Na cosmologia africana, conta-se que, nos primórdios, os Orixás masculinos se reuniam em assembleias exclusivas para decidir o destino da humanidade. Oxum, a senhora das águas doces e da fertilidade, observava à distância com as outras Yabás, termo que designa os Orixás femininos. Elas sabiam que nenhuma decisão sobre a vida estaria completa sem a perspectiva de quem a gera e a nutre, mas suas vozes eram sistematicamente silenciadas pelos homens.
Diante da exclusão, Oxum, que rege a fecundação e a maternidade, tomou uma decisão drástica: retirou a fertilidade de todas as mulheres e das fêmeas da natureza. O mundo mergulhou em um silêncio estéril; sem novos ventres florescendo, a continuidade da espécie estava condenada ao desaparecimento.
Ao serem interpelados pelo grande Criador, Olorum, sobre o fim da vida, os Orixás masculinos descobriram que o feitiço de Oxum era, na verdade, um ato de justiça. Olorum sentenciou que, a partir daquele momento, nenhuma decisão seria tomada sem que as mulheres fossem ouvidas e respeitadas em sua sabedoria e poder. Este conto não é apenas uma lenda, mas a base que sustenta a visão de mundo das religiões de matriz africana.
Ele ecoa a força das mulheres negras que, muito antes da assinatura da Lei de 13 de maio de 1888 — uma abolição que não garantiu a verdadeira liberdade e cidadania —, já utilizavam o terreiro e o quilombo como territórios de autonomia e resistência. Enquanto o Estado entregava uma liberdade de papel, as descendentes de Oxum e das diferentes ancestralidades da matriz africana reconstruíram tijolo por tijolo a culinária, a língua, a medicina e a identidade deste país.
Essa herança das Yabás pulsa agora na série documental “Terreiros Urbanos em São Paulo”, que estreia neste 13 de maio para mostrar que a verdadeira libertação é um processo diário liderado por mulheres das religiões de matriz africana.
Guardiãs do sagrado
Ao longo de cinco episódios, mergulhamos no cotidiano de lideranças que, entre a periferia, o interior e o litoral do estado de São Paulo, mostram que o terreiro é, antes de tudo, um centro estratégico de tecnologia social, acolhimento e produção de saber.
Em Campinas, a Mãe Alessandra Ribeiro mostra como os caminhos da ancestralidade da Umbanda no Centro de Estudos de Matriz Africana Mamãe Cambinda e Cabocla Jurema também desaguaram na formação do Jongo Dito Ribeiro e transformaram a Casa de Cultura Fazenda Roseira em um espaço de referência da educação afro-brasileira.
Esse fortalecimento cultural se estende ao extremo sul de São Paulo, onde Mãe Luciana Bispo herda o legado matriarcal para gerir o Ilê Obá Asé Ogodo e o polo cultural Lar Maria Sininha, provando que o terreiro é o espaço de maior cuidado e proteção aos direitos da infância na periferia.
A série percorre ainda a resistência política de Mãe Claudia Rosa em Valinhos, que une a espiritualidade ao ativismo LGBT+ e ao Samba Muketu, combatendo a intolerância por meio da arte e do acolhimento.
No interior, em Ribeirão Preto, testemunhamos o legado de Mãe Neide Ribeiro, cujos 60 anos de sacerdócio resultaram na criação do Centro Cultural Orùnmilá e na sanção de uma lei municipal de salvaguarda das culturas tradicionais, mantendo vivo o Afoxé Omó Orùnmilá e a produção cultural de uma “pequena África” urbana na cidade.
No litoral, em Ilhabela, a Ekedi Eloiza Lourenço personifica a zeladoria que sustenta a autonomia das mulheres quilombolas, transformando a Festa de Iemanjá e a gestão do patrimônio da cidade em ferramentas de preservação da memória africana no Brasil.
Nas cosmovisões africanas, a mulher é o fundamento da própria vida, aquela que alimenta, orienta e mantém a existência florescendo mesmo diante das tempestades. “Terreiros Urbanos em São Paulo” é uma homenagem a algumas dessas lideranças que, ao ocuparem espaços nas artes, na educação e na política, mostram que a verdadeira abolição é um processo diário de afirmação.
Convidamos você a conhecer essas guardiãs que, por meio da matriz africana, seguem semeando futuros mais humanos, justos e luminosos, provando que a ancestralidade negra é, e sempre foi, o pilar que sustenta este país.
O documentário estreia hoje (13), às 19h, no canal do Brasil de Fato no YouTube. Já o lançamento presencial será dia 21, às 18h, no Armazém do Campo (Alameda Nothmann, 806), localizado na região central de São Paulo (SP), com a presença de três personagens da obra.
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*Marina Duarte de Souza é codiretora do documentário
** “Terreiros Urbanos em São Paulo” é uma produção do CPMídias e Brasil de Fato, com realização da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Governo do Estado de São Paulo.
