Movimentos sociais, trabalhadores da saúde e usuários da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) realizaram uma manifestação nesta quinta-feira (14) em defesa da permanência do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (Caps AD III) Candango no Setor Comercial Sul (SCS). O protesto é uma resposta ao plano do Governo do Distrito Federal (GDF) de transferir a unidade para o Setor de Abastecimento e Armazenamento Norte (Saan), área considerada isolada e de difícil acesso.
A mobilização reforça que o território é parte fundamental do tratamento, e que a retirada do serviço da área configura um processo de “higienização urbana”. Para os manifestantes, o objetivo do governo é afastar a população em situação de vulnerabilidade do centro de Brasília para atender a interesses empresariais na região.
Daniela Aguiar, paciente atendida pela unidade desde 2021, destacou a importância do acolhimento humano que recebe no local. “Não é uma coisa asquerosa, como tratavam os doentes mental antigamente. O Caps é vida, e a Saúde tem que explicar isso. Tem que criar mais Caps, e não tirar o Caps. Quando eu cheguei aqui, eles me acolheram, tratam você muito bem, não como um manicômio”, afirmou.
A visão de Daniela reflete o sentimento de muitos outros pacientes que dependem do serviço para manter o vínculo com a sociedade e com o próprio tratamento. Ela complementou sua fala enfatizando a resistência necessária: “O Caps tem que permanecer e ser mantido.”

O deputado distrital Fábio Felix (Psol) compareceu ao ato e criticou a postura do poder público em relação às populações mais pobres. “A gente sabe a importância dos órgãos públicos estarem no centro da cidade para atender a população que mais precisa. Porque se a gente tem vulnerabilidade social, se a gente tem falta de moradia, se a gente tem falta de acesso a direitos, a gente tem um culpado disso também, que é o poder público, que não garante aquilo que está na lei”, declarou o parlamentar.
Felix ressaltou que a tentativa de esconder a população vulnerável não resolve os problemas sociais da capital. “Não adianta a gente achar que as pessoas vão sumir do espaço central da cidade porque a gente vai tirar os órgãos públicos que atendem essas pessoas. Por isso, é muito importante manter o Caps aqui no Setor Comercial Sul ou em área central ou numa área próxima para a população poder ser atendida com qualidade”, analisou.
Rede pública pressionada
A psicóloga Márcia Caldas, do coletivo Café com Escuta, que atua há sete anos no território, alertou para as consequências práticas de uma mudança para o Saan. “Se for para um local longe, como tem se falado, essas pessoas em situação de rua e os outros usuários vão ficar desassistidos. Isso provoca algo que toda a sociedade vive recriminando, que é o aumento de atos impensados e rechaçados por muitos. Além de se sentirem desprestigiados, é uma higienização”, explicou.
Para a profissional, o serviço precisa ser fortalecido com recursos humanos e outros equipamentos da rede, e não removido. “A gente precisa implementar os outros equipamentos previstos na legislação de saúde mental, como a unidade de acolhimento, centro de convivência e cultura e o consultório na rua. A gente não pode culpabilizar servidor algum, eles não têm responsabilidade e muitos estão adoecidos”, considerou.
O diretor-presidente do Instituto Cultural Social No Setor, Rafael Reis, também se posicionou na manifestação. “Acreditamos que essa política precisa ser fortalecida, estruturada e potencializada, e não desmontada.”
Ele destacou que a ampliação da rede pública é essencial para enfrentar as desigualdades no DF. “Defendemos a construção de novas redes de cuidado, o fortalecimento dos equipamentos públicos e a ampliação de recursos como caminhos fundamentais para o enfrentamento das desigualdades no Distrito Federal. Essa rede é essencial para garantir acolhimento, cuidado e dignidade para a população.”
A proposta de transferência ocorre em um cenário de sobrecarga da RAPS no Distrito Federal. Atualmente, o DF possui apenas 18 unidades de Caps para atender cerca de 3 milhões de habitantes, o que resulta em uma média de um centro para cada 166 mil pessoas. Entre 2017 e 2024, o volume de procedimentos nesses centros saltou de 596 mil para 1,52 milhão, um aumento de 155%.

Keka Bagno, assistente social e coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do DF (CLDF), apontou que o SCS é um polo de diversidade que está sob ataque de estigmas. “Sabemos que aqui é um lugar marcado por estigmas e que eles querem torná-lo em um polo empresarial, sendo que aqui é um espaço diverso, democrático, em que todas as pessoas do Distrito Federal cruzam. Ressignificar o espaço não é criminalizar quem é pobre”, afirmou.
Keka também criticou os modelos de tratamento baseados na exclusão, como a internação compulsória defendida por setores do governo. “A gente não pode ser a favor desse projeto do governo, de internação compulsória. Existem outras formas da gente propiciar vida com dignidade para as pessoas. Vamos seguir na luta para que o Caps AD se mantenha aqui ou em lugar que seja de interesse dos servidores e usuários”, defendeu a assistente social.
Maio Antimanicomial
A mobilização no Setor Comercial Sul encerrou com um chamado para a continuidade das ações durante o “Maio Antimanicomial” na próxima segunda-feira (18), Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Os manifestantes prometem intensificar a pressão política para garantir que o Caps Candango continue operando no território onde a população atendida circula e reside.
Até o fechamento desta matéria, o Governo do Distrito Federal não se pronunciou sobre as críticas e as reivindicações apresentadas durante a manifestação. O espaço permanece aberto para manifestações.
Serviço
Ato em Defesa da Saúde Mental
Data: segunda-feira (18)
Horário: 9h
Local: Praça do Buriti
Celebração do Mês da Luta Antimanicomial
Data: sexta-feira (22)
Horário: 9h
Local: Quadra 05 do Setor Comercial Sul (SCS), próximo ao Caps
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