ÊXODO URBANO

Movimento neorural cresce após pandemia entre sonhos coletivos e desafios concretos

Experiências de retorno ao campo surgem diante do colapso climático e social em meio a desafios econômicos e culturais

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Saída de pessoas da cidade em direção ao meio rural é um fenômeno crescente em todo o mundo
Saída de pessoas da cidade em direção ao meio rural é um fenômeno crescente em todo o mundo | Crédito: Clarissa Londero

Frente a diversas e sucessivas crises no âmbito social, econômico e ecológico, pessoas vêm buscando transicionar suas vidas da cidade para o campo no mundo todo. Esse fluxo, existente desde o final do século 20 e que segue crescendo, é chamado de movimento neorural. São pessoas que decidem sair das cidades em busca de maior qualidade de vida, conexão com a natureza, soberania alimentar e autossuficiência energética. No Brasil, esse movimento teve um primeiro impulso em meados dos anos 2000, impulsionado pela disseminação da permacultura na América Latina. Agora, porém, vive um momento de transformação, evidenciando a necessidade de refletir sobre o que deu errado e sobre formas de adaptação à realidade social atual.

Junto a isso, o movimento segue como alternativa ao colapso global que se apresenta atualmente. Eurico Vianna é doutor em desenvolvimento comunitário e trabalha como consultor e planejador de propriedades rurais. Há 10 anos, ele vem promovendo o êxodo urbano planejado como alternativa que pode construir autonomia e resiliência para as pessoas frente aos desafios das mudanças climáticas e do declínio energético.

Vianna está com um livro a ser lançado em julho deste ano que traz histórias para inspirar e apresentar ferramentas para realizar uma transição ecológica: Meu Caderno de (ida para o) Campo. Segundo ele, faltam pessoas com a compreensão de que muitas áreas rurais ao redor das cidades poderão receber “refugiados econômicos, climáticos, refugiados de problemas sociais”, à medida que os centros urbanos deixarem de garantir condições básicas de sobrevivência. Para o pesquisador, quando a cidade “começa a não conseguir prover para as pessoas que estão ali, a violência aumenta, a desorganização aumenta, e algumas pessoas começam a sair buscando a segurança mais básica que é teto e comida”. Na avaliação de Vianna, na cidade as pessoas não conseguem garantir essas condições básicas, enquanto no campo isso se torna mais possível.

Ele afirma também que não há solução para o colapso climático, pois ele já está acontecendo, mas sim alternativas. Para Vianna, “a alternativa é um êxodo urbano planejado, uma ocupação territorial ecologicamente ética” e a permanência relaciona-se com viver de uma maneira que melhore a saúde dos processos nos ecossistemas. “Raramente a gente consegue fazer isso, na cidade é praticamente impossível e no campo é onde a gente conseguiria fazer isso. Criar a permanência a partir de um viver que melhora a saúde do território, e quando a gente faz isso, automaticamente, a gente está assegurando as áreas mais essenciais para a vida.”

O êxodo urbano verificado nas últimas décadas ganhou força na pandemia de 2020, quando muitos habitantes das cidades buscaram o meio rural para reorganizar suas vidas. Esse foi o caso do coletivo formado no sítio Cambyçara, em Gravataí (RS). Com uma experiência de vida coletiva no campo, o grupo se tornou referência para diversas pessoas que desejam fazer a transição. Andreza Livramento, bióloga, educadora ambiental e gestora do Núcleo de Sustentabilidade da ONG Aldeia da Fraternidade, afirma que os moradores chegaram ao local “carregando nas malas várias ferramentas no âmbito social de relacionamento”, o que possibilitou uma convivência mais harmônica. Segundo ela, o coletivo consegue se manter pelo compromisso com as relações internas, entendendo que relações fragilizadas dificultam a construção de um ambiente saudável ao redor da comunidade.

Sítio Cambyçara, em 2020, tornou-se um espaço coletivo nutrido por sonhos de um mundo melhor | Crédito: Clarissa Londero

Energia disponível e acesso a meios de sobrevivência como sustentação de vida fora das cidades

O mundo moderno foi capaz de se estruturar da forma que é hoje graças ao imenso aporte de energia proveniente dos combustíveis fósseis, que possibilitou um crescimento acentuado e, ao mesmo tempo, insustentável. “Hoje, vivemos um declínio energético, pois as fontes de petróleo estão chegando ao fim. Isso traz uma necessidade de ressignificar os conceitos de crescimento e de manutenção da vida, baseados em uma realidade com menos energia disponível”, afirma Vianna.

Esse cenário se cruza, ainda, com a crise ambiental atual, gerando uma realidade de instabilidades e mudanças na base social e econômica. Segundo Vianna, os centros urbanos “ficam cada vez mais restritivos”, já que dependem fortemente dos combustíveis fósseis. Para o pesquisador, a vida em propriedades rurais possibilita uma “desintermediação da economia”, reduzindo a dependência de mediadores entre necessidades básicas e sobrevivência cotidiana, além de permitir maior autonomia energética. Ele cita como exemplo o cultivo de árvores para lenha, que cria excedente de fibra, madeira e calorias, possibilitando aquecer a casa, cozinhar e gerar matéria orgânica para o plantio.

Eurico Vianna baseia seu trabalho no planejamento de propriedades rurais e sustentabilidade, visando o bem viver | Crédito: divulgação

Em um futuro possível de maior êxodo urbano e de refugiados climáticos e econômicos, a tendência é que haja mais pessoas no campo, já que é nesse espaço que se torna possível garantir condições básicas de sobrevivência, como alimento, água e moradia. Para além disso, existe um fator essencial para a vida humana: a conexão com o ambiente natural. Thomaz Enlazador, professor e acupunturista canábico, precursor do movimento de comunidades e ecovilas no Brasil, ativista ecossocial e criador de diversas organizações voltadas à construção de formas de vida em comunhão com a natureza, afirma que esse é “um caminho que as pessoas deveriam seguir”, retomando formas de vida mais simples e ligadas ao bem viver. Para ele, porém, ainda é necessário “reinventar os modelos de organização” dessa transição.

Dificuldades enfrentadas pela iniciativa individual frente ao colapso global

Analisando as últimas décadas da humanidade, Vianna afirma que a crise climática, energética e social já está acontecendo. Para ele, isso fica evidente quando se observa que “o poder aquisitivo não melhorou da década de 70 pra cá, o acesso das pessoas a um alimento saudável não melhorou, só piorou”. Segundo o pesquisador, houve ampliação do acesso a tecnologias, mas isso não se transformou “numa melhora de vida”, nem em “um tecido social mais forte” ou em “pessoas mais empáticas”. Pelo contrário, afirma que a sociedade vive um cenário de relações “cada vez mais esgarçadas”. Na avaliação de Vianna, a humanidade atravessa uma sucessão de crises em que o resultado posterior é sempre pior do que o anterior. “Não é uma crise, é um colapso e nós já estamos vivendo ele.”

Para além dos indicadores sociais, a ciência já reúne diversas evidências das mudanças climáticas causadas pela ação humana, bem como dos reflexos econômicos do declínio energético dos combustíveis fósseis. Frente a essa crise concreta da humanidade, diversas pessoas passaram a buscar alternativas, entre elas a mudança para o campo. Porém, vêm enfrentando enormes dificuldades nessa transição. Segundo Vianna, as pessoas “têm pouca noção do quão complexo e profundo é o desafio de fazer uma transição para uma vida autônoma, inclusive financeiramente, a partir de um território rural”.

Na região de Taquara, no Rio Grande do Sul, dois monges budistas criaram uma comunidade para praticar a religião e, mais do que isso, promover um bem viver a partir da terra e da ressignificação da ação humana nos territórios. Para a monja Shoden, esse processo passa pelo entendimento do propósito de servir ao coletivo e à relação com a terra. A partir das experiências com praticantes e com a comunidade ao redor, ela avalia que uma das principais dificuldades para a prosperidade de projetos comunitários está no fato de que o servir ainda permanece vinculado aos interesses individuais.

Segundo Shoden, “as comunidades rompem porque um quer uma coisa, outro quer outra, mas o cerne é o servir”. Ela afirma que parte das pessoas ingressa nesses espaços para “de fato servir umas às outras”, enquanto muitas acabam pensando em “como o projeto pode servir aos seus próprios objetivos”.

Fundadores da Comunidade Budista Taiheiji, Shoden (à direita) e Denkagu (ao fundo) buscam gerar renda a partir do servir à terra | Crédito: Clarissa Londero

Segundo Shoden, essa transição da cidade para o campo é exigente em vários níveis e, muitas vezes, as pessoas não estão preparadas para as dificuldades. Para a monja, quem decide morar no campo acaba encontrando obstáculos relacionados ao isolamento, às dificuldades de “dar conta de fazer tudo sozinho”, às despesas para manter a propriedade e à falta de conhecimento para viver da terra. Nesse sentido, o movimento neorural tem buscado estabelecer mais espaços comunitários, redes de apoio e vínculos territoriais. Porém, no caminho dos laços sociais, a vida coletiva traz outro grande desafio: transformar uma formação individualista em um bem viver coletivo.

Geração de renda, planejamento e sustentabilidade

Outra dificuldade enfrentada pelos neorurais está na sustentabilidade econômica de suas vidas. Esse fenômeno se manifesta em diversos sítios de pessoas que vieram da cidade para o campo, por diferentes motivos, criando uma realidade multifacetada e complexa. Para Eurico Vianna, isso ocorre porque “a maioria das pessoas que busca esse estilo de vida tem uma inclinação progressista socioambiental”, carregando nessa mudança uma contradição com a economia vigente.

Segundo ele, muitas pessoas têm razão ao se opor a uma “economia predatória”, mas acabam negligenciando a dimensão econômica da própria transição, deixando de planejar financeiramente a permanência no campo e a construção de um trabalho sustentável. Na avaliação de Vianna, esse posicionamento mais à esquerda e menos empreendedor acaba se tornando uma espécie de “ambientalismo de laboratório”, muito utópico, que frequentemente não sustenta a permanência no meio rural.

Movimento neorural enfrenta dificuldades em gerar renda por buscar ressignificar a relação com o dinheiro | Crédito: Arquivo pessoal/Thomaz Enlazador

O ativista Thomaz Enlazador complementa a análise sobre o fator econômico afirmando que muitas pessoas não realizam um planejamento financeiro para a vida no campo, o que faz com que permaneçam principalmente aquelas que já possuem outras formas de renda. Para ele, o movimento acabou se tornando “um movimento de herdeiros, pessoas que vivem de renda, privilegiados, que puderam fazer essa ida para o campo sem se preocupar com dinheiro”.

No sítio Cambyçara, onde Andreza Livramento vive coletivamente com outras quatro famílias, essa realidade também está presente, e a maioria dos moradores mantém renda vinculada ao meio urbano. Para ela, a transição geográfica precisa vir acompanhada de uma mudança de hábitos e da relação com o consumo. Segundo Livramento, pessoas que vieram da cidade carregam necessidades e padrões de vida “enraizados”, o que torna o processo de adaptação ao campo também um exercício individual de rever desejos e compreender “o que é uma necessidade”. “É sobre aprender a viver bem com menos”, resume.

Vianna também identifica esse padrão e afirma que a sociedade é orientada por uma cultura que estimula altos níveis de consumo de bens e serviços, exigindo, consequentemente, maior poder aquisitivo. Para ele, muitas pessoas ainda buscam um modelo de sucesso “unidimensional e baseado só em métricas econômicas”.

Consumo, tempo e permanência no território

Existe, ainda, outro fator que acrescenta uma camada a esse debate sobre geração de renda e trabalho na propriedade: o tempo disponível e as jornadas de trabalho. Como muitas famílias neorurais acabam recorrendo a empregos fora do território, parte delas não consegue dar conta das demandas que o sítio impõe, como manutenção, planejamento e cuidados diários.

Para Vianna, a própria lógica da economia vigente dificulta esse processo. Segundo ele, em uma rotina de 40 horas semanais de trabalho, sobra pouco tempo para construir um negócio no território e realizar uma transição econômica consistente. “A pessoa fica espremida”, resume.

Andreza vive essa realidade no cotidiano do Cambyçara. Para ela, esse é um dos grandes dilemas das comunidades e do movimento neorural, evidenciando a necessidade de mudar essa lógica para possibilitar a permanência no território e a sobrevivência a partir da relação com a terra.

Segundo Andreza, a vida no campo exige assumir tarefas que, na cidade, costumam ser terceirizadas. Ela explica que, enquanto em um apartamento há trabalhadores responsáveis pela manutenção do condomínio, coleta de resíduos e infraestrutura, no campo essas responsabilidades recaem sobre os próprios moradores. “Aqui no Cambyçara, a nossa água vem da nascente, então qualquer problema que dá é a gente que tem que resolver. A grama é a gente que tem que cortar, as árvores é a gente que tem que podar.”

Para ela, conciliar o trabalho urbano com os cuidados necessários para manter o território torna-se um processo “realmente conflitante”. Andreza afirma que, para transformar o espaço “da forma como a gente sonha”, seria necessário dedicar mais tempo ao território. “E como fazer isso ser possível, esse é o grande desafio.”

Andreza Livramento (ao fundo, à direita) afirma que conciliar geração de renda com tempo na propriedade é dos grandes desafios que o movimento neorural vivencia | Crédito: Clarissa Londero

Redes de apoio e vida coletiva

Na Comunidade Budista Taiheiji, da monja Shoden, essas dificuldades vêm sendo enfrentadas por meio da criação de vínculos coletivos com vizinhos e praticantes. Para ela, a necessidade de geração de renda pode ser reduzida com mais partilha e coletividade, seja dividindo territórios, seja fortalecendo laços comunitários.

Segundo Shoden, nesse cenário “todo mundo se apoia” para gerar renda coletivamente, manter elementos da propriedade e ajudar nas necessidades diárias. Ela afirma que essa transição econômica exige tempo para se estruturar, além de planejamento estratégico e uma fonte de renda capaz de sustentar esse período de adaptação.

Para a monja, a transição para o campo deve ser compreendida como algo natural e benéfico. Ela ressalta que, mesmo quando a renda continua vinculada ao meio urbano, morar no campo já representa um ganho de qualidade de vida. “Porque poderia estar fazendo isso dentro do apartamento, no máximo indo caminhar no parque para conseguir pegar um solzinho e ver uma árvore. Então, se já consegue trabalhar morando no campo, já é um avanço e ainda possibilita ter renda para realizar o projeto na propriedade rural”, completa.

Os conflitos egóicos e os fractais dos problemas da sociedade

A motivação de grande parte das pessoas que praticaram o êxodo urbano está na busca por formas mais harmônicas de viver no planeta, incluindo cuidados com o ambiente, um sistema econômico mais justo e relações humanas mais amorosas. Porém, nessa transição também surgem dificuldades culturais associadas ao mundo urbano contemporâneo, como individualismo, egocentrismo e falta de empatia.

Segundo Thomaz Enlazador, existe “a questão do ego e da disputa pelo espaço de protagonismo, de reconhecimento”. Para ele, conflitos e violências presentes nas comunidades são “fractais do que acontece na sociedade”. “É uma ilusão achar que essas comunidades têm algo de diferente”, afirma.

Thomaz Enlazador viajou o Brasil e esteve à frente de diversos movimentos ecossociais. Hoje, percebe que a questão do ego sempre criou dificuldades nas organizações | Crédito: Divulgação

A permacultura — conceito criado na Austrália que propõe uma ética de vida e ferramentas de autossuficiência voltadas à criação de assentamentos humanos permanentes e resilientes — protagonizou esse impulso de busca pelo bem viver no campo e pela ressignificação das relações entre as pessoas, o mundo e os ambientes naturais. Marcada por ideais utópicos, a permacultura teve seu ápice nas primeiras décadas dos anos 2000 e, hoje, vive um período de declínio.

Para Thomaz Enlazador, “é o movimento mais quebrado que existe de todos, pois é muito ego, muita disputa, e nunca teve unidade”.

Já para a monja Shoden, muitas disputas começam justamente entre pessoas com maior poder econômico, provocando rupturas nos grupos. “Quando entra o dinheiro, a coisa complica bastante. Quando tem patrimônio, as relações ficam difíceis”, afirma. Para ela, esse cenário revela como poder econômico e relações pessoais acabam se misturando dentro das comunidades. “É como aquele ditado que diz que conhecemos realmente alguém quando damos poder e dinheiro a ela.”

Transição cultural: uma mudança do individualismo para a coletividade

Em meio a uma realidade que evidencia a necessidade de criar vínculos sociais e redes de apoio mútuo, o movimento neorural esbarra em uma formação social marcada pelo ego e pela competitividade. Muitas pessoas, ainda que conscientes da necessidade de construir caminhos coletivos, não conseguem se desprender de impulsos individualistas.

Esse é um tema vivido cotidianamente pelo coletivo do qual Livramento faz parte. No Cambyçara, as relações interpessoais são tratadas como prioridade, e a organização coletiva busca cuidar do âmbito social da comunidade. Segundo ela, dentro dos três pilares éticos da permacultura — cuidar das pessoas, cuidar da Terra e partilha justa — o coletivo prioriza o cuidado com as pessoas e com as relações, entendendo que, sem isso, nenhum outro projeto consegue ser implementado e sustentado.

Uma casa bioconstruída a várias mãos recebeu Andreza Livramento e sua família para viver no campo | Crédito: Clarissa Londero

Livramento afirma que, para construir “um design de permacultura” e levar adiante o projeto coletivo, é necessária a participação de muitas pessoas. Segundo ela, lidar com essas relações exige compromisso e ferramentas capazes de auxiliar nesse processo. No coletivo, explica que um dos preceitos é respeitar as individualidades e fortalecer as relações coletivas, entendendo que a geração atual vive “uma transição cultural profunda”, em que é preciso “reaprender a viver em grupos”.

A monja Shoden também ressalta a força do pensamento individualista na sociedade atual. Para ela, “essa ação de pensar o que é melhor pro outro e não pra si mesmo, é uma das coisas mais difíceis hoje em dia”.

O campo das relações sociais não trabalhadas é, inclusive, um dos principais fatores de dissolução de comunidades e projetos coletivos socioambientais, levando ao surgimento de disputas e conflitos internos. Segundo Enlazador, em “boa parte das instituições neorurais e de comunidades que se formaram” houve “a síndrome do dono, ou a síndrome do fundador”, além da ausência de um “design social”. Para ele, isso fez com que muitas iniciativas acabassem colapsando. Na avaliação do ativista, o cuidado com os vínculos sociais precisa existir tanto internamente quanto no âmbito territorial, priorizando articulações biorregionais com comunidades locais.

Ativismo, políticas públicas e restauração da malha social diversa

Após alguns anos de êxodo rural em andamento, os entrevistados avaliam que é necessário olhar para a malha social e priorizar a articulação territorial. Para Eurico Vianna, esse processo passa pela construção de vínculos comunitários no cotidiano, como participação em escolas públicas, igrejas e espaços de pressão política no âmbito municipal.

Segundo ele, é necessário unir diferentes pensamentos em torno do bem comunitário, já que a polarização ideológica e política acaba desumanizando o outro lado. Na avaliação de Vianna, isso cria situações em que “aquela outra pessoa não passa a ser alguém com quem você consegue se articular localmente, porque ela não é digna da sua atenção, ela não é digna do seu afeto”.

Vianna afirma que as articulações políticas precisam partir das necessidades básicas da vida, como moradia, alimentação, água, saúde e mobilidade. Ele lembra que, antes da industrialização, as pessoas se reuniam para construir casas, celeiros e plantar coletivamente, enquanto a lógica econômica posterior substituiu essas relações por vínculos mediados pelo dinheiro, enfraquecendo os laços comunitários.

Hoje, segundo ele, o processo de transição socioeconômica evidencia que as pessoas não podem ficar dependentes apenas da economia vigente. “A gente precisa restaurar o tecido social, a confiança de que a gente vai ajudar um ao outro”, afirma. Para Vianna, a permanência nos territórios depende da reconstrução desses vínculos sociais, processo que exige uma profunda mudança cultural.

Outro ponto que precisa ser transformado, segundo Thomaz Enlazador, é a configuração do movimento neorural em “bolhas majoritariamente brancas e privilegiadas”. Para a monja Shoden, essas diferenças funcionam como “castas” sociais presentes tanto na cidade quanto no campo. Segundo ela, o movimento neorural acaba encontrando dificuldades para se integrar às populações locais.

Enlazador defende que o movimento neorural se articule com comunidades tradicionais, povos indígenas, quilombolas e demais habitantes dos territórios, de forma mais diversa e abrangente. “Tem muita coisa para a gente aprender com o movimento das ecovilas, das comunidades alternativas, os sítios agroecológicos, só que a gente esqueceu de olhar para como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) faz, como as comunidades indígenas estão fazendo, como os calungas fizeram e estão fazendo. Como é que a gente se integra mais, inclusive com o movimento de base e a periferia?”.

As práticas do zen budismo contribuem para o autoconhecimento e para relações mais saudáveis, e são parte da vivência na Comunidade Taiheiji | Crédito: Clarissa Londero

Política, território e construção de alternativas

Dentro do âmbito político, Enlazador afirma que o governo precisa pensar em ações nacionais de ocupação rural planejada e integrada, incluindo “uma secretaria de Assentamentos Humanos Resilientes e Enfrentamento ao Colapso Climático”, articulando indígenas, MST, neorurais e outras iniciativas. Para ele, a militância e o ativismo político são necessários para pressionar o governo pela criação de políticas públicas estratégicas de mitigação da crise.

Por outro lado, Eurico Vianna acredita que políticas públicas dificilmente surgirão sem antes terem sido experimentadas como iniciativas pessoais e locais de construção de alternativas. Segundo ele, problemas tecnológicos pertencem ao “âmbito do complicado”, no qual especialistas têm papel importante. Já desafios relacionados à economia, território e cultura fazem parte de um campo “complexo”, cuja solução não pode vir apenas de especialistas.

Para Vianna, essas respostas precisam emergir das próprias pessoas que vivem essas realidades. Ele também avalia que iniciativas impostas “de cima para baixo” tendem a desconsiderar as especificidades culturais e territoriais de cada localidade. “Os poderes centralizados não têm a sensibilidade necessária para conseguir criar planos que sejam específicos para cada pequeno território”, afirma.

Andreza Livramento, por sua vez, ressalta a importância de incorporar novas lideranças aos movimentos, especialmente mulheres e pessoas não brancas. No coletivo em que vive, afirma que “as mulheres têm um protagonismo e isso é fundamental, pois é o que de fato possibilita a criação de uma nova estrutura social”.

Para Livramento, essa representatividade ainda é uma necessidade fundamental dentro dos movimentos comunitários. Ela afirma que, no futuro, talvez não seja necessário que as comunidades sejam lideradas por mulheres, por pessoas com vivências e percepções não brancas e não homens, caso a sociedade consiga superar desigualdades estruturais. Porém, atualmente, considera difícil sustentar grupos em que essa diversidade não esteja presente. Na avaliação da bióloga, modelos sociais baseados em desigualdade e exclusão estão “fadados ao fracasso, como estão fadados ao fracasso o próprio capitalismo e o patriarcado, por simplesmente não serem sustentáveis”.

O futuro do movimento passa por pactos existenciais

Dentre as motivações que levam uma pessoa a transicionar da cidade para o campo está o sonho de um mundo melhor, mais justo e ambientalmente respeitoso. Andreza Livramento chama esse impulso de utopia e afirma que esse ideal continua movendo sua trajetória, ainda que hoje de forma menos romantizada. Segundo ela, essa utopia funciona como um horizonte de inspiração coletiva, “daquilo que a gente vê lá adiante, que quer caminhar em direção, mas que talvez nunca seja de fato alcançado, não pela nossa geração”.

“A gente já vive desses sonhos que a gente um dia sonhou. Talvez nosso propósito seja isso, esse viver em comunidade, viver com as crianças. Construímos esse espaço para que as crianças futuramente tenham um lugar regenerado, abundante”, explica Andreza | Crédito: Clarissa Londero

Os entrevistados apontam como fundamental para o futuro do movimento a construção de qualidade de vida e de relações mais profundas entre as pessoas. O ativista Thomaz Enlazador acredita que seria necessário “fazer mais fogueira e postar menos no Instagram”. Para ele, é importante que as pessoas se reencontrem presencialmente e criem “mais pactos existenciais”.

Já a monja Shoden afirma que o objetivo também passa pela capacidade de viver com prazer e leveza. “Se tu entra pelo dinheiro, fica chato. Já saímos da cidade porque a gente tá de saco cheio disso, então aqui não pode ser a mesma coisa. Tem que ser divertido, tem que ser um bom encontro, tem que ser feliz”, afirma.

Segundo ela, as iniciativas de êxodo urbano exigem muito trabalho e, justamente por isso, precisam ser vividas com prazer. Para Shoden, isso permite “passar por todas essas coisas, mesmo as difíceis, curtindo o processo. Curtir estar na peleia”.

Para Andreza Livramento, cada integrante de um coletivo precisa estar comprometido com o próprio desenvolvimento emocional e com a consciência sobre suas ações e emoções. Segundo ela, “a ideia de estar atento e perceptivo a si mesmo gera indivíduos com mais capacidade de empatizar, de se sensibilizar com as pautas ambientais e de serem agentes ecológicos ativos e responsáveis pela mudança”.

Na avaliação da bióloga, o coletivo Cambyçara permanece unido por existir um compromisso compartilhado com esse processo, baseado na construção de um espaço de respeito e convivência. “Depois desse bem viver coletivo, a regeneração da terra e as outras coisas parecem consequência”, completa.

Ainda que atravesse dificuldades, frustrações e aprendizados marcados por fracassos, o movimento neorural segue sendo construído “a várias mãos”, a partir de sonhos coletivos de uma presença humana mais harmônica na terra. Enlazador afirma perceber “um momento também de ressurgimento, de renascimento, pra fora da bolha”. Para ele, o futuro do movimento depende da capacidade de integração social e política. “Precisamos integrar. Pressionar, ocupar, resistir.”

Editado por: Marcelo Ferreira

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