Quatro jovens se encontram no primeiro dia de aula no auditório central de uma universidade pública latino-americana no sul do Brasil. Pelo que contaram na apresentação, suas histórias estão conectadas com a integração, o pluralismo linguístico e a diversidade latina.
Ana Tierra vem do povo Wayúu, na Colômbia. Parece meio perdida entre o português e o espanhol, pois suas raízes são inerentes ao seu pensamento e linguagem caribenhos. Estuda Mediação Cultural, que não sabe bem ao certo o que é, mas entende que se conecta com sua própria vida, mediada por um mundo incrível entre seu povo, sua aldeia e a diversidade da América Central, na natureza em que cresceu.
Luna revela, por meio do desenho do trançado de seus cabelos, um trajeto pelas matas do Haiti. Cursará geografia. Conta isso falando em seu idioma principal: o crioulo. E já se apresenta dizendo que a geografia para ela tem a ver com trajetória de fuga, de demarcação de liberdade, de luta por sobrevivência. Nomina, imediatamente, uma de suas vozes e ecos que a faz estar ali: Cécile Fatiman. As três novas amigas se entreolham sem compreender. Surge um riso afetuoso, cúmplice de afinidade e curiosidade.
Soledad faz jus ao nome. Fala com o sorriso e indaga com o olhar. Vem da região metropolitana de São Paulo para aprender com as Ciências Sociais. Diz que vem de uma família de professores e sindicalistas de uma região que encarna o nome dos fluxos do saqueio de metais preciosos: Diadema. Conta também que os livros sempre estiveram presentes em sua vida. Mas tem algo de estranho em Soledad, em meio às apresentações. Parece que seu nome não se conecta com seu corpo. Afinal, é tão presente, viva, incrivelmente bela e altiva. Soledad é apenas um nome dado por seus pais, ou é a expressão de uma alma viva por fora e ausente por dentro? Que histórias e memórias carrega essa jovem para anunciar tanta vida em meio a um nome tão desértico?
Mari del Mar traz, em sua mala trançada com rede de pescador, elementos de histórias e memórias do povo Mebengôkre, do Pará, e está ansiosa, insegura, com o que encontrará na carreira de Relações Internacionais, sendo meio preta, meio índia. E sem saber se sua aldeia e o internacional se relacionam no currículo do curso, como o sentido que tem no seu território concreto. Del Mar traz consigo um sotaque muito próprio, manifesto de palavras e territórios desconhecidos para uma principiante em história da América Latina como quem as assiste, com expressões como: pai d’égua, égua, ruma de gente, brocado. Entre risos travessos e tímidos, peculiar ao povo originário, Mari del Mar conta que aprendeu a se mesclar com a lama, a se misturar com a terra à espera dos ciclos. Como os caranguejos.
Escuto com atenção as falas enquanto observo curiosa os diferentes corpos e expressões no diálogo, à medida que contam sobre as memórias e as histórias que carregam. Me chamo Ybytu. Sou mestra na arte da invisibilidade intencional, doutora em questões de dúvidas contínuas sobre a vida, graduada em prazeres das águas, das florestas, dos povos e suas criações.
Acompanhei por um ano essas mulheres e seus sangues latinos sem ser vista, somente cuidando para que, ao longo de suas caminhadas, o tempo lhes tratasse bem. Como vento, joguei para longe dificuldades e dores que pudessem fazê-las evadir da universidade, e também os medos de socializarem sobre suas vidas, quem são, em uma sociedade que define padrões excludentes, normatiza condutas e dita aparências para todos como forma e fôrma.
Como bruxa, resisto e encarno a luta contra a dimensão diabólica de nossa presença. Reivindico não o mistério, mas a presença, a física, a materialidade das relações. Mas nem toda conexão real é visual. Assim como nem toda conexão visual encarna uma materialidade verdadeira nos sentidos. Sou o vento e a bruxa. Sou a bruxa e o vento. Sou presença na ausência.
Sou ausência viva, sentida, materializada com ou sem redemoinhos. Uma bela mulher, chamada Silvia Federici, mostrou, num livro que conheci com outras mulheres na universidade, chamado “O Calibã e a Bruxa”, os dilemas históricos de inversão de sentido de quem somos na história, nós as bruxas e os ventos. Essa inversão gerou dúvidas, mortes, estereótipos. Mas não aniquilou nosso histórico sentido de cuidar. Reivindico-me então não como me veem, se é que me veem, mas como eu e elas nos vemos: livres em meio às prisões, coletivas em meio aos abandonos, firmes em meio às pernas bambas, risonhas em meio às dores, guardiãs das sementes e das colheitas ao longo da história. Bruxas e ventos.
Pertenço ao livro dos abraços de um bruxo latino, produtor de muitas lindas histórias sobre as veias abertas do nosso continente, chamado Eduardo Galeano. Sou ora vento seco, ora vento frio e ora vento quente. Neste momento, apresento-me como as “Memórias del Fuego”. As palavras desse bruxo que me chegaram com os ventos me tornaram matéria, quando assim me definiram: “Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara”.
Foi como presença física do vento e do contravento que conheci um pouco mais das belezas e dificuldades concretas das meninas permanecerem na universidade e suas fronteiras nos dilemas reais da integração. Um território em que ponte se chama amizade, rio tem dois nomes — Paraná e Iguazú — e as línguas são múltiplas — guarani, árabe, espanhol, português, mandarim. Eu me fazia, ao longo do ano, presente, sem que elas me vissem, mas me sentissem. E deu certo. Essas quatro jovens mulheres diversas começaram a perceber, interagir e manifestar minha presença física entre elas, amarrando momentos, vivências e, especialmente, sentimentos de pertencimento a uma aldeia, comum, em meio aos abismos sociais do território.
Organizarei a parada dos ventos na fixação das palavras dessas histórias em quatro momentos de ventanias que nos deixem navegar pelos desafios, das revoadas, redemoinhos. No primeiro tipo, de ventos constantes, as histórias de Ana Tierra e Luna se misturam aos ventos alísios, que sopram dos trópicos para o Equador e aos ventos contra alísios, que vêm do Equador para os trópicos. No segundo tipo, os ventos locais e variáveis apresentam as histórias de Soledad e Mari del Mar.
Para captar toda a expressão desses movimentos e suas trajetórias, precisamos de um instrumento técnico-científico chamado biruta. Curioso como, em algumas regiões desses tristes trópicos do sul, a biruta também é sinônimo das mulheres que andam doentes da cabeça, doentes dos pés, doentes das almas. Essa construção social das dores femininas, muito presente na herança do fogo contra nós, bruxas, explicita o assombro dos ventos perigosos, que varrem, soterram, destroem os lugares por onde passam.
Por fim, relacionamos estas quatro histórias com o movimento da práxis humana que coexiste entre o vento perigoso e arejado harmonioso. Afinal, se, por um lado, os ventos destroem, modificam, ressignificam os territórios e as vidas que os compõem, por outro lado, os seres humanos, em suas experiências históricas, ainda são capazes de ouvir e de tomar decisões prévias sobre como proceder frente aos ventos. Serão mesmo capazes? Se sim, anteveem e também reconstroem o território arrastado.
Entre Ana Tierra, Luna, Soledad e Mari del Mar habitam fluxos e contrafluxos de aprendizagens sobre as histórias soterradas de Nuestra América. Viajar por suas histórias é reconhecer o quanto ainda temos para aprender. E aprender, em tempos de mentiras organizadas e de tecnologias onipotentes, é ainda algo simples, que reside como meio e mediação entre os seres humanos, estes e a natureza, os seres e demais seres vivos. Sou Ybytu e, para tecer a rede colorida originada nos relatos futuros, reivindico um velejador mineiro da palavra, Beto Guedes, quem escreveu algo valioso sobre nossa essência-ventania:
Vendaval, carrossel segue a vida a rolar
Pé na estrada, pó de estrelas, coração vulgar
Que navega no céu, e navega no ar
Grão de areia a vagar/…/O grão de tão pequeno ser tão grande, o que a gente é
Ter esse destino de pessoa que sonhou/…/Aventuras, cicatrizes, segue o mundo a rodar
Diamantes, universo, coração vulgar
Que navega no céu e navega no ar/…/Grão de areia a bailar
Lá no fundo azul e anda que nem bola
Como a vida quando quer brotar
Rola como onda que nem fonte de calor/…/E navega no céu e navega no ar
Grão de areia a vagar
Sigamos, como grãos de areia a vagar, conectando nosso coração vulgar! Lembrem-se de que os ventos cantam, sussurram, trazem e misturam histórias distantes em outros locais. Conectam vestígios. Concentram conflitos. Encarnam contradições e superações.
*Roberta Traspadini é educadora popular, professora do curso de graduação e pós-graduação em Relações Internacionais da UNILA e professora-ENFF no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe – TerritoriAL (IPPRI/UNESP). Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Extensão Saberes em Movimento, a luta por terra e trabalho na América Latina.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
