Valorização da negritude, preservação da história e da memória de uma grande comunidade que enriquece Porto Alegre com o seu passado, cultura, valores ancestrais, a sua arte e a sua música. Este é o grande mote da exposição A Força da Memória – 20 anos do livro O Negro em Preto e Branco: História Fotográfica da População Negra de Porto Alegre.
A exposição de fotos está em cartaz no Foro Central II (rua Manoelito de Ornelas, 50), no bairro Praia de Belas, em Porto Alegre (RS), até 30 de junho, de segunda à sexta-feira, das 12 às 19h. O evento já passou pelo Mercado Público e pelo Shopping Rua da Praia e não é comemorativo ao dia da libertação dos escravos (13 de maio).
O negro sempre esteve presente na história brasileira. Porto Alegre não poderia ficar de fora, e a mostra é uma clara concepção da contribuição desse povo que veio escravizado da África nos séculos 16, 17 e 18 e aqui fincou raízes importantes na construção social, cultural, religiosa e política da Capital. As fotos que integram a exposição foram reunidas ao longo do tempo e fazem parte do acervo de famílias que ajudaram a montar o mosaico da raça negra na heterogeneidade da população de Porto Alegre.
Álbuns de famílias
Responsável pela curadoria da exposição, a produtora e documentarista Lizandra Moraes destaca o caráter coletivo e simbólico do projeto. “Esse apanhado de fotos atravessa passado, presente e futuro. É uma forma de devolver ao porto-alegrense esse álbum de família que nos foi confiado”, afirmou. Para ela, a exposição também reforça o protagonismo feminino na construção da memória negra da cidade.
“São mulheres à frente do tempo, muitas vezes sendo ‘as primeiras’ em seus espaços, em um momento em que esse protagonismo não era reconhecido”. A curadoria é inspirada no conceito do fotógrafo Philipe Doubois: “um caminho que provoca, valoriza e repara por meio da imagem, baseado no princípio de distância e aproximação, com um olhar ético e autêntico”.
A escolha do Foro Central II como sede da mostra possui significado especial para a curadoria. De acordo com Lizandra, ocupar um espaço institucional representa também um movimento de reflexão e reconhecimento histórico. “Estar aqui é mais do que ocupar um espaço físico, é cumprir a missão de provocar esse lugar. Não se negocia que mãos negras criaram e fortaleceram a cidade de Porto Alegre”, ressalta.
Dizem que uma mentira repetida infinitas vezes pode transformar-se em uma verdade. As mentiras racistas tentam assumir esta dimensão. Repetidas de forma não crítica, engrossam o cotidiano de discriminações negativas. Ter “alma branca” é uma delas. Este é o texto que inspira o coletivo Negro de Alma Preta, que está na íntegra no livro Negro em Preto e Branco, de autoria da professora Maria Conceição Lopes Fontoura. Mestra e doutora em Educação, servidora da Ufrgs há mais de quatro décadas, ela está à frente da representação regional no RS da Fundação Cultural Palmares, órgão do Ministério da Cultura.
Primeira fotógrafa negra do RS

As fotos em preto e branco da exposição foram reunidas pela primeira fotógrafa negra do RS, Irene Santos. Ela também é referência na documentação da história negra da cidade. A obra – lançada inicialmente em 2005, ainda comemora os seus 20 anos (na verdade são 21) – terá nova edição este ano, com textos assinados pela jornalista, ativista e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS, Vera Daisy Barcellos, pioneira na cobertura esportiva no estado, com a participação da jornalista Sílvia Abreu.
A publicação também homenageia o poeta Oliveira Silveira – idealizador do 20 de novembro como Dia da Consciência Negra – e as mais de 100 famílias que compartilharam fotografias pessoais para a construção do acervo. Durante a abertura, Vera Daisy relembrou o processo coletivo de construção do livro. “As famílias abriram suas caixas de fotografias, compartilharam memórias e histórias. Esse material foi fundamental”, afirmou. Irene Santos ensina que “uma imagem empática é uma reparação imediata”.
Reedição do livro mobiliza campanha coletiva

O impacto das exposições também resultou na reedição da obra Negro em Preto e Branco, reafirmando a importância da memória coletiva como instrumento de valorização cultural e reparação histórica.
O projeto é realizado pelo coletivo Almas Retintas, formado majoritariamente por mulheres aposentadas, artistas, fotógrafas e jornalistas dedicadas ao resgate, à preservação e à valorização da memória da população negra. Representado por Lizandra Moraes, o grupo desenvolve ações que utilizam a fotografia como instrumento de memória, reparação histórica e reconhecimento coletivo. O coletivo se fortaleceu e vem crescendo após as Rodas de Saberes que foram organizados durante a itinerância da mostra.
Para viabilizar a nova edição, o coletivo Almas Retintas uniu-se à produtora Natela e à Secco Editora em uma campanha de pré-venda que busca mobilizar apoiadores, instituições e a comunidade em geral.
A proposta é que cada aquisição contribua diretamente para a materialização da nova edição do livro e para a preservação da memória negra de Porto Alegre. O encerramento da campanha está previsto para o dia 30 de junho, data em que também será realizada uma solenidade especial de encerramento da exposição e celebração da entrega da obra.
Além das aquisições individuais, instituições poderão personalizar lotes especiais para presentear colaboradores, parceiros e convidados em festividades e eventos institucionais.
O livro foi lançado em 2005 por meio do Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre (Funproarte) e rapidamente teve sua tiragem esgotada. Atualmente, só pode ser encontrado em sebos e bibliotecas. Considerada uma obra de referência, a publicação utiliza álbuns de família, lembranças coletivas e registros fotográficos como ferramentas de valorização da memória e de reparação histórica. Uma nova edição está em estudo para atender à demanda permanente de leitores e pesquisadores.
Serviço:
Exposição: A Força da Memória – 20 anos do livro Negro em Preto e Branco
Local: Foro Central II – Rua Manoelito de Ornellas, 50 – Porto Alegre (RS)
Período: até 30 de junho.
Horário: Das 12h às 19h, de segunda a sexta-feira.
Informações e pré-venda:
Instagram: @almasretintas
