O cheiro do café recém-passado se mistura ao aroma do tacacá paraense, enquanto sementes crioulas dividem espaço com artesanato popular e ervas medicinais. No Centro Comunitário Athos Bulcão, na Universidade de Brasília (UnB), a Feira Camponesa do 4º Encontro Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) transformou o campus em um retrato da diversidade dos territórios brasileiros.
A atividade faz parte da programação que celebra os 30 anos do MPA e reúne cerca de mil camponeses e camponesas de 20 estados. Mais do que um espaço de comercialização, a feira se consolida como vitrine da agricultura camponesa, da agroecologia e da defesa da soberania alimentar.
Nas bancadas, a diversidade da produção popular aparece em sementes tradicionais, alimentos minimamente processados, fitoterápicos, óleos essenciais e pratos típicos de diferentes regiões do país. Também estão presentes produtos vindos de comunidades quilombolas, povos indígenas e quintais produtivos organizados coletivamente.
Para Líria Aquino, da coordenação nacional do MPA no Piauí, a feira sintetiza a relação construída historicamente pelo movimento entre produção de alimentos e organização popular.
“A nossa principal bandeira de luta é a produção de alimentos saudáveis. A gente só vai conseguir se tiver essa relação entre campo e cidade, ela é essa ponte que liga os camponeses com as pessoas da cidade, essa correlação entre quem produz e quem consome”, afirma.
Sementes crioulas
A preservação das sementes crioulas ocupa lugar central na atividade. Agricultora do Paraná, Maria Aparecida Alves levou para Brasília variedades tradicionais de milho, feijão e abóboras cultivadas em sua propriedade. “Eu sou guardiã de sementes crioulas e tenho umas 40 variedades que produzo na minha propriedade. A feira mostra a diversidade que o agricultor possui dentro do movimento”, destaca.
As experiências coletivas de produção e beneficiamento também ganham espaço. O Coletivo Mangará, de São Paulo, apresentou produtos derivados da banana, como caponata de coração de bananeira, doces, cachaças artesanais e peças produzidas com fibras da planta.
“Você consegue fazer a venda dos seus produtos, o que faz você voltar com uma rendinha de volta para casa. Você consegue ver os frutos do seu trabalho”, relata Simone de Souza, integrante do coletivo e participante pela primeira vez do encontro nacional.
Do Rio Grande do Sul, famílias organizadas em cooperativas de sementes apresentaram experiências de abastecimento popular e comercialização coletiva. Segundo Mele Esquiavão, a feira permite mostrar para a sociedade a capacidade produtiva da agricultura camponesa.
“É a nossa vitrine para mostrar os produtos e os processos que a gente vem fazendo nos nossos territórios, mas também experiências de abastecimento popular e um novo processo de comercialização. É essa vitrine que mostra para a sociedade o que o campesinato tem de melhor: a produção de alimentos saudáveis”, explicou.

A diversidade regional também aparece em produtos artesanais frequentemente invisibilizados pelos grandes mercados. Da Bahia, Reinaldo Melo de Jesus levou geleias, chips de banana, azeite de dendê e produtos da fitoterapia camponesa.
“É uma oportunidade de representar os produtos daquelas pessoas que vivem à margem da sociedade e que muitas vezes são invisibilizadas por não terem oportunidade em outros espaços”, defendeu.
Além da comercialização, a feira reúne atividades culturais, espaços de formação e serviços públicos. A “Tenda Lilás”, organizada pelo Ministério das Mulheres, oferece orientações sobre enfrentamento à violência contra a mulher e divulgação de canais de denúncia, como o Ligue 180.
No “Terreiro de Sabores Camponeses”, organizado pela Rede Raízes do Brasil, visitantes podem experimentar pratos típicos de diferentes regiões do país, como acarajé, panelada e tacacá, em uma espécie de percurso gastronômico pelos biomas brasileiros.
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