deficiência, idade e vulnerabilidade econômica.

A Itália aprovou, no final de 2025, legislação que tipifica o feminicídio como crime autônomo no Código Penal italiano, estabelecendo a prisão perpétua como pena máxima. No Brasil, a Lei nº 14.994/2024 também tornou o feminicídio crime autônomo, elevando a pena para reclusão de 20 a 40 anos.

“Ele representa essa questão da gente sentar, refletir sobre o assunto e depois levantar para lutar pelo combate à violência contra as mulheres”, pontua a defensora Paula Britto Granetto | Crédito: Clarissa Londero

Feminicídio também é pauta da classe trabalhadora

A relação entre trabalho e violência de gênero também esteve presente nas mobilizações do 1º de Maio deste ano, quando o combate ao feminicídio apareceu entre as pautas levantadas por movimentos sociais e entidades sindicais.

Entre as 33 vítimas de feminicídio registradas até o momento no Rio Grande do Sul, ao menos 24 tiveram suas profissões identificadas. A lista inclui bombeira civil, vendedora, boleira, estudante, monitora escolar, servidoras públicas, agricultoras, vendedoras, caixa de supermercado, costureira, babá, advogada, cuidadora e empreendedora.

Os dados reforçam que a violência atravessa diferentes classes sociais, profissões e faixas etárias. Entre as vítimas estão trabalhadoras formais, autônomas, aposentadas, desempregadas e jovens estudantes.

A bombeira civil Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte, de 31 anos, morta em Guaíba no dia 4 de janeiro; a estudante Mirella dos Santos Silva, de 15 anos, assassinada em Sapucaia do Sul; e a advogada Dione Poisl, de 74 anos, vítima em Viamão, estão entre os casos registrados neste ano.

Ao falar sobre o tema, a coordenadora Denise Argemi ressaltou que os feminicídios atingem mulheres de diferentes profissões e trajetórias. “Essas mulheres mortas eram profissionais. Advogadas, professoras, bombeiras, policiais, donas de casa, empresárias. E quem vai cuidar dessas crianças, desses jovens, desses adolescentes? Como eles passaram o Dia das Mães? Alguém se perguntou?”

No Brasil, o projeto passou a integrar oficialmente o Agosto Lilás após legislação aprovada em julho de 2024 | Crédito: Clarissa Londero

SindBancários relembra caso de trabalhadora vítima de feminicídio

O Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região Metropolitana (SindBancários) foi a primeira entidade sindical a instalar um banco vermelho no estado. Diretora do Departamento Jurídico do sindicato, Priscila Rodrigues Aguirres afirma que a adesão à campanha busca manter o debate sobre violência de gênero permanentemente visível.  “Nós aderimos à divulgação dos bancos vermelhos como uma forma de deixar fixada essa participação e a divulgação da importância do assunto da violência de gênero.”

Segundo ela, os sindicatos também acompanham diariamente diferentes formas de violência sofridas pelas mulheres trabalhadoras. “A gente trabalha com a defesa dos trabalhadores e acompanha os vários tipos de violência contra a mulher. O Banco Vermelho é uma forma de a gente colocar estanque, fixo, o nosso protesto e a necessidade de reconhecimento e valorização dos efeitos dessas violências nas mulheres, nos seus filhos e nas suas famílias.”

“O Banco Vermelho é uma forma de a gente colocar estanque, fixo, o nosso protesto e a necessidade de reconhecimento e valorização dos efeitos dessas violências nas mulheres”, frisa Priscila Rodrigues Aguirres | Crédito: Clarissa Londero
Banco Vermelho no SindBancários fica próximo à entrada do CineBancários e do Armazem do Campo | Crédito: Clarissa Londero

Aguirres também relembra o caso de Simone, trabalhadora terceirizada ligada ao sindicato e vítima de feminicídio. “Foi muito complicado e a gente acompanha os desdobramentos ainda.”

Ela relata que a vítima deixou filhos, netos e um enteado que dependiam dela financeiramente e afetivamente. “A família ficou numa situação de bastante vulnerabilidade. Uma irmã acabou acolhendo os filhos dela e as crianças que ela cuidava.”

Segundo a dirigente sindical, o caso permanece marcante para a categoria. “Nós temos o compromisso de fazer aquilo que entendemos que deveria ser feito de proteção à mulher e à criança. É um caso muito marcante para nós e que seguimos acompanhando ao longo do tempo.”

Literatura feminista como denúncia e acolhimento

Integrante do coletivo Mulherio das Letras RS, e também embaixadora, a escritora Neli Germano afirma que a literatura ocupa papel importante no enfrentamento à violência de gênero. “O nosso objetivo é que mais mulheres leiam mulheres.”

Segundo ela, a leitura de obras escritas por mulheres ajuda na construção de consciência coletiva e solidariedade. “As mulheres vão se conscientizando umas das outras, das dores das outras. Vamos trabalhando a sororidade e a dororidade.”

Germano relaciona a literatura ao contexto atual de feminicídios e defende que homens também leiam produções femininas. “Se os homens lerem a nossa literatura, vão enxergar a dor das mulheres.”

A escritora também refletiu sobre os impactos cotidianos da violência de gênero. “Quando a gente sai de casa, tem que pensar na roupa que usa, no horário que sai, qual rua vai entrar.”

Segundo ela, muitas mulheres acabam optando pela solidão diante do medo e da violência. “Hoje muitas de nós vivemos sozinhas. Não porque sejamos anti-homem, mas porque primamos pela nossa paz e proteção.”

“Cada vez que mulheres e homens verem um banco vermelho, vão lembrar que nós não aceitamos a violência”, enfatiza Neli Germano  |  Crédito: Clarissa Londero
“Nós pretendemos expandir cada vez mais. E é importante lembrar que o nosso projeto internacional Panchine Rosse é totalmente gratuito, voluntário e social. Não é um projeto comercial”, reforça Argemi  | Crédito: Clarissa Londero

Germano ainda relaciona a permanência da violência ao patriarcado e compartilhou sua experiência de abuso sexual na infância. “Eu mesma fui vítima de abuso infantil dentro da família.” Ela afirma que transformar essas experiências em literatura exige coragem e também funciona como alerta e acolhimento para outras mulheres. “Ao escrevermos nossas dores, procuramos ampará-las e dizer: abram seus olhos diante da violência.”

Para a escritora, os bancos vermelhos simbolizam que as mulheres não estão sozinhas. “Cada vez que mulheres e homens verem um banco vermelho, vão lembrar que nós não aceitamos a violência.”

E conclui: “Em vida de marido e mulher, a gente mete a colher mesmo”.

“Sentar, refletir e levantar para lutar”

Na capital gaúcha, o primeiro banco vermelho foi pintado e instalado pela Defensoria Pública do Estado em agosto de 2024, na rodoviária de Porto Alegre. Atual dirigente do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública, Paula Britto Granetto afirma que a campanha ajuda a ampliar o debate sobre a violência de gênero. “A campanha dos Bancos Vermelhos chama atenção justamente para essa pauta que hoje nos preocupa tanto, que é a violência contra as mulheres.”

Segundo ela, o banco simboliza reflexão e mobilização coletiva. “Ele representa essa questão da gente sentar, refletir sobre o assunto e depois levantar para lutar pelo combate à violência contra as mulheres.”

Granetto explica que a instalação do primeiro banco ocorreu durante o Agosto Lilás e buscou envolver diretamente mulheres atendidas pela instituição. “A gente ficou sabendo dessa campanha em 2024 e decidiu pintar esse banco na rodoviária junto com as mulheres, justamente para elas participarem da ação e entenderem a importância da conscientização sobre esse tema.”

Em Porto Alegre, a iniciativa dos bancos vermelhos vem se expandindo em espaços públicos e instituições como a Defensoria Publica do Estado | Crédito: Clarissa Londero

Para a defensora, o Banco Vermelho cumpre papel importante de conscientização pública. “Ele tem essa função de conscientização da violência contra as mulheres e da importância da gente estar junto para combater.”

“Não são números, são vidas”

Futura dirigente do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública, Bibiana Veríssimo Bernardes pontua que o estado, assim como o país vive um cenário extremo de violência de gênero.

Para ela, assumir o núcleo representa um desafio diante do aumento dos casos de violência doméstica e feminicídio. “A Defensoria Pública tem justamente esse caráter de acolher as vítimas de violência doméstica e evitar chegar a essa situação extrema, que é o feminicídio.”

Segundo Bernardes, os bancos vermelhos simbolizam o desfecho extremo da violência de gênero. “Esses bancos apresentam justamente esse final da violência, que acaba sendo a morte de uma mulher em contexto de violência de gênero.”

“A gente não pode pensar somente que são quase 40 feminicídios. São vidas que importam e que chegaram ao fim”, afirma Bibiana Veríssimo Bernardes | Crédito: Clarissa Londero

Ela afirma que as campanhas ajudam a conscientizar a população sobre o agravamento da violência contra mulheres. “Essa divulgação dos bancos acaba sendo justamente uma conscientização diante dessa violência cada vez mais avassaladora.”

A defensora ressalta que os feminicídios não podem ser reduzidos a estatísticas. “A gente não pode pensar somente que são quase 40 feminicídios. São vidas que importam e que chegaram ao fim.”

Bernardes também destacou o impacto da violência sobre crianças e adolescentes órfãos do feminicídio. “A violência não acaba na morte da mulher.” Segundo ela, a Defensoria Pública desenvolve um programa específico voltado a essas crianças. “Temos um programa dos órfãos do feminicídio, justamente para acolher essas pessoas que também são vítimas.”

Ela explica que muitas crianças acabam desamparadas após os assassinatos. “São crianças que tiveram suas mães vítimas de violência e acabam ficando sem famílias, totalmente desacolhidas.”

Porto Alegre amplia instalação de bancos vermelhos

Funcionária da Prefeitura de Porto Alegre e embaixadora do projeto, Regina Maria de Oliveira Machado afirma que a Capital precisava se inserir de forma mais efetiva na campanha. “Porto Alegre, como capital de todos os gaúchos, precisava estar bem inserida nessa campanha, uma vez que o Rio Grande do Sul tem um grande índice de feminicídios.”

Segundo ela, a prefeitura decidiu iniciar um projeto piloto com dez bancos vermelhos espalhados pela cidade. “Optamos por fazer um projeto piloto, onde faremos dez bancos vermelhos nas regiões mais vulneráveis da cidade e principalmente em locais públicos com movimentação.”

A proposta, explica Machado, é criar espaços de informação e acolhimento. “A cada semana estamos compondo mais um banco vermelho, para que exista esse espaço de reflexão, ajuda e informação, que é o que as mulheres precisam.”

 “A cada semana estamos compondo mais um banco vermelho”, explica Regina Maria de Oliveira Machado | Crédito: Clarissa Londero

Bancos produzidos por homens apenados por violência contra mulheres

Os bancos vermelhos instalados no Rio Grande do Sul também carregam outra dimensão simbólica: muitos deles são produzidos por homens condenados por violência contra a mulher dentro do sistema prisional gaúcho.

Servidora da Secretaria de Sistema Penal e Socioeducativo e Analista Psicóloga de carreira, da Polícia Penal, Débora Ferreira explica que o projeto envolve trabalho prisional e grupos reflexivos de gênero. “O Banco Vermelho é muito importante para nós por ser uma campanha que lembra a questão do enfrentamento à violência contra a mulher.”

Segundo ela, os bancos são produzidos por apenados que cumprem pena por crimes relacionados à violência de gênero. “Esses bancos são produzidos no sistema prisional gaúcho por pessoas que cometeram esse crime.”

“O Banco Vermelho é muito importante para nós por ser uma campanha que lembra a questão do enfrentamento à violência contra a mulher”, destaca Débora Ferreira | Crédito: Clarissa Londero
Trabalho também envolve homens em penas alternativas | Crédito: Clarissa Londero

Ferreira explica que a produção dos bancos integra um processo educativo e reflexivo. “Tem todo um processo reflexivo também com eles a partir dos crimes cometidos e da temática da violência contra a mulher.” 

Os bancos são confeccionados artesanalmente e acompanhados por equipes multidisciplinares. “A madeira, a pintura, tudo é feito artesanalmente. Temos psicólogos, assistentes sociais e servidores de carreira fazendo esse trabalho reflexivo com eles.”

Segundo ela, os grupos reflexivos já existem há muitos anos em algumas unidades prisionais. “Na Penitenciária Estadual de Canoas (Pecan), temos colegas que desenvolvem esse grupo há 13 anos.”

Além dos presos em regime fechado, o trabalho também envolve homens em penas alternativas. “A gente também desenvolve através das centrais de alternativas penais.”

Ferreira comenta que os resultados observados têm sido positivos. “O levantamento que a gente tem desses que estão em medidas e penas alternativas é de que até agora não temos nenhum índice de reincidência.”

Ela relata que muitos homens não conseguem reconhecer formas não físicas de violência. “A grande maioria deles não consegue perceber a violência em si, a não ser aquela física e que deixa marcas.” Como exemplo, cita o relato de um homem acompanhado pelos grupos. “Ele disse: ‘Eu não bati nela, doutora. Só peguei uns papéis dela e queimei na hora da briga’. Mas aqueles papéis eram documentos de trabalho da companheira, que era contadora.”

De acordo com Ferreira, situações como essa ajudam a demonstrar a importância dos grupos reflexivos. “Eles são convidados a refletir a partir de outra ótica e de outro olhar.”

Ela afirma que o processo produz mudanças perceptíveis nos participantes. “A gente consegue observar diferenças entre quando eles ingressam no grupo e quando chegam ao final.”

Bancos Vermelhos em Porto Alegre | Crédito: Clarissa Londero

Onde buscar ajuda

Em casos de emergência, a orientação é ligar para o 190, da Brigada Militar.

Também é possível acessar o Disque 180, Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, gratuitamente e de forma anônima.

Os endereços e contatos das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) podem ser consultados na plataforma da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul.

Defensoria Pública – Disque 0800 644 5556

Para escuta, acolhimento e orientação, entre em contato com a Escuta Lilás – Disque 0800 541 0803, disponível também para municípios, caso as equipes precisem de orientação

Centros de Referência de Atendimento à Mulher – Saiba mais em: Centro Especializado de Atendimento à Mulher – Secretaria da Mulher

Editado por: Marcelo Ferreira

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