O Distrito Federal registrou sete feminicídios e 20 tentativas de assassinato contra mulheres no primeiro trimestre de 2026, superando o mesmo período de 2025, quando seis mulheres foram mortas. Os dados disponibilizados pela Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF) mostram ainda que cinco das sete vítimas fatais não haviam registrado ocorrência anterior contra o autor do crime.
A distribuição temporal indica que o mês de janeiro foi o mais violento do período, concentrando a metade dos casos do trimestre. Fevereiro registrou duas ocorrências e março teve um caso confirmado. A análise revela que a violência apresenta um pico preocupante entre mulheres idosas, com 33% das vítimas tendo 60 anos ou mais.
Para a coordenadora do programa de Promotoras Legais Populares, Lívia Gimenes, o silêncio das vítimas antes do crime é um sintoma de que a estratégia do Estado está equivocada.
“As campanhas públicas são muito focadas no ‘denuncie’, mas sem um esclarecimento adequado do que isso significa. Muitas mulheres desconhecem quais medidas protetivas podem ter acesso e as políticas públicas existentes ainda estão muito focadas na punição e não no acolhimento”, analisa a coordenadora.
Gimenes explica que o medo e a falta de confiança no sistema de justiça funcionam como barreiras para que essas mulheres busquem socorro. “Muitas delas não querem denunciar os companheiros por medo, por não confiar no sistema de justiça. Há também o risco de ficar sem a ajuda econômica ou a pensão dos filhos, o que acaba paralisando a mulher no ciclo de violência”, observa.
A especialista defende ser urgente informar a população feminina sobre a autonomia das medidas de proteção. “A maioria não sabe que pode pedir a medida protetiva sem a denúncia penal. A Lei Maria da Penha prevê que a medida é autônoma da ação penal, o que significa que a mulher pode buscar a Defensoria Pública e pedir a proteção diretamente na Vara especializada”, destaca.
Cultura machista
O feminicídio é a forma mais grave que a violência contra a mulher se manifesta na sociedade patriarcal. A abordagem proposta por movimentos feministas populares vai além da punição ao crime. Para a militante do Levante Feminista Contra o Feminicídio, Rita Andrade, o combate precisa garantir medidas emergenciais, mas sobretudo estratégias duradouras no campo da educação e da cultura.
“Precisamos fortalecer as redes de proteção, ampliar o acolhimento, garantir rapidez nas medidas protetivas e preparar melhor os serviços públicos para identificar sinais de risco antes da tragédia acontecer. Mas também precisamos de ações de médio e longo prazo, com educação, debate público e enfrentamento da cultura de violência, posse e controle sobre os corpos e as vidas das mulheres”, enfatiza.
Outro ponto negligenciado, segundo a especialista em Políticas Públicas, revela a escalada da cultura de ódio contra as mulheres, chamada de misoginia. Grupos autoentitulados “red pill” (pílula vermelha) ou masculinistas disseminam o desprezo pelo gênero feminino livremente nas redes sociais. É nesse contexto que surge o chamado Projeto de Lei da Misoginia.
“Está mais do que na hora de falarmos seriamente sobre os gatilhos que levam homens a cometer crimes de ódio contra mulheres. E isso passa também por reconhecer a misoginia como crime, porque não estamos falando de casos isolados, mas de uma violência alimentada por uma cultura que naturaliza o desprezo, a humilhação e o ódio contra as mulheres. Ignorar isso é continuar permitindo que mais vidas sejam interrompidas”, reflete Rita Andrade.
Embora os crimes chamem atenção, é preciso construir políticas que cheguem antes da violência escalar para sua face mais extrema. “O fato de a maioria das vítimas não ter registrado ocorrência anterior revela que o problema é mais profundo e estrutural do que apenas os casos que chegam às delegacias”, conclui.
Dentro de casa
Os dados estatísticos reforçam que o ambiente doméstico é o local de maior vulnerabilidade. Metade dos crimes consumados (50%) ocorreu na residência da vítima. Esse padrão de risco também se repete nos casos de tentativa de feminicídio, em que 62% das agressões (aproximadamente 12 dos 20 registrados) foram praticadas no âmbito privado.
Em relação aos métodos utilizados para tirar a vida das mulheres, a arma branca fica com 50% dos assassinatos consumados no primeiro trimestre. Outros meios incluíram agressão física, asfixia e métodos não informados, cada um representando 16,7% das ocorrências. Nas tentativas, o uso de facas e instrumentos perfurantes também é predominante nos dados monitorados pela SSP/DF.
Territorialmente, a violência se concentrou em regiões administrativas com maior índice de vulnerabilidade socioeconômica. Planaltina liderou o número de casos no período, com dois feminicídios registrados, enquanto as regiões do Guará, Estrutural, Recanto das Emas e Sol Nascente/Pôr do Sol contabilizaram uma ocorrência fatal cada.
O impacto desses crimes gera um rastro de desestruturação familiar no DF. Segundo o monitoramento, 66,7% das mulheres assassinadas (quatro das seis vítimas) eram mães. A motivação dos crimes segue pautada em sentimentos de posse, misoginia e ódio, que foi a causa explícita em 33,3% das mortes, e o ciúme apareceu com 16,7% dos casos.
Rede fragilizada
A Secretaria de Mulheres da Central Única dos Trabalhadores do DF (CUT-DF), Thaisa Magalhães, aponta uma crise de investimento e gestão por parte do Governo do Distrito Federal (GDF). “Vivemos uma crise de investimento em políticas públicas para as mulheres. As Casas da Mulher Brasileira, inauguradas por iniciativa federal, ainda não funcionam plenamente porque o GDF não compôs a equipe multidisciplinar prevista para o aparelho público”, denuncia.
A secretária da CUT relaciona a falta de pessoal capacitado ao aumento da insegurança para as trabalhadoras brasilienses. “As campanhas de desconstrução da violência são mínimas e a Educação, fundamental a longo prazo para a mudança desse contexto, vem sofrendo pressões sobre iniciativas que discutam políticas de igualdade de gênero. O resultado é o contexto de insegurança que as mulheres vivem hoje”, lamenta.
No primeiro trimestre de 2026, 60% dos autores identificados (três dos cinco conhecidos) não possuíam antecedentes criminais registrados. Embora a taxa de prisões seja de 80%, a ausência de histórico policial indica que a punição não é capaz de evitar o primeiro ataque, exigindo prevenção primária.
A análise das 20 tentativas de feminicídio ocorridas entre janeiro e março traz um dado relevante sobre a importância das redes de apoio. Em 47% desses casos (nove tentativas), a vítima só não foi assassinada devido à intervenção de terceiros que interromperam a agressão. Outras mulheres (28%) conseguiram fugir do agressor por meios próprios.
O monitoramento da Segurança Pública aponta que o perfil dos agressores é diversificado. Os autores identificados no trimestre distribuíram-se igualmente (20% cada) entre adolescentes de 12 a 17 anos até adultos de 40 a 44 anos.
Mulheres em situação de violência podem buscar ajuda por meio da Central de Atendimento à Mulher, pelo telefone 180, que funciona 24 horas por dia. Em casos de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.
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