Yanna Francisca Nogueira Queiroz, estudante do terceiro ano do ensino médio da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral (EEMTI) Deputado Joaquim de Figueiredo Correia, será uma das representantes do Brasil na Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF), considerada a maior competição internacional de ciências pré-universitária do mundo. A estudante conquistou a participação após ser premiada com o projeto “Rastreando a demografia do feminicídio no Ceará (2022-2025) através do aprendizado de máquina e análise cartográfica”, que utiliza Inteligência Artificial para analisar dados de feminicídio no Ceará.
Queiroz explica que a pesquisa consiste no desenvolvimento de uma ferramenta baseada em inteligência artificial capaz de analisar dados sobre feminicídios no Ceará, identificando padrões demográficos, sociais e territoriais. “O objetivo é compreender melhor quem são as vítimas, em quais contextos esses crimes ocorrem e quais regiões apresentam maior risco, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias de prevenção”, informa a estudante.
A pesquisa integra o programa de extensão da Associação Brasileira de Jovens Cientistas (ABJC) e foi desenvolvida no Laboratório de Farmacologia de Venenos e Toxinas (Lafavet), sob coordenação da professora Roberta Jeane Bezerra Jorge, docente da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do Rotary Club Fortaleza Edson Queiroz, além da orientação de Helyson Lucas Bezerra Braz, mestre e doutorando do Programa de Pós-graduação em Ciências Morfofuncionais (PCMF) da Universidade Federal do Ceará.
O Brasil de Fato entrevistou os pesquisadores responsáveis pelo projeto para saber mais sobre a premiação, a iniciativa e a participação na Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF). Confira.
Brasil de Fato: Como surgiu a ideia para a realização do projeto?
Roberta Jeane Bezerra Jorge: A ideia surgiu a partir de uma inquietação da estudante Yanna Queiroz diante do aumento dos casos de feminicídio no Ceará. Como jovem pesquisadora de escola pública e engajada em causas sociais, ela buscava compreender melhor esse fenômeno na realidade em que vive. A partir disso, o projeto foi estruturado com apoio acadêmico da Universidade Federal do Ceará (UFC), por meio de bolsa de iniciação científica do programa PIBIC-EM/CNPq, e do Rotary Club Fortaleza Edson Queiroz, por meio do Edital nº 001/2023 – Subsídio Distrital 2023-24 do Rotary International Distrito 4490, integrando ciência de dados, inteligência artificial e análise territorial, com foco no contexto local.
Fale um pouco sobre o processo de realização do projeto
O projeto foi desenvolvido ao longo de 2025, envolvendo etapas de coleta, organização e análise de dados. Foram utilizados mais de 5 mil registros provenientes de notícias, boletins de ocorrência e outras bases públicas. A partir disso, foram aplicadas técnicas de aprendizado de máquina para identificação de padrões, além de análise cartográfica para compreensão da distribuição territorial dos casos.
O trabalho foi desenvolvido sob orientação do pesquisador Helyson Lucas Braz Bezerra, doutorando em Ciências Morfofuncionais da Universidade Federal do Ceará, e da professora Roberta Jeane Bezerra Jorge, da UFC e presidente do Rotary Club Fortaleza Edson Queiroz, garantindo o rigor metodológico e o acompanhamento científico contínuo da estudante.
Esse processo foi viabilizado com o apoio institucional da Universidade Federal do Ceará (UFC), por meio de bolsa de iniciação científica do programa PIBIC-EM/CNPq, além do suporte do Rotary Club Fortaleza Edson Queiroz, que contribuiu com infraestrutura tecnológica, incluindo a aquisição de computadores, e com a realização de atividades formativas, oficinas e mentorias.
Em que consiste essa pesquisa?
Yanna Francisca Nogueira Queiroz: A pesquisa consiste no desenvolvimento de uma ferramenta baseada em inteligência artificial capaz de analisar dados sobre feminicídios no Ceará, identificando padrões demográficos, sociais e territoriais. O objetivo é compreender melhor quem são as vítimas, em quais contextos esses crimes ocorrem e quais regiões apresentam maior risco, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias de prevenção.
Quais dados coletados nessa pesquisa vocês podem destacar?
Entre os dados analisados, destacam-se informações sobre faixa etária, raça, local de ocorrência e relação entre vítima e agressor. Observou-se, por exemplo, que 48,7% dos casos envolvem cônjuges ou ex-cônjuges, além de maior incidência entre mulheres negras, considerando que vítimas pretas e pardas representam a maioria dos registros. Também foram identificadas faixas etárias mais vulneráveis e regiões com maior concentração de casos.
O que esses dados refletem?
Os dados refletem que o feminicídio está fortemente associado a desigualdades sociais, raciais e de gênero. Evidenciam a centralidade da violência doméstica como fator determinante e mostram que determinados grupos populacionais estão mais expostos. Além disso, revelam padrões territoriais que podem orientar políticas públicas mais direcionadas e eficazes.
A população pode acessar ou contribuir com a pesquisa?
A proposta do projeto é ampliar o acesso à informação e ao conhecimento produzido. Os resultados podem ser utilizados por gestores públicos, pesquisadores e pela sociedade civil. Em etapas futuras, há interesse em desenvolver plataformas mais abertas e interativas, permitindo atualização contínua dos dados e uso colaborativo.
Qual o objetivo dessa pesquisa?
Helyson Lucas Bezerra Braz: O principal objetivo é gerar conhecimento científico que contribua para a redução dos casos de feminicídio. Ao identificar padrões e áreas de maior risco, a pesquisa busca subsidiar políticas públicas, ações preventivas e estratégias de enfrentamento à violência contra a mulher, utilizando a tecnologia como aliada.
Como a vaga para a ISEF 2026 foi conquistada?
A vaga foi conquistada durante a participação na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE), realizada na Universidade de São Paulo (USP) em 2026. O projeto foi premiado com o primeiro lugar na categoria Ciências Sociais e recebeu credenciamento para representar o Brasil na Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF). Esse reconhecimento evidencia o rigor científico, a inovação e o impacto social da pesquisa, além de destacar a importância de iniciativas que promovem a iniciação científica na educação básica.
Qual a expectativa para esse evento?
Yanna Francisca Nogueira Queiroz: A expectativa é de troca de conhecimento e visibilidade internacional para uma pesquisa desenvolvida no contexto da escola pública brasileira. A participação na ISEF representa uma oportunidade de apresentar um trabalho com forte impacto social e dialogar com jovens cientistas de diferentes países, além de inspirar outros estudantes.
Qual a importância do investimento em pesquisa científica no Brasil?
Helyson Lucas Bezerra Braz: O investimento em pesquisa científica é essencial para o desenvolvimento social, econômico e tecnológico do país. Projetos como esse demonstram que, com apoio institucional adequado, é possível produzir ciência de qualidade com impacto direto na sociedade, inclusive a partir da educação básica.
Como está essa realidade atualmente?
Roberta Jeane Bezerra Jorge: Apesar de avanços importantes, o financiamento da ciência no Brasil ainda enfrenta desafios, como a instabilidade de recursos e limitações estruturais. Programas como o PIBIC-EM e editais de fomento são fundamentais para a formação de novos pesquisadores, mas ainda precisam ser ampliados para alcançar um número maior de estudantes.
Quais os maiores desafios para a valorização da pesquisa científica no Brasil?
Roberta Jeane Bezerra Jorge: Entre os principais desafios estão o financiamento ainda limitado, a necessidade de maior integração entre ciência e políticas públicas e a valorização da formação científica desde a educação básica. Também é fundamental ampliar o acesso de jovens, especialmente de escolas públicas, às oportunidades de pesquisa, como forma de reduzir desigualdades e fortalecer a ciência nacional.
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