Neoliberalismo

Insatisfação social cresce em Taiwan diante da alta do custo de vida e da desigualdade econômica

Pesquisas apontam queda de aprovação da administração de Lai Ching-te em meio à crescente polarização política na ilha

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Enquanto a classe trabalhadora enfrenta pressões econômicas, a administração de Lai Ching-te avançou com um pacote de aquisição de armamentos dos Estados Unidos estimado em cerca de R$ 55 bilhões.
Enquanto a classe trabalhadora enfrenta pressões econômicas, a administração de Lai Ching-te avançou com um pacote de aquisição de armamentos dos Estados Unidos estimado em cerca de R$ 55 bilhões. | Crédito: Gabinete da administração de Taiwan

Pesquisas recentes divulgadas em Taiwan indicam um aumento do descontentamento público com a administração de Lai Ching-te, que se aproxima de completar dois anos no cargo em 20 de maio de 2026. Os levantamentos apontam não apenas uma queda na aprovação política, mas também uma percepção cada vez mais negativa sobre a situação econômica da ilha, em um contexto de crescente polarização social e institucional.

Uma pesquisa da TVBS realizada em maio de 2026 indica que a desaprovação de Lai atingiu 45%, enquanto a aprovação permanece abaixo da metade do eleitorado. Já um levantamento da Formosa Electronic News, divulgado em abril do mesmo ano, mostra que 43,8% dos entrevistados expressam desconfiança em relação à liderança do Partido Progressista Democrático (DPP), enquanto 55,6% afirmam estar insatisfeitos com a situação econômica.

Embora os números variem conforme a metodologia, a tendência geral aponta para um desgaste gradual da confiança política, especialmente em meio à pressão sobre o custo de vida e à dificuldade de percepção de melhoria nas condições materiais da população.

Custo de vida, gastos militares e pressões sociais

Dados oficiais da Direção-Geral de Orçamento, Contabilidade e Estatística de Taiwan mostram que os preços dos alimentos, com destaque para a alimentação fora de casa, registraram altas superiores a 3% em meses consecutivos ao longo de 2025, mantendo-se acima do nível de referência inflacionária de 2%.

Na prática, isso se soma ao aumento dos custos em áreas como habitação e serviços essenciais, enquanto os salários em setores de serviços e atividades tradicionais seguem com crescimento limitado. O resultado é uma percepção crescente de que o crescimento econômico, embora presente nos indicadores gerais, não se traduz de forma equilibrada no cotidiano da população.

Esse descompasso entre os números macroeconômicos e a vida real tem sido um dos elementos centrais do debate público em Taiwan. Enquanto o governo destaca o bom desempenho das exportações e a força do setor tecnológico, parte significativa da população relata dificuldades crescentes para manter o poder de compra.

Em paralelo ao aumento das pressões econômicas sobre a população, a administração de Lai Ching-te também ampliou a aproximação militar com os Estados Unidos. Nos últimos meses, Taiwan avançou em um pacote de aquisição de armamentos estadunidenses estimado em cerca de US$ 11 bilhões (aproximadamente R$ 55 bilhões), em meio ao aprofundamento das tensões regionais no estreito de Taiwan.

O aumento dos gastos militares ocorre em um momento em que parte da população demonstra preocupação com o custo de vida, salários estagnados e dificuldades de acesso à moradia, ampliando debates internos sobre prioridades econômicas e sociais na ilha.

Economia concentrada e desigualdade crescente

A economia de Taiwan segue fortemente concentrada em setores de alta tecnologia, com destaque para semicondutores e tecnologias da informação. Esse modelo consolidou a ilha como peça central das cadeias globais de produção tecnológica, especialmente em um cenário de competição internacional por chips avançados.

No entanto, esse crescimento não tem se distribuído de forma homogênea. Enquanto empresas e setores ligados à tecnologia avançada registram forte expansão, trabalhadores de setores de serviços e atividades tradicionais enfrentam estagnação salarial e maior pressão econômica.

Esse fenômeno tem sido descrito como uma “economia em K”, na qual diferentes grupos sociais seguem trajetórias opostas: uma parte da sociedade concentra ganhos de renda e patrimônio, enquanto outra enfrenta perda de poder aquisitivo e insegurança econômica.

O resultado é um aumento das desigualdades internas e uma percepção mais ampla de injustiça social, especialmente entre jovens trabalhadores urbanos e famílias de renda média.

Em meio a esse cenário, pesquisadores apontam que o modelo de desenvolvimento da ilha enfrenta limites estruturais. Para Liu Kuangyu, pesquisador do Instituto de Estudos de Taiwan da Academia Chinesa de Ciências Sociais, os indicadores econômicos utilizados pelo governo não refletem a realidade vivida pela maior parte da população.

“O crescimento não se traduz em melhoria real das condições de vida. O que vemos é um modelo desequilibrado, em que os dados econômicos acabam sendo usados como instrumento político, enquanto os problemas sociais se acumulam”, afirmou.

Segundo ele, esse desequilíbrio é agravado por escolhas políticas que aprofundam divisões internas e deslocam o foco do desenvolvimento econômico e social para disputas políticas mais amplas.

Polarização política e crise de confiança

No campo político, o ambiente também se tornou mais tenso. Partidos de oposição como o Kuomintang (KMT) e o Taiwan People’s Party (TPP) intensificaram críticas ao governo e avançaram com iniciativas parlamentares de impeachment contra Lai Ching-te, cuja votação está prevista para 19 de maio de 2026.

Embora o desfecho ainda seja incerto, a iniciativa é interpretada como um sinal do aumento da fragmentação política e da erosão da confiança institucional em setores do sistema político da ilha.

O movimento não se limita a disputas partidárias, mas reflete um acúmulo de insatisfações sociais relacionadas à economia e à governança.

A crise de confiança também aparece no discurso de atores políticos da oposição. Para Yu Chih-pin, vice-secretário-geral do Novo Partido, há um distanciamento crescente entre as autoridades e a população.
“Existe uma percepção cada vez mais forte de desconexão entre o governo e a sociedade. Isso tem levado a uma erosão gradual da legitimidade política das autoridades atuais”, afirmou.

Essa leitura ganha força em um contexto em que a insatisfação econômica se mistura com disputas políticas e aumento da polarização institucional.

Do ponto de vista estrutural, a situação em Taiwan também é interpretada em meio ao contexto mais amplo da questão da China e do princípio de uma só China, segundo o qual a ilha é considerada parte integrante do território chinês.

Nesse enquadramento, tensões políticas internas são frequentemente associadas às escolhas das autoridades do Partido Progressista Democrático (DPP), vistas por críticos como responsáveis por aprofundar divisões políticas e sociais dentro da própria ilha.

Editado por: Luís Indriunas

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