A Câmara dos Deputados realizou, nesta quinta-feira (14), uma sessão solene em homenagem aos 30 anos do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e à trajetória de Frei Sérgio Görgen, um dos fundadores do movimento e referência histórica das lutas camponesas no Brasil, falecido em fevereiro deste ano. A atividade integrou a programação do 4º Encontro Nacional dos Pequenos Agricultores, realizado em Brasília entre os dias 11 e 14 de maio.
A sessão solene reuniu parlamentares, camponeses e camponesas de 20 estados, lideranças de movimentos sociais e populares, além de delegações de 15 países, que integram a Coordinadora Latinoamericana de Organizaciones del Campo (CLOC – Via Campesina), organizadora do evento.
Pancha Rodríguez, membro da CLOC e da Asociación Nacional de Mujeres Rurales e Indígenas (Anamuri), afirmou que o MPA nasceu no coração do campesinato e ultrapassou fronteiras para representar o tecido de organizações da Via Campesina na América Latina e Caribe.
A liderança definiu os territórios camponeses como barreiras contra as ameaças fascistas do nosso tempo. “O futuro é nosso, devemos lutar apesar das ameaças que enfrentamos e, com força, afirmamos, lutamos e vamos fazer com que o fascismo não passe no nosso território. Creio que essa é a grande tarefa que temos. Continuar a manter aquilo que nos custou tanto alcançar”, disse.
Em sua fala na tribuna, Pancha enfatizou que o Encontro Nacional do MPA ilumina os processos de lutas camponesas na América Latina, que têm o mesmo horizonte em comum. “Somos uma organização política e, como tal, procuramos caminhos que realmente resolvam os problemas dos povos. Procuramos novos sonhos, novas projeções para garantir a vida da humanidade.”

Ao citar o legado de Frei Sérgio, resumiu que o frade dedicou toda sua força e sentimento a construir um “amplo horizonte que o MPA tem percorrido ao longo destes 30 anos”, disse a representante da Associação Nacional das Mulheres Indígenas do Chile.
O frei João Osmar D’Ávila, da Ordem dos Frades Menores (OFM), relembrou a trajetória de Frei Sérgio entrelaçada com as lutas populares. Ele se juntou à ordem religiosa ainda com 19 anos e permaneceu atuante por mais de 50 anos.
“Ele dedicou a sua vida ao trabalho da igreja, ao trabalho dos movimentos sociais e à luta do povo por melhor qualidade de vida. Ele dizia que não ia desistir, porque para ele a coisa mais triste que tinha era fazer enterro de criança que morria de fome. Foi essa a grande missão de Frei Sérgio”, declarou.
Soberania e futuro
Diferentes parlamentares e movimentos populares destacaram em suas falas a importância do alimento saudável na construção de um futuro soberano para o Brasil, e o papel central do MPA nesse projeto de país.
“Há 30 anos nascia no Brasil um movimento forjado na resistência, na esperança e na coragem do povo camponês. O MPA foi construído por mãos calejadas da terra, por famílias que aprenderam, geração após geração, que plantar alimento também é plantar dignidade, soberania e futuro. O MPA nasceu do enfrentamento, da luta contra a expulsão do campo, contra a fome, o abandono e a concentração de renda e de terra”, destacou o deputado federal João Daniel (PT-SE), que presidiu a sessão.
Nesses 30 anos, o MPA seguiu lutando pelas seis soberanias estabelecidas no Plano Camponês: alimentar, genética, energética, hídrica, do saber, dos territórios. Adriana Mezzadri, do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), reforçou a luta pela autonomia e resistência do povo camponês ao longo dos anos.
“As mulheres e homens organizados, no MPA, lutando e resistindo nos territórios, construindo as sementes crioulas, que fazem parte da nossa vida, o respeito e a resiliência da natureza”, disse, citando também outros movimentos populares. Segundo Mezzadri, um dos desafios atuais é o uso, em muitos lugares do mundo, da fome como arma de guerra.

Aliança camponesa e operária
Já Rud Rafael, coordenador nacional do Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores Sem-Teto (MTST-Brasil), enfatizou que este ano sserão definidosos rumos do país e defendeu o avanço das reformas populares, como o fim da escala 6×1. “É fundamental que a gente avance nessa pauta, neste ano que é decisivo. Há tanto tempo que a gente espera a melhoria de vida da classe trabalhadora”, defendeu.
Na mesma linha, Cibele Vieira, diretora da Federação Única dos Petroleiros (FUP), reafirmou a importância da aliança camponesa e operária para enfrentar os desafios atuais.
“A gente está vendo uma conjuntura internacional, onde vem se acirrando cada vez mais a questão dos recursos naturais. A gente vê aí o Trump, ladrão do petróleo, o que ele já fez na Venezuela, o que ele está fazendo lá no Oriente Médio, colocando tudo em cheque, uma reorganização de uma nova ordem mundial. Então, nesse momento, é muito importante isso que o MPA faz, de trazer tantos convidados internacionais para reforçar a aliança para além do nosso país”, avaliou.
A deputada federal Erika Kokay (PT-DF) utilizou a tribuna para exaltar a coerência do MPA em defeder todas as formas de vida necessárias “para ter a terra e da terra brotar comida sem veneno, que alimenta o povo brasileiro”.
“Não se constrói soberania nacional sem essas diversas soberanias que são construídas todos os dias por cada uma e cada um de vocês que constrói esse movimento há tantos anos”, parabenizou a parlamentar.
O coordenador nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Anderson Amaro, pontuou que a única possibilidade de construir uma sociedade justa e igualitária é trazer o campesinato para o centro do debate.
“É necessário termos uma bancada do campesinato brasileiro e não só a bancada da bala, da Bíblia e do boi. Temos que rechaçar isso com veemência, com todas as nossas forças, para que possamos reafirmar o compromisso da nossa soberania junto com outros companheiros e companheiras, não só do Brasil, mas de todo o mundo”, criticou.

Da Terra à Mesa Semiárido
A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Fernanda Machiaveli, esteve presente na cerimônia e anunciou a expansão do programa Da Terra à Mesa do Semiárido. Ela enfatizou que a política pública, criada há um ano, foi construída a partir do diálogo com o MPA.
“Nós construímos o programa Da Terra à Mesa partindo do diagnóstico trazido pelo movimento, já que o Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar], por mais amplo que pudéssemos deixá-lo, não alcançaria uma parte da agricultura camponesa”, disse.
A gestora lembrou que o movimento de pequenos agricultores nasceu da mobilização por políticas públicas no contexto de estiagem, endividamento das famílias camponesas e contra a concentração de terra na década de 1990.
“Falar do MPA é falar sobre a luta pela soberania alimentar, pelo alimento saudável, pela agroecologia, pela produção sustentável, a luta do combate à fome, que vem para nós na Missão José de Castro. Falar do MPA é falar sobre as sementes crioulas, sobre o cuidado com as nossas sementes”, pontuou.
Por fim, Machiaveli explicou o objetivo do edital voltado especificamente para as demandas de adaptação climática no Nordeste. “Estamos agora construindo e vamos lançar o Da Terra à Mesa do Semiárido, para financiar uma estratégia de adaptação climática da agricultura camponesa no semiárido brasileiro”, anunciou.
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