PROTAGONISMO NEGRO

História da população negra de Porto Alegre (RS) é contada em exposição fotográfica no Foro Central II

Em cartaz até 30 de junho, mostra revela caminhos percorridos e contribuição da comunidade negra na construção capital

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Fotos em preto e branco que integram a exposição foram cedidas pelas famílias que ajudaram a montar o mosaico da raça negra na heterogeneidade da população de Porto Alegre
Fotos em preto e branco que integram a exposição foram cedidas pelas famílias que ajudaram a montar o mosaico da raça negra na heterogeneidade da população de Porto Alegre | Crédito: Reprodução/ Eugênio Bortolon

Valorização da negritude, preservação da história e da memória de uma grande comunidade que enriquece Porto Alegre com o seu passado, cultura, valores ancestrais, a sua arte e a sua música. Este é o grande mote da exposição A Força da Memória – 20 anos do livro O Negro em Preto e Branco: História Fotográfica da População Negra de Porto Alegre.

A exposição de fotos está em cartaz no Foro Central II (rua Manoelito de Ornelas, 50), no bairro Praia de Belas, em Porto Alegre (RS), até 30 de junho, de segunda à sexta-feira, das 12 às 19h. O evento já passou pelo Mercado Público e pelo Shopping Rua da Praia e não é comemorativo ao dia da libertação dos escravos (13 de maio).

O negro sempre esteve presente na história brasileira. Porto Alegre não poderia ficar de fora, e a mostra é uma clara concepção da contribuição desse povo que veio escravizado da África nos séculos 16, 17 e 18 e aqui fincou raízes importantes na construção social, cultural, religiosa e política da Capital. As fotos que integram a exposição foram reunidas ao longo do tempo e fazem parte do acervo de famílias que ajudaram a montar o mosaico da raça negra na heterogeneidade da população de Porto Alegre.

Álbuns de famílias

Responsável pela curadoria da exposição, a produtora e documentarista Lizandra Moraes destaca o caráter coletivo e simbólico do projeto. “Esse apanhado de fotos atravessa passado, presente e futuro. É uma forma de devolver ao porto-alegrense esse álbum de família que nos foi confiado”, afirmou. Para ela, a exposição também reforça o protagonismo feminino na construção da memória negra da cidade.

“São mulheres à frente do tempo, muitas vezes sendo ‘as primeiras’ em seus espaços, em um momento em que esse protagonismo não era reconhecido”. A curadoria é inspirada no conceito do fotógrafo Philipe Doubois: “um caminho que provoca, valoriza e repara por meio da imagem, baseado no princípio de distância e aproximação, com um olhar ético e autêntico”.

A escolha do Foro Central II como sede da mostra possui significado especial para a curadoria. De acordo com Lizandra, ocupar um espaço institucional representa também um movimento de reflexão e reconhecimento histórico. “Estar aqui é mais do que ocupar um espaço físico, é cumprir a missão de provocar esse lugar. Não se negocia que mãos negras criaram e fortaleceram a cidade de Porto Alegre”, ressalta.

Dizem que uma mentira repetida infinitas vezes pode transformar-se em uma verdade. As mentiras racistas tentam assumir esta dimensão. Repetidas de forma não crítica, engrossam o cotidiano de discriminações negativas. Ter “alma branca” é uma delas. Este é o texto que inspira o coletivo Negro de Alma Preta, que está na íntegra no livro Negro em Preto e Branco, de autoria da professora Maria Conceição Lopes Fontoura. Mestra e doutora em Educação, servidora da Ufrgs há mais de quatro décadas, ela está à frente da representação regional no RS da Fundação Cultural Palmares, órgão do Ministério da Cultura.

Primeira fotógrafa negra do RS

A jornalista, ativista e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS, Vera Daisy Barcellos (E) assina os textos da nova edição do livro. Imagens foram reunidas pela primeira fotógrafa negra do RS, Irene Santos (D) | Crédito: Lizandra Moraes

As fotos em preto e branco da exposição foram reunidas pela primeira fotógrafa negra do RS, Irene Santos. Ela também é referência na documentação da história negra da cidade. A obra – lançada inicialmente em 2005, ainda comemora os seus 20 anos (na verdade são 21) – terá nova edição este ano, com textos assinados pela jornalista, ativista e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS, Vera Daisy Barcellos, pioneira na cobertura esportiva no estado, com a participação da jornalista Sílvia Abreu.

A publicação também homenageia o poeta Oliveira Silveira – idealizador do 20 de novembro como Dia da Consciência Negra – e as mais de 100 famílias que compartilharam fotografias pessoais para a construção do acervo. Durante a abertura, Vera Daisy relembrou o processo coletivo de construção do livro. “As famílias abriram suas caixas de fotografias, compartilharam memórias e histórias. Esse material foi fundamental”, afirmou. Irene Santos ensina que “uma imagem empática é uma reparação imediata”.

Reedição do livro mobiliza campanha coletiva

Exposição também reforça o protagonismo feminino na construção da memória negra da cidade | Crédito: Reprodução/ Eugênio Bortolon

O impacto das exposições também resultou na reedição da obra Negro em Preto e Branco, reafirmando a importância da memória coletiva como instrumento de valorização cultural e reparação histórica.

O projeto é realizado pelo coletivo Almas Retintas, formado majoritariamente por mulheres aposentadas, artistas, fotógrafas e jornalistas dedicadas ao resgate, à preservação e à valorização da memória da população negra. Representado por Lizandra Moraes, o grupo desenvolve ações que utilizam a fotografia como instrumento de memória, reparação histórica e reconhecimento coletivo. O coletivo se fortaleceu e vem crescendo após as Rodas de Saberes que foram organizados durante a itinerância da mostra.

Para viabilizar a nova edição, o coletivo Almas Retintas uniu-se à produtora Natela e à Secco Editora em uma campanha de pré-venda que busca mobilizar apoiadores, instituições e a comunidade em geral.

A proposta é que cada aquisição contribua diretamente para a materialização da nova edição do livro e para a preservação da memória negra de Porto Alegre. O encerramento da campanha está previsto para o dia 30 de junho, data em que também será realizada uma solenidade especial de encerramento da exposição e celebração da entrega da obra.

Além das aquisições individuais, instituições poderão personalizar lotes especiais para presentear colaboradores, parceiros e convidados em festividades e eventos institucionais.

O livro foi lançado em 2005 por meio do Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre (Funproarte) e rapidamente teve sua tiragem esgotada. Atualmente, só pode ser encontrado em sebos e bibliotecas. Considerada uma obra de referência, a publicação utiliza álbuns de família, lembranças coletivas e registros fotográficos como ferramentas de valorização da memória e de reparação histórica. Uma nova edição está em estudo para atender à demanda permanente de leitores e pesquisadores.

Serviço:
Exposição:
A Força da Memória – 20 anos do livro Negro em Preto e Branco
Local: Foro Central II – Rua Manoelito de Ornellas, 50 – Porto Alegre (RS)
Período: até 30 de junho.
Horário: Das 12h às 19h, de segunda a sexta-feira.
Informações e pré-venda:
Instagram: @almasretintas

Editado por: Gilson Camargo

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