Nesta sexta-feira e sábado (15 e 16), o Teatro Hermilo Borba Filho recebe o espetáculo “Isso Não é um Número de Circo”, às 19 horas. Em cena, a Cia. Devir, formada por Vitor Lima e João Lucas Cavalcanti, que se desdobra em acrobacias num aparelho chamado multicordas, de pouquíssima utilização no país. A apresentação acaba sintetizando o trabalho de mais de uma década da dupla em pesquisas e criações que caminham no sentido de buscar novas possibilidades para a linguagem e o imaginário circense brasileiro e pernambucano, sendo atravessados por outras linguagens artísticas, como o teatro, e também por questões sociais, sentimentais e políticas.
No final de 2014, após algumas tentativas frustradas de trabalhos em grupos maiores, Vitor e João Lucas decidem desenvolver seus trabalhos em dupla. Em um cenário recifense onde a criação circense era baseada no virtuosismo das grandes lonas e das sequências isoladas de números, a Devir nasce com esse propósito de “se fazer uma obra de circo que possa falar de tudo”, em uma trajetória que se desenvolve a partir de uma robusta bagagem de experiências formativas pelo Brasil e pelo mundo que os dois tiveram a oportunidade de acumular por meio de editais.
“A gente se identificava com processos criativos que trouxessem questões próprias, sejam emocionais, sociais, políticas, de se inspirar nesses aspectos que normalmente não são muito comuns no circo. Foi uma perspectiva, a priori, europeia, que permitiu a gente mergulhar nesse lugar. Mas hoje acreditamos que expressamos algo muito brasileiro e pernambucano, mesmo com técnicas de fora”, elabora João Lucas, em entrevista ao Brasil de Fato.
Nesse processo de pesquisa, a Devir encontra uma identidade cujas bordas vão encontrar o teatro, o audiovisual e a dança, incorporando o sentimento do risco e do espanto que as acrobacias circenses carregam em sua essência para além do viés puramente físico. E, no rigor das criações, também se abriram para caminhos não planejados que chegaram espontaneamente, como a comicidade, que hoje também é uma das grandes marcas do trabalho.
“O humor se tornou uma característica nossa de uma maneira despretensiosa. Nunca fizemos nenhum tipo de curso de palhaçaria, mas acabou que nossa dinâmica de trabalho tem um grau de comicidade. Até brincamos que queríamos fazer umas coisas conceituais sérias, mas sempre acabam indo para o lado engraçado e fomos abraçando também esse outro lado”, conta Vitor Lima.
Desde 2022, a Devir também passa a ocupar territorialmente a cena circense da capital pernambucana com uma sede própria, no bairro da Encruzilhada, Zona Norte do Recife. A sede do grupo nasce da necessidade de ter um espaço para a dupla manter a intensa rotina de treinos, de três a quatro horas diárias, que podem dobrar em períodos de espetáculo. O terreno, que um dia foi um vazio capinado pelos próprios artistas, hoje abriga também uma escola da companhia, com aulas regulares de aéreos, e atividades formativas pontuais para públicos como crianças e pessoas com deficiência.
“Isso Não é um Número de Circo”, apresentado neste fim de semana, é uma síntese dessa trajetória de experimentações e construção de uma voz circense própria. Em 2022, a Devir realizou uma apresentação com o mesmo aparelho multicordas e até com o mesmo nome, mas antecedido pela chancela de “experimento”. Agora, não se trata mais disso. O esqueleto da iniciativa é até o mesmo, mas foram aprofundados aspectos dramatúrgicos e outras questões caras à Devir, com uma acessibilidade aos mais diversos públicos.
“Agora é uma nova etapa. Estamos fazendo um trabalho que é sobre a jornada dessa dupla tentando entender como se criar no circo de uma forma que a gente acredita e todas suas possibilidades, de uma forma bem-humorada e leve. O intuito nesse momento é mostrar um pouco dessa jornada da Devir nessa busca de um circo contemporâneo que é pernambucano, recifense, que tem muitas referências a partir da nossa história”, elabora João Lucas.
“Antes era uma grande colagem, em que trazíamos princípios que achávamos interessantes. Agora não ficamos mais nos princípios, pudemos trabalhar a dramaturgia e aprofundar questões importantes para nós, um espetáculo que sai do lugar do experimental para o de uma obra mais fechada, que acolhe mais as crianças e todas as idades”, complementa Vitor. A entrada para a apresentação é gratuita, com possibilidade de contribuição consciente. No sábado, o espetáculo contará com tradução em Libras e audiodescrição.
