Após seu primeiro show na China, o músico, cantor e compositor Ivan Lins festejou e defendeu a troca cultural entre o país asiático e o Brasil, a partir do Ano Cultural Brasil-China.
“Eu usaria a palavra encantamento. Uma troca de encantamento. Isso seria lindo, isso é fundamental, é uma porta a ser aberta entre o Brasil e a China. E eu acho que isso já começou a acontecer. Eu espero que se intensifique, porque nós temos muita coisa espetacular para trazer para eles. E o que eles produzem aqui, levado para o Brasil, seria uma loucura. Eu espero que isso possa fazer parte de uma política que se preserve. Eu espero que esse encantamento se frutifique, se floresça nas relações brasileiras com a China, da China com o Brasil”, disse aos jornalistas brasileiros.
O carioca de 80 anos subiu ao palco do Festival JZ, em Xangai, no dia 1º de maio, com a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes, e fãs que viajaram de outras províncias do país para vê-lo ao vivo pela primeira vez.
E sua música, de alguma forma, já faz parte dessa troca. Em abril de 2023, a banda do Exército Popular de Libertação tocou “Novo Tempo” na recepção ao presidente Lula em sua primeira visita de Estado à China. Para ele, ver sua música naquele momento, logo no início do governo Lula 3, simbolizou a volta da democracia ao Brasil e o emocionou.
Ivan Lins se define como humanista e de centro, mas, na conversa, não poupou palavras para avaliar o período Bolsonaro. “Acabou aquela bobagem de quatro anos”, disse, classificando o governo como “uma página completamente dispensável na história do Brasil”.
Para ele, o extremismo é a política “das pessoas pela metade”. “Eles só veem metade do lado. O outro lado é apagado completamente.” Sobre a direita em sentido mais amplo, foi ainda mais direto: “O problema é que o povo não tem consciência do estrago que a direita é capaz de fazer”.
Na mesma conversa, falou com entusiasmo sobre a China e o potencial da parceria cultural entre os dois países. “Os países são muito parecidos nessa diversidade”, disse, ao comparar a riqueza artística brasileira e chinesa. Usou a palavra “encantamento” para definir o tipo de troca que imagina possível: “Uma troca de encantamento. Isso seria lindo; isso é fundamental.” E não deixou de tocar num tema que o preocupa como compositor: o colapso do direito autoral no mundo do streaming. “O que era, na época analógica, 100 reais, hoje corresponde a 0,0001 real”, afirmou.
Confira um resumo da entrevista com Ivan Lins, concedida ao Brasil de Fato e O Globo, em Xangai:
Brasil de Fato: Você chegou a ver quando o presidente Lula veio à China em 2023 e a banda tocou “Novo Tempo”?
Ivan Lins: Eu vi. Eu estava assistindo. O Xi Jinping estava caminhando com o Lula ali em frente à tropa e à banda tocando. Aí começou, saiu de um dobrado, entrou em outro dobrado. Aí de repente entrou no terceiro dobrado e eu comecei a falar: “Rapaz, é parecido, eles têm um dobrado parecido com uma música minha.” Isso eu acho que é plágio, cara. Estão plagiando a minha música [risos]. Eu já ia ligar para o pessoal falando: “Olha, está plágio”. Aí eu falei: “Não, não pode ser, não pode ser plágio” [risos]. Estão continuando, está tudo certinho. A ficha demorou a cair. Aí que eu percebi que era a minha música mesmo. Eu fiquei extremamente emocionado. Porque, poxa, eu, como patriota, sou apaixonado pelo meu país. E um país como o Brasil não existe no mundo. E aí, minha música representando o meu país, eu comecei a chorar.
A música “Novo Tempo” acabou representando um momento histórico. O Brasil vinha de um governo que gerou um clima de tensão nas relações com a China, e a escolha da música na recepção a Lula foi vista como um símbolo da vontade do novo governo de restabelecer esses laços. Como você vê isso?
O Brasil se propôs a ser uma democracia. Uma democracia aberta. É um sistema aberto. Nós tivemos quatro anos de um sistema fechado. Não existe um país que está dentro de um planeta e não tem que se relacionar com todos. A democracia se propõe a um diálogo entre as pessoas. Você pode ter adversários, mas não pode fazer do seu adversário já um inimigo antes de qualquer coisa, e não falar com ninguém. Nós tivemos um governo que não se relacionava com quem não gostava. Ou seja, era um país e pessoas pela metade. Eu acho que o extremismo é isso. São pessoas pela metade. Eles só veem metade do lado. O outro lado é apagado completamente. Então, essa é uma forma burra e pequena demais para um país no século 21, como o Brasil, com uma democracia já estabelecida.
Então, quando volta o Lula, volta a democracia, porque todo mundo sabe que ele é democrata. Ele fez dois governos altamente democráticos, abertos. Por exemplo, a questão da Polícia Federal nos dois governos do Lula. Ele nunca se meteu com a Polícia Federal. A Polícia Federal acabou pegando ele. Mas ele não foi lá botar o dedo na Polícia Federal e trocar todo mundo para ficar isento. Sempre foi democrático. E ele voltou. Acabou aquela bobagem de quatro anos, que foi para mim uma grande bobagem politicamente. Uma página completamente dispensável na história do Brasil. E voltou a democracia com todos os seus problemas. A democracia no Brasil tem problemas sérios, mas pelo menos funciona. Com erros e sem erros, mas funciona. Quando eu percebi que a minha música estava novamente junto a todo aquele movimento de devolução do país à democracia, eu fiquei emocionado. Está aí a minha contribuição.
[O Globo] Você está preocupado com um outro “novo tempo” acontecer agora em outubro?
Me preocupo. Me preocupo por causa da internet. A internet, de uma certa maneira, acelerou muito a questão da lavagem cerebral. A ignorância, como meu pai fala, é a mãe de todos os males. Quando a ignorância é pragmática, o cara diz um negócio, você engole aquilo e guarda e não muda mais. E aí o cara tem lá aqueles algoritmos todos. Quando o cara abre, já está o algoritmo pronto para insistir no que ele já pensa. É lavagem cerebral pura. O país se divide. Você vê que a rejeição do Lula é uma coisa absurda. O governo está tentando fazer coisas boas, mas o lado de lá desinforma, mente, camufla, esconde. E a internet é um prato cheio para fazer isso com as pessoas. Isso na minha família. Pessoas com inteligência, com capacidade intelectual para mudar de opinião. Mas só assistem àquilo. Entram no Instagram, é a mesma história. Entram no Facebook, mesma história. Vão na televisão: “não quero ver isso, vou ver a Jovem Pan.” Não saem da Jovem Pan.
Eu estou com medo, estou assustado. Porque o anticultural, o antitudo, está ali, na boca do gol. Continuando fazendo aquela campanha, mentindo, distorcendo. Você fala uma coisa, eles distorcem, pegam a palavra com outro sentido. E nisso eles são profissionais. São muito bons nisso. Tanto que estão no poder, no planeta, em 80% do planeta, há séculos e séculos, e continuam reclamando do mundo como está. Isso é tudo por causa deles. O Brasil teve quantos governos de esquerda? O Brasil ainda está cheio de problemas. E o pessoal reclama que foi a esquerda? Não é. Sempre foi a direita. O problema é que o povo não tem consciência do estrago que a direita é capaz de fazer. Ainda não perceberam, mas isso é questão de educação, políticas educacionais, políticas culturais, e tudo que o Congresso barra. Os congressos normalmente são de centro-direita. Então eles barram tudo.
No seu show, eu entrevistei jovens chineses que conheciam sua música e tinham suas favoritas. A China é um país em que a conexão cultural nunca foi assim tão forte, comparado com a França. Europa, os Estados Unidos. Como você se sente vendo esse momento acontecer na sua carreira?
Achei maravilhoso. A primeira vez que eu vim foi como convidado dos músicos estadunidenses Lee Ritenour e Dave Grusin, fazendo parte do espetáculo deles. Já deu para perceber isso na época. Fiz Hong Kong, fiz Pequim, e lá também foi a mesma coisa. A arte brasileira tem uma diversidade musical, artística e cultural imensa, como a própria China tem aqui dentro. Os países são muito parecidos nessa diversidade. Essa troca pode ser extremamente benéfica, inclusive para o povo brasileiro. Porque a arte chinesa tem coisas aqui fantásticas. Eles são muito conhecidos pelo lado circense, pelos balés, pelas danças. Ontem eu vi um negócio na televisão em que eles usam as cordas e ficam voando. Cara, uma coisa linda! Fiquei deslumbrado. Então esse é o lado do encanto. Eu usaria a palavra encantamento. Uma troca de encantamento. Isso seria lindo, isso é fundamental, é uma porta a ser aberta entre o Brasil e a China. E eu acho que isso já começou a acontecer. Eu espero que se intensifique, porque nós temos muita coisa espetacular para trazer para eles. E o que eles produzem aqui, levado para o Brasil, seria uma loucura. Eu espero que isso possa fazer parte de uma política que se preserve. Eu espero que esse encantamento se frutifique, se floresça nas relações brasileiras com a China, da China com o Brasil.
Participaram muitos brasileiros neste festival aqui na China. Como você avalia o Ano Cultural Brasil-China?
Essa troca mais substancial entre a cultura brasileira e a cultura chinesa. A China, na verdade, está nos recebendo. E tenho absoluta certeza de que eles estão esperando a reciprocidade. Eu acho lindo a China conhecer o Brasil melhor. E criar para a gente não é uma obrigatoriedade, mas um compromisso de reciprocidade. Porque a arte trabalha muito o intelecto, o pensamento. É uma ferramenta muito boa para melhorar a qualidade das pessoas, o sentimento das pessoas. Principalmente as crianças, se tiverem trocas. Ontem, quando eu cheguei, tinham aulas de culinária para crianças de três, quatro, cinco anos. Todas vestidas de cozinheiros, de chefes. Cara, eu achei isso sensacional. São trocas que podem ser maravilhosas para o Brasil também. O exemplo chinês é muito bom para o Brasil. Nós temos uma chance imensa de fazer um trabalho, uma troca substancial e qualitativa de alto nível mesmo.
[O Globo] Como o streaming afetou a vida dos artistas?
Nós não vendemos mais discos e a nossa execução em mídia aberta, que era a que pagava bem, já não existe mais. Então ficamos na mão da internet. E a internet criou suas próprias regras sem consultar ninguém. As plataformas se reuniram com as gravadoras, fecharam as portas, decidiram tudo: 30% para vocês, 50% para a gente, os 20% que sobraram, 10% para não sei quem e 10% fica para os autores. Esses 10% ficam divididos para todo mundo. Você imagina quantos compositores tem para dividir no mundo. O que era, na época analógica, 100 reais, hoje corresponde a 0,0001 real. A parte autoral vem dos shows, basicamente 70%. Mais 30% vêm da mídia aberta. E 5%, 10% vêm da internet. A gente foi empurrado para o palco. Pelo andar da carruagem, eu vou ter que ir até os 130 anos ainda no palco. Mas pelo menos a gente bota a boca no trombone. Eu ponho a boca no trombone, não quero nem saber, mas preciso botar. Quem sabe alguém me escuta ou, a partir de um berro meu, alguém pega no ar e descobre uma outra saída.
[O Globo] E a música brasileira hoje, como você vê?
Na parte criativa, ela continua ainda muito boa. O acesso a essa criatividade, a essa qualidade, evidentemente é muito mais difícil. Não é mais uma mídia aberta, porque a mídia é toda fatiada. Você entra num espacinho desse tamanho, que é um gueto onde só tem aqueles seguidores. Não existe mais abertura para todos. Eu sou muito apologista de um festival, voltar aos festivais. Já com uma outra forma, usando a internet, mas inteligentemente, somada à mídia aberta. Uma colaboração mais inteligente entre a mídia aberta e a mídia digital. De repente, um programa que todo mundo assiste no Brasil, e aí caras que estão em um lugar que a gente não imagina de repente aparecem para o Brasil inteiro. Existem essas pessoas. Eu tomo conhecimento, recebo assim, em pílulas, um cara tocando um negócio: escuta esse cara aqui. Nunca ouvi falar. De onde ele é? Ele é do interior da Paraíba. Pô, mas o cara é bom demais. Na nossa época, esse cara participava de um festival e, no dia seguinte, era famoso. Nós tivemos sorte porque a mídia aberta nos colocou no Brasil inteiro e solidificou o nosso nome.
