No solo onde o café já foi sinônimo de dor e exploração, hoje o tambor ecoa identidade, resistência e ancestralidade. Em Campinas, cidade conhecida por ter sido a última a abolir formalmente a escravidão no Brasil, a Casa de Cultura Fazenda Roseira transformou-se em um polo de reexistência e patrimônio campineiro desde sua ocupação pelo movimento negro e popular em 2008. O casarão do século 19, que outrora serviu como sede de uma fazenda escravocrata, é hoje o território gerido pela comunidade Jongo Dito Ribeiro.
No centro dessa articulação está Alessandra Ribeiro, historiadora, doutora em Urbanismo e mestra da Comunidade Jongo Dito Ribeiro. Há 22 anos, ela cultiva em Campinas o Jongo — “pai do samba” e patrimônio imaterial brasileiro —, elo ancestral da cultura Bantu. Com tambores artesanais e “pontos” que preservam dialetos africanos, resgatou a herança do avô, Benedito (Dito Ribeiro), trazendo a prática em ferramenta de autoestima e pertencimento negro.
Alessandra não apenas gere um espaço público; ela zela por um território vivo. Mãe de Santo de Umbanda à frente do Centro de Estudo de Matriz Africana Mamãe Cambinda e Cabocla Jurema, ela iniciou sua caminhada espiritual ainda na infância, por meio da “umbanda familiar no quintal de casa”.
Para ela, ocupar a materialidade de uma antiga fazenda escravocrata é um ato político e espiritual profundo. “Para a gente ter a oportunidade de contar a história a partir daqui é muito simbólico”, afirma, destacando que o espaço serve para narrar a “história da nossa diáspora preta e dessa cidade”.
Mãe Alessandra defende que o terreiro é um lugar de responsabilidade e construção cotidiana. Em sua visão, a fé exige pé no chão. “A fé exige disciplina, porque ela não é mágica, ela não é utópica, ela é material, ela é real”, explica.
Essa disciplina se traduz na calma estratégica herdada dos mais velhos. Para a líder religiosa, a figura do Preto Velho — o escravizado que resistiu ao sistema — é a maior prova de que a serenidade não é recuo. “O Preto Velho traz para mim a certeza de que a calma também é uma forma de luta, não é uma passividade”.
Nesta entrevista, que abre a série documental “Terreiros Urbanos em São Paulo”, uma produção do Brasil de Fato, Alessandra Ribeiro nos conduz pelos caminhos da Fazenda Roseira e da ancestralidade.
Ela detalha como a Umbanda, o Jongo e a educação se fundem para criar pessoas que não precisam enfrentar seus medos sozinhas. Como ela mesma define sobre sua missão e o peso da herança que carrega: “Se todo esse cosmos se torna presente ainda hoje não dá pra eu falar pra tudo isso que tá dentro de mim falar, cansei. Então, eu só agradeço”.
A série está disponível no YouTube e traz em cinco episódios o cotidiano de lideranças que, entre a periferia, o interior e o litoral do estado de São Paulo, mostram que o terreiro é, antes de tudo, um centro estratégico de tecnologia social, acolhimento e produção de saber. Já o lançamento presencial será dia 21, às 18h, no Armazém do Campo (Alameda Nothmann, 806), localizado na região central de São Paulo (SP), com a presença de três personagens da obra.
Confira a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato: Mãe Alessandra, como se deu o seu encontro com a espiritualidade e como isso se conecta com a sua trajetória familiar em Campinas?
Alessandra Ribeiro: Nasci aqui em Campinas, numa família muito religiosa desde cedo. Na geração das minhas tias-avós, elas eram kardecistas e católicas. Na da minha mãe, umbandistas e católicas. E hoje, na minha geração, católica, umbandista e candomblescista. Na Umbanda, minhas origens vêm de uma Umbanda familiar, onde a espiritualidade nos deu caminho em todos os processos: uma casa de Preto Velho, sendo essa a linha condutora, templo de Umbanda, Mãe Joana Três Estrelas, filha da querida Mãe Edna de Oxum. Foi lá que fui iniciada no Candomblé e virei a de Ogum. Estive com ela até meus sete anos de santo, quando ela fez a passagem.
Depois, demos continuidade à casa, e há oito anos estou à frente do Centro de Estudo de Matriz Africana Mamãe Cambinda e Cabocla Jurema, minha casa de preto velho, caboclo e jurema. Hoje estou também nas águas Nagô Ijexá, com meu terreiro de candomblé, Ilê Axé Ogunjá Oni, das águas da Mãe Terezinha de Oyá Igbalé, em São Félix (BA). De candomblé, tenho 21 anos, com obrigações de 8 anos. Na Umbanda, sou médium há 38 anos — dos 50 que tenho. Comecei a me desenvolver espiritualmente dos 10 para os 11 anos. Desde então, me dobro a essas ancestralidades que guiam minha vida.

| Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato
Isso também perpassou sua trajetória acadêmica, o jongo e a Casa de Cultura Fazenda Roseira?
Nesse caminhar ancestral, reencontrei a ancestralidade do meu avô, que era jongueiro, não o conheci em vida, mas ele deixou essa herança cultural. Como muitos terreiros de candomblé têm jongo, ijexá, maracatu, aqui é uma casa de preto velho, de caboclo e de jongo. Cultuamos e cuidamos dessa prática cultural, patrimônio brasileiro, há 22 anos em Campinas. Meu avô veio de Minas Gerais para cá, e foi experienciando o jongo e a espiritualidade de matriz africana que fui tocada a refletir: os desafios de ser mulher negra, religiosa de matriz africana, mãe solo eram tão grandes que, quando surgiu o ProUni, fui para a faculdade de História. Tornei-me historiadora pesquisando jongo, ancestralidade e representação.
Em 2008, quando terminava a faculdade, começou nossa ocupação na Fazenda Roseira. E aí vieram os embates, os desafios, os medos. Pois sabemos que este país conhece a força de um território, de uma territorialidade — por isso nos rompem tão recentemente o direito de existir não só como casa, moradia, mas como território estendido: água, natureza, mato, fogo.
A espiritualidade e a ancestralidade nos trouxeram para fazer essa luta, e hoje esta casa é nossa. É uma casa de cultura em gestão compartilhada com a prefeitura, mas majoritariamente gerida por mulheres negras, num matriarcado. Brincamos no jongo: “No terreiro de vovó, galo não canta, pinto não pia, galinha que manda.” Esse território me levou a fazer o mestrado e o doutorado em Urbanismo, e me tornou especialista em matriz africana e patrimônio cultural material e imaterial no Brasil, numa disrupção diaspórica dentro do território brasileiro, mas também em conexão com a América Latina e África. Enfim, Alessandra é uma mulher de Ogum: deixa a água fluir para fazer os contornos, mas, se precisar, passa o facão.
Como foi sua iniciação na espiritualidade tão jovem?
É muito louco. Da mesma forma que, desde pequena, a gente cresceu ouvindo que água fluida era de bom grado e que canja de galinha não fazia mal a ninguém, qualquer dor de barriga, a avó levava a gente ao quartinho e dava passe. Era natural receber bons fluidos para a criança ficar mais calma. Natural ir ao terreiro e dormir no banco, tomar passe de Preto Velho, baiano, caboclo, boiadeiro, marinheiro, Exu, Pomba Gira, como parte da família estendida. O que foi diferente na minha família fui eu, tão nova, receber a mediunidade. Todos os meus primos eram mais velhos, a maioria maior de idade. Fui a única criança médium que viram brincando e também recebendo espíritos.
Minhas entidades me acompanham desde os dez, 11 anos — hoje tenho 50, então é muito tempo com essa ancestralidade. Foi leve, natural. Quando cheguei ao candomblé, no terreiro de Mãe Joana Três Estrelas, também foi natural acolher os Orixás, entender outra religião, com outras diretrizes, ritos, rezas, línguas. Sempre leve. E encontrar minha ancestralidade jongueira — esses legados acumulados como responsabilidade de vida sempre chegaram com leveza. Nunca me impediram de viver, me divertir, rir, passear. E sempre me trouxeram aterramento, firmeza, potência para buscar coisas e compartilhá-las com as comunidades que me atravessam: terreiro, Ilê, Jongo, e agora este espaço cultural.
Falando em jongo, como se dá essa relação com a espiritualidade e o espaço cultural?
Se eu não fosse religiosa de matriz africana — mãe de santo há oito anos, mas religiosa dessa matriz há muito mais —, não seria jongueira. Como não tive meu avô presente, acho que faltaria algo. A conexão religiosa potencializou o reencontro ancestral com a prática cultural. Se não fosse religiosa e jongueira, talvez não tivesse essa percepção de mundo, sensibilidade e subjetividades que me revelam as diferenças sociais, o racismo e a busca por direitos iguais. Isso começa no meu quintal corporal, no meu território-corpo, quando me torno mãe, criando direitos para minhas filhas, na conexão com as pessoas. Quando a mesma ancestralidade nos trouxe o desafio da Roseira, volto atrás: se não fosse religiosa, jongueira, mãe, alguém que ocupa um território e luta por direito… todas as coisas para mim foram assim.
Num lugar de enfrentamento, você traz as armaduras e estratégias em que tem mais segurança. A gente tinha segurança na educação. Nossa comunidade cultural tem zero de analfabetismo, zero de vulnerabilidades extremas; muitos filhos de terreiro e do Jongo são acadêmicos. Eu, como liderança e doutora, isso impacta minha comunidade, minha forma de ver o mundo, de atuar e de lutar.
Então, olhamos para educação, cultura e cosmovisão ambiental como três elementos inegociáveis. Focamos escolas para ensinar Jongo e aplicar a Lei 10.639: falar sobre negritude, valores, beleza, comida, dança, sobre a importância de ser criança preta de cabelo crespo. Na cultura, o Jongo é fundamental, mas a Roseira ganhou transversalidade: hoje somos referência de cultura negra e matriz africana na região metropolitana. Todos nos procuram.
Temos uma cartografia preta alinhada e uma rede conectada. Damos aula de percussão, como o projeto Mulheres, Tambores e Cabaça, desenvolvido por minha filha percussionista, que viaja por manifestações negras e resgata a mulher que toca tambor e coro. Não ocupamos lugar de ninguém, mas fazemos as pessoas chegarem a outros territórios — Moçambique, África do Sul — e trazemos essas culturas ancestrais para nossa casa. No ambiental, discutimos racismo ambiental, questões climáticas, viver com a natureza, nos desurbanizar para nos aterrar como parte do cosmo.

Quais os principais desafios dentro do terreiro, do jongo e da Fazenda Roseira?
No âmbito da cultura, o maior desafio é não sermos exterminados pelo racismo que nos torna invisíveis. Estamos num território antigo, cujos bairros são desmembramentos, e a todo tempo tentam nos apagar. Tornar-nos presentes e visíveis é o grande desafio — visíveis até no que é elegível como prioridade: qual lixo se recolhe primeiro, qual mato se mantém, qual estrutura se recupera.
Na espiritualidade, vejo menos como desafio e mais como possibilidade. A invisibilidade que a estrutura racista impõe transcende quando os tambores do terreiro tocam. O tambor toca quem é tocado por ele. Muitas pessoas do entorno que nunca vieram pelo Jongo vêm tomar passe. Essa possibilidade de ter espiritualidade nos encoraja como ferramenta de luta: a ancestralidade e os saberes das entidades e orixás nos dão equilíbrio contra a realidade que invisibiliza, não põe recurso, tenta nos matar dia a dia, mata nossos jovens, estupra mulheres, não nos respeita. Ser mulher preta, periférica e macumbeira — todo mundo olha na sua cara e não tem dúvida — exige muita fé. É desafiador, mas, quando você volta para essa matriz, se potencializa em outro lugar, porque jamais está só.
Quais as dimensões e responsabilidades de ser mãe de santo?
O mestre Lumumba me chamava de Iyá (mãe) desde sempre. Eu não imaginava que seria Iyá de fato do Ilê Axé Ogunjá Oni, nem mãe Alessandra do Centro de Umbanda. Mas sempre soube que seria mãe. Há 27 anos sou mãe da Bianca. Filha única que nasce numa coletividade: ela já não é única. A primeira coisa que perde é o privilégio de ter mãe só para ela. Mas o primeiro benefício é que essa criança nasce de um útero de uma mãe coletiva, plural, que faz mil coisas, é solo, trabalha, e escolhe entregá-la a um coletivo que ajuda a cuidar, porque há muitas lutas ao mesmo tempo.
É saber que as dores doem. Nem todas serão curadas com passe de mágica, mas podem ser enfrentadas com fé. E a fé é certeza que não exige prova, mas exige disciplina. Se não exercemos a fé no cotidiano, não entendemos os caminhos desses ventos para superar as dores. Hoje, como mãe de santo, sou sensível aos desafios que meus filhos trazem — desabafos, ensinamentos dos jogos de búzios, memórias de afetos das entidades. Mas também sou firme: para ter assentamento e resposta, é preciso entrega.
Entrega não é recursos materiais, é disciplina da fé. A fé exige disciplina porque não é mágica, nem utópica: é material, real. Se você não estiver aberto, não sentirá. Estará focado no aqui e desconectado de tudo à volta. Quando nos desconectamos, qualquer plano frustrado fica enorme. Às vezes nem é. Então, o quanto você está disciplinado para aceitar ser parte do mundo — e ser parte do mundo é ter vento, tempestade, maremoto, tufão, não só brisa. Honro aqueles que confiam em mim e entregam suas vidas para que eu auxilie. E agradeço por lembrar diariamente a eles que tudo que têm é deles mesmos. A ancestralidade e a espiritualidade são deles. Estou aqui como pobre mortal aprendiz, para segurar na mão e dizer: vamos aprender juntos.
Explique para quem não é das religiões de matriz africana: o que é a umbanda, sua visão de mundo e o que as entidades representam?
Entendo a Umbanda como uma religiosidade com princípios, dogmas e regras. É uma religião totalmente atravessada pela diáspora preta num território indígena. Ela se conecta com referências historicamente destituídas de direitos e as coloca no centro.
O Preto Velho é o escravizado perseguido, morto, tratado como objeto. E o Preto Velho me traz a certeza de que a calma também é forma de luta, não passividade. Os baianos, boiadeiros, trazem o conhecimento dos forasteiros que andaram pelo país inteiro com gado, imigrando riquezas alheias. O boiadeiro sabe tocar muitos bois por territórios distantes, dias e noites, atravessando rios e mantendo coesão. Os baianos trazem alegria da Cidade Alta e Baixa de Salvador, conectando-se à malandragem.
O Seu Zé Pelintra, referência que vem do Nordeste, chega ao Sudeste, ganha terno branco e cartola, é subjugado como aquele que engana, mas na espiritualidade nos ajuda a ter flexibilidade diante dos desafios da vida. Os caboclos, povos indígenas destroçados, exterminados, voltam na Umbanda como reinados de sabedoria de cura, corpo, alma, mente, saberes da mata e das ervas. Os erês — o que seria sem eles? A sabedoria das crianças que desconcertam as obviedades. Às vezes, para resolver algo simples, a gente complica, e a criança diz: “É só isso?” E é. Gosta de pirulito e doce quando estamos com vontade afetiva.
Todas essas linhas, numa religião que se consolida no Brasil entre o fim do século 19 e início do 20, especialmente na década de 1920 no Sudeste, com vínculos com o kardecismo e o espiritismo, mas reconhecendo que não existem só os espíritos da mesa branca — médicos, filósofos, intelectuais —, mas todos esses ventos e espíritos que fazem parte do saber do cosmo. Isso é umbanda: união de bandas, de giras. Em cada casa, ganha outras dimensões: esoterismo, linhas ciganas, etc.
Venho de uma umbanda que chamamos de “umbanda pé no chão”, casa de preto, umbanda familiar. Quando chegou o candomblé, foi tranquilo o trânsito e a acolhida. Comer junto, partilhar oferenda, sempre fez parte da minha família. Criança, velho, adulto, intergeracionalidade rezando, comemorando, brincando. Meu terreiro era da família. Quando começou a ter pessoas de fora, a base continuou familiar. Hoje, meu terreiro é uma família: que veio pelo jongo, pela fé, consanguínea — é a continuidade de uma família.

O candomblé: o que os orixás Ogum e Oxum representam para você?
Ogum me traz a capacidade de me tornar material e me dá coragem. Ogum é o ferro no meio da terra que, quando esquenta, se molda ao que quisermos; quando esfria, pode separar, eliminar. Ele me torna flexível e estável, se necessário, e duro, se preciso, para enfrentamentos. Enfrentei um loteamento, fui a primeira mulher negra candidata a prefeita de Campinas, sou religiosa de matriz africana há 38 anos, mesmo com tanto racismo religioso, de gênero, intelectual — principalmente quando nosso corpo é de mulher. “Vai ter, não vou parar. Se você está incomodado, lute você.”
Quando Oxum chega — na minha casa de candomblé, assenta-se o segundo santo só depois de sete anos —, ela me aterra, me esfria. Ela diz: “Calma, agora não precisa ser só o fogo que molda no calor ou o ferro que corta. Você pode ser correnteza, mas também riacho.” Isso equilibra. Tenho uma ancestralidade furiosa que ensina minha potência de guerra, mas me lembra que guerras causam estragos. Com a alma de Oxum — rio, correnteza que não para —, tenho a certeza de que posso ser flexível, e de que nenhum de nós é um só. Podemos virar correnteza.
Quando me aceito como parte desse cosmo, dessa ancestralidade que não traz perfeição (como religiões que exigem certo ou errado), mas me entendo como ancestral presente que carrega ancestrais com todas essas naturezas, tenho mais generosidade para lidar com as pessoas e aceitar minhas imperfeições.
Como a visão de mundo da matriz africana, o cuidado do terreiro e do jongo traz para a sociedade de modo geral?
Vivemos num país racista, classista, machista, com tantos ‘ismos’ que discriminam, dividem, roubam, acumulam, coisas que não constroem uma sociedade igualitária. Em contrapartida, você pode vivenciar práticas religiosas e culturais que são o inverso disso. Pode transformar e gerar, no útero, na comunidade, na roça, no ilê, no terreiro, pessoas melhores, com outras epistemes para olhar o mundo, onde não é só o próprio umbigo, e onde não é preciso estar sozinho para enfrentar medos. Pode segurar na mão do outro, fazer junto. Quando você aprende desde pequeno que pode fazer junto, que dividir não fará falta, muito pelo contrário, você inverte a lógica e constrói pessoas melhores.
Numa escala macro, numa sociedade que escravizou mais de 4 milhões de pessoas agressivamente, a Constituição Brasileira reconhece que práticas como o Jongo são patrimônio porque geram identidade, pertencimento e autoestima. Quando elencamos o patrimônio cultural imaterial brasileiro e a maioria são bens indígenas e de matriz africana, estamos dizendo a essa sociedade também europeia que há duas matrizes que sempre estiveram aqui: a indígena e a africana. Essa matriz africana diversa — povo tradicional, de terreiro, do Jongo, do Maracatu — talvez seja a razão de este país ainda existir. É uma forma subjetiva de falar coisas muito concretas.

Apesar do racismo, machismo e todas as barreiras, você continua. O que te faz acordar todos os dias e não desistir?
Eu amo o que faço. Todo dia agradeço a Deus a oportunidade de nascer nesse corpo, nessa terra, nessa família, com essa fé, com tudo o que já errei e acertei. Agradeço aos orixás, a meu pai Ogum por me escolher, a minha mãe Oxum por eu ter oportunidade de ser essa pessoa nesse momento presente, que semeia tanta coisa boa para tanta gente. Eu me reconheço, me enxergo. Sei o quanto potencializo e transformo vidas. É bom saber que não estamos vivendo por nada. Temos uma missão, um legado sendo construído diariamente.
A certeza de que está dando certo — mesmo nos dias que não deram — é o que me faz acordar. Porque vieram muitos antes de mim, até chegar na terra, na água, no ferro, no mar. Se todo esse cosmos se torna presente ainda hoje, com tudo o que nós, seres humanos desconectados, prejudicamos a natureza, o clima… não dá para eu dizer para tudo isso que está dentro de mim: “cansei”. Então, eu só agradeço.
E seus sonhos? O que você ainda deseja realizar?
Meu grande sonho, objetivamente, é ter um conjunto de parceiros, recursos, capital, investidores que me permitam fazer com mais potência o que ainda faço com muito sofrimento. Quero poder fazer deste lugar, além de um espaço de acolhimento religioso, referência de matriz africana (Umbanda e Candomblé), além de patrimônio cultural e material que é o Jongo do Sudeste pela Comunidade Jongo Dito Ribeiro, além de referência de patrimônio material e imaterial com a Casa de Cultura Fazenda Roseira — quero consolidar ainda nesta vida uma escola.
Meu maior sonho hoje é materializar, a partir dessas experiências, um lugar de trocas, saberes, formação permanente para todas as pessoas que queiram emergir nessa matriz africana. Entender o quanto é bom dar a mão mesmo a quem tem cultura diferente, e como é bom se misturar. Porque, no final do dia, diante do cosmo ampliado, todo mundo quer uma vida melhor: filho em segurança, comida na mesa, dormir em paz, trabalho, poder fazer o que quiser. Isso é uma sociedade melhor para todos. Agora, no meio do século, quero consolidar um instituto de matriz africana que faça não só formação extensionista, mas graduação lato sensu. Para todos que quiserem pensar, refletir e deixar epistemes que mudem o Brasil para melhor, como ele merece. É isso o que sonho.
* “Terreiros Urbanos em São Paulo” é uma produção do CPMídias e Brasil de Fato, com realização da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Governo do Estado de São Paulo.