As mobilizações recentes de trabalhadores da educação em Canoas e São Leopoldo foram encerradas na segunda quinzena de maio, após semanas de paralisações, assembleias e negociações com os governos municipais. O término dos movimentos, no entanto, não encerra os problemas apontados pela categoria, que seguem relacionados à valorização profissional, recomposição salarial e condições de trabalho nas escolas.
Em ambos os municípios, sindicatos e administrações afirmam que houve avanços nos acordos firmados. Ao mesmo tempo, reconhecem que parte das reivindicações permanece em aberto, indicando um cenário de continuidade das disputas em torno da política educacional.
Assembleia encerra paralisação em São Leopoldo
Em São Leopoldo, a paralisação foi encerrada após aprovação, em assembleia do sindicato realizada no dia 14 de maio, de uma proposta de reajuste construída a partir de negociações com o Executivo municipal. A categoria aceitou um índice de 4,14% de reposição salarial, dividido em duas parcelas, sendo parte retroativa ao mês de abril e outra prevista para outubro, com pagamento das diferenças ao final do ano.
O acordo também prevê uma recomposição de 1,2% no piso do magistério a partir de janeiro de 2027, além da aplicação imediata do mesmo índice de 4,14% no auxílio alimentação. Outro ponto incluído foi a criação de uma comissão, por decreto, para elaborar proposta de viabilidade de um auxílio saúde aos servidores.
Segundo a presidenta do sindicato, Cristiane Mainardi, a decisão levou em conta tanto os limites da proposta quanto os avanços obtidos em pautas específicas. Ela afirma que a assembleia avaliou que o reajuste deveria ter sido aplicado integralmente na data-base, mas considerou que houve progresso em demandas construídas pelas professoras nas escolas, relacionadas às condições de trabalho e à organização da rede.
A dirigente também aponta que o índice aprovado representa uma recomposição parcial, alinhada a uma inflação mais elevada e ao reajuste do piso nacional do magistério. A mobilização que antecedeu a decisão incluiu uma caminhada pela educação que reuniu mais de 800 professores de dezenas de escolas do município.
A Prefeitura de São Leopoldo sustenta que a proposta aprovada foi construída dentro das possibilidades financeiras do município e afirma que o acordo resulta de diálogo com a categoria. A gestão municipal indica que segue acompanhando as demandas estruturais da rede.
Greve em Canoas termina após 23 dias de mobilização
Em Canoas, a greve dos trabalhadores da educação foi encerrada no dia 15 de maio, após 23 dias de paralisação. A decisão foi tomada em assembleia da categoria, que optou pela retomada das atividades mesmo sem a integralidade das reivindicações atendidas.
O movimento, considerado o primeiro da categoria em mais de três décadas, teve como foco a reposição salarial com ganho real, melhores condições de trabalho e a recomposição do quadro de profissionais nas escolas. Durante o período, foram realizadas manifestações em frente à prefeitura e outras ações públicas para pressionar o Executivo.
Um dos principais pontos de conflito ocorreu após a aprovação, pela Câmara de Vereadores, de um projeto que estabeleceu a reposição inflacionária de 4,26% parcelada em seis vezes. A proposta havia sido rejeitada pela categoria durante as negociações, o que intensificou o tensionamento entre sindicato e governo.
O sindicato dos profissionais da educação afirma que, ao longo das negociações, houve dificuldades no diálogo com o Executivo, incluindo, segundo a entidade, fechamento de canais institucionais e manifestações públicas consideradas hostis ao movimento grevista. A entidade também relata episódios de confronto político durante sessões legislativas.
A Prefeitura de Canoas afirma que manteve o compromisso com o diálogo e que a proposta aprovada buscou garantir equilíbrio fiscal e previsibilidade orçamentária. A gestão também destacou medidas relacionadas ao abono dos dias parados para parte dos trabalhadores que retornaram às atividades dentro do prazo estipulado.
Com o encerramento da greve, o município informou que as escolas retomariam o funcionamento regular na semana seguinte.
Problemas estruturais seguem no centro das reivindicações
Apesar do fim das mobilizações, as pautas que motivaram a greve e a paralisação permanecem como pontos de disputa entre trabalhadores e gestores públicos. Entre elas, destacam-se a defasagem salarial acumulada ao longo dos anos, a sobrecarga de trabalho e a insuficiência de profissionais nas redes municipais.
Sindicatos apontam que a recomposição aprovada em ambos os municípios não cobre integralmente as perdas inflacionárias nem garante valorização real da carreira. Também defendem a necessidade de investimentos contínuos em infraestrutura escolar e políticas de apoio aos profissionais, diante de relatos de precarização e aumento de situações de violência no ambiente escolar.
As administrações municipais, por outro lado, reiteram que as propostas apresentadas consideram os limites impostos pela legislação fiscal e a disponibilidade de recursos, indicando que novos avanços dependem de equilíbrio nas contas públicas.
Mesmo com o encerramento das paralisações, as entidades representativas afirmam que a mobilização da categoria deve continuar, com acompanhamento das medidas acordadas e pressão por novas negociações. O cenário aponta para a permanência do debate sobre financiamento da educação pública e valorização dos profissionais nas redes municipais da região.
