Entrevista

SUS precisa incorporar política de cuidado para garantir acesso à saúde, diz pesquisadora

Cuidar da saúde além da doença exige vínculo e mais tempo com usuários do Sistema com equipe de profissionais

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Fachada da Clínica da Família Pedro Fernandes Filho, em Irajá, na zona norte da capital fluminense.
Atendimento à saúde não pode se limitar a combater doenças, diz pesquisadora | Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

A antropóloga Natália Helou Fazzioni e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) iniciou sua pesquisa de doutorado com foco no impacto da violência para o atendimento à saúde. No entanto, durante seu cotidiano no Complexo do Alemão, conjunto de favelas da zona norte do Rio de Janeiro, ela se deparou com um universo muito mais complexo em que a violência era um entre tantos elementos na jornada de garantia de direitos.

Sem perder o entusiasmo e confiança no desenho do Sistema Único de Saúde (SUS) como modelo de atendimento à população, ela se deparou com variáveis anteriores à chegada à unidade de saúde que dificultam ou mesmo impedem a rotina de atenção como um todo. “O que eu aprendi, depois desses anos todos de pesquisa, é que o acesso à saúde pode ser incrível, mas ele não é suficiente se a gente não tiver condições iguais de vida, de moradia, de educação, de alimentação, de tudo isso”, disse Fazzioni ao Brasil de Fato.

Nesta entrevista ela fala sobre a necessidade de incorporação das noções e políticas de cuidado no cotidiano do SUS e reflete sobre os achados de sua pesquisa. O trabalho está publicado no livro recém-lançado Arranjos de cuidado: saúde e cotidiano em uma favela carioca pela Editora Papéis Selvagens, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Em seu livro, você relata a importância dos ‘arranjos de cuidado’ e ‘agência’ da população e dos profissionais de saúde para que o direito ao acesso à saúde se concretize. Poderia explicar o que você entende por ‘agência’, ‘arranjos de cuidado’ e citar alguns exemplos?

Agência é um conceito muito utilizado na antropologia para pensar que as pessoas dentro de uma estrutura marcada por muitas relações de poder e por opressões, ainda assim elas não estão imóveis. Elas não são totalmente reféns dessa lógica, porque elas têm agência. Ou seja, elas têm a capacidade, mesmo com muitas dificuldades, de se moverem.

Então, por exemplo, a gente vê situações muito complexas no território com relação aos cuidados em saúde de pessoas com deficiência, desde crianças até pessoas mais velhas, que adquiriram uma deficiência ao longo da vida. E quando a gente olha essa estrutura parece quase impossível imaginar como essas pessoas dão conta, esses familiares dão conta, de manejar o cuidado dessas pessoas diante de tantos obstáculos, que vão desde passar uma cadeira de rodas por um beco, uma viela, onde não chega nem carro, até conseguir uma fisioterapia que vai sair pelo SUS distante de onde eles moram. Então, essas micro resistências que as pessoas criam no cotidiano para dar conta das suas vidas, foi o que eu chamei de arranjo de cuidado, e que nunca são simples.

E isso só é possível porque elas estão o tempo todo tendo agência, ninguém está dizendo para elas como fazer, e não tem um jeito simples de ser feito. É sempre uma busca, uma descoberta, e as pessoas correm atrás dos seus direitos, das suas possibilidades. Então as pessoas estão sempre fazendo isso de um modo minimamente coletivo, coletivos de grupos de mães que vão se acionando por um grupo de WhatsApp, como é que eu faço isso, como é que eu encontro aquilo, as vizinhas, agentes comunitários de saúde, então tem sempre uma coisa que é coletiva, que permite a busca desse cuidado.

Uma das suas principais interlocutoras foi Marisa Nascimento, líder comunitária por muitos anos no Complexo do Alemão. Você poderia contar um pouco sobre como a atuação dela contribuiu para a ampliação do acesso à saúde na região?

A Marisa Nascimento é uma figura muito central nos movimentos de luta por saúde no Complexo Alemão desde os anos 1980. Ela chegou a ter uma atuação mais ampla em associações de moradores, depois na subprefeitura da região do Complexo Alemão. É uma mulher nordestina, com uma trajetória típica, presente em território de favela, uma mulher que migrou do nordeste, já adulta, se casou, teve filhos aqui e se deparou com o local onde ela vivia, especificamente no Morro do Adeus, sem saneamento, sem água, sem acesso à saúde, e começou a se organizar ali inicialmente no âmbito da associação de moradores. E ela teve uma trajetória muito importante porque justamente a ação dela e de outras pessoas que estavam ligadas ao Consa, o Conselho de Saúde do Alemão. Essas ações tiveram muita visibilidade e elas, de alguma maneira, coincidiram e se retroalimentaram com o processo da Reforma Sanitária no Brasil.

Contar essa história da luta por saúde no Complexo Alemão é também contar uma parte da história da Reforma Sanitária no Brasil que não é normalmente contada. De como essas mobilizações populares estavam muito presentes nos territórios e elas tiveram muita contribuição, inclusive na decisão de como recursos foram alocados. E isso tem muito a ver com a organização dos movimentos sociais desses territórios.

Mais recentemente, durante o meu trabalho de campo lá no Complexo Alemão, eu vi muito mais iniciativas pontuais por parte de alguns moradores que tiveram repercussões em redes sociais, em mídias independentes e que acabaram gerando movimentos de demanda de participação social e de interlocução dentro das unidades de saúde do que um mecanismo fixo que tivesse bem estabelecido que funcionasse desse modo. Claro que existem algumas figuras até hoje muito centrais que são sempre convocadas e chamadas, que são lideranças reconhecidas nesse lugar, no diálogo com esse campo em específico, mas não vi ali um mecanismo de controle social do SUS em um funcionamento constante.

Muito do que você descreve como arranjos de cuidado não deveria ser incorporado dentro da Atenção Primária ou estamos falando de coisas diferentes?

Sim, deveria. Agora temos uma Política Nacional de Cuidados. Então, pela primeira vez, o assunto do cuidado se transforma numa pauta pública, porque o cuidado sempre foi entendido como um problema doméstico. Então, cabia à saúde fazer o diagnóstico, a prescrição e cabe às famílias pensarem como elas vão dar prosseguimento a esse cuidado. É um problema doméstico, é um problema individual, é um problema familiar.

Quando se trata de uma população em vulnerabilidade, há sempre muitas demandas sobrepostas. Há fome, violência, adoecimento mental. E a Atenção Primária, do jeito que ela se consolidou no Brasil, tem um número de famílias por equipe que é gigantesco. Então, mesmo com as melhores das intenções, a sobrecarga é permanente. A média do tempo de consulta hoje na atenção primária no Brasil é cerca de 10 a 15 minutos. É um tempo muito pequeno para você abordar algo mais complexo, para você criar um vínculo com o paciente. Quem vai conseguir fazer isso é quem está em começo de carreira, estudantes com muita motivação ou profissionais que têm uma vinculação de muitos anos com aquela prática, com aquele território, que é o caso do Cláudio, que eu narro no meu livro.

A maior parte das unidades é composta por médicos que são generalistas e, inclusive, com muita dificuldade. Em algumas localidades, nem esse profissional a gente consegue levar, porque muitas vezes não há interesse dos profissionais formados em medicina no Brasil atuarem na Atenção Primária ou mesmo no SUS, muito menos nos territórios mais remotos ou mais violentos.

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Como a aprovação da Política Nacional de Cuidados, no começo de 2025, se articula com esse contexto?

Finalmente, a gente conseguiu extrapolar esse debate e compreender que o cuidado, ele é um problema do Estado, é um problema da sociedade, é um problema de todos. Então, por exemplo, eu cansei de ver nas unidades de saúde, mães de crianças pequenas, doentes, precisando de uma internação e recusando uma internação porque não tinham com quem deixar os filhos.

Um idoso cuidando de outro idoso, uma mulher de 60, 70, cuidando de uma de 80, 90, adoecida, precisando de um cuidado e dizendo, eu não posso ir porque eu não tenho com quem deixar minha mãe, eu sou a única pessoa que cuida dela. ‘Eu não venho à consulta para mim porque eu só venho à consulta para trazer minha mãe’, diziam.

Então, assim, entender essa dimensão, entender que as pessoas estão o tempo todo se deparando com esses desafios de como cuidar, à medida em que isso é incorporado, não necessariamente na Atenção Primária, mas enquanto política pública é fundamental. Por exemplo, a pessoa precisa de uma internação e ela é a cuidadora principal de alguém dependente, é preciso que alguém assuma esse cuidado.

Então, sim, penso que existem formas de incorporar essas demandas de cuidado dentro das políticas públicas, mas é um processo que a gente está começando a engatinhar e a pensar nesses espaços de cuidado para idosos, crianças, pessoas com deficiência. Existe um plano nacional, mas a execução a gente ainda está aguardando para ver como é que vai ser.

Acho que tem discussões muito básicas que começam por direitos como o de acesso à creche. A creche não é um direito para todos. E tem estruturas que já existem e que elas podem ser repensadas diante de uma ótica do cuidado, como o direito à escola integral, que podem ser pensadas e podem ser mais adaptadas nessa lógica.

E a gente discute muito pouco o cuidado com idosos, uma questão que está ainda mais relacionada ao doméstico do que o tema das crianças.

Editado por: Clívia Mesquita

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