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Ana Tierra e Luna: redemoinhos de histórias entre win e vodu

Das compreensões e trocas de linguagens entre Ana Tierra, Luna, Soledad e Mari Del Mar

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Madre contra la tierra e La niña de la basura, de Andrea Gómez
Madre contra la tierra e La niña de la basura | Crédito: Andrea Gómez

Acompanhei como vento manso a primeira semana de aula de Ana Tierra e Luna. Observei seus corpos tímidos que não encontravam assento certo na cadeira de plástico da universidade. Tentei desvend(t)ar por onde viajavam seus pensamentos enquanto aterrissavam naquela aula.

As duas se matricularam numa disciplina comum, Fundamentos de América Latina, e estavam felizes por compartilhar mais um espaço por um semestre inteiro. Soledad e Mari del Mar também fazem essa matéria, mas em outro horário por conta das diferentes grades de seus cursos. Mas as quatro formam uma bela “comuna” com encontros pontuais ao longo da semana fora da moradia estudantil que dividem. Estão pensando, inclusive, em morar juntas quando tiverem que sair desse espaço, que é apenas abrigo de chegada e acolhimento, dado que todas são assistidas pelo sistema de política de assistência nacional.

Ana Tierra e Luna cochicham no início da aula, entre risos e brincadeiras, pois não entendem por que as carteiras são uma atrás da outra. Para elas, o sistema cotidiano é sentar em círculo, próximas a uma grande árvore em busca de sombra, ao lado de muitos pássaros e ao som dos ventos e das correntezas dos rios. Elas sentam no fundo como quem pede para não ser visto ou apenas quer ver de longe a aula-espetáculo sobre a história da América Latina.

Ana Tierra escreve algo no caderno. Consigo me aproximar e leio: “não entendo” (nojotsu tatujain); “não consigo acompanhar” (sasu tachiki); “quero ir embora” (ounesu taya – feminino, ounesy taya – masculino). Está meio ausente. Olha para a janela com um olhar fixo. E vai escrevendo, como em um diário, sobre seus medos, suas ausências sentidas, suas saudades. Em um piscar de olhos, é trazida de volta para a aula por uma cutucada de Luna.

A professora faz uma pequena apresentação sobre o que é a História da América Latina. Havia pedido para elas lerem um intelectual muito vinculado ao mundo originário chamado Guillermo Bonfil Batalla, que escreveu um belo texto sobre o “México Profundo, uma civilização negada”.

A professora conta que parte do que somos está registrada fora dos nossos lugares, em outros continentes. Outra parte segue afirmada nas próprias aldeias em que vivemos. Mas que muito de nossa história foi roubada, destruída, saqueada. Disse que, junto ao genocídio e epistemicídio, ocorreu também um memoricídio. Sobre isto, cita um autor venezuelano chamado Fernando Báez, que escreveu um livro incrível sobre a destruição cultural da América Latina. Ana Tierra fica reflexiva, pois, para ela, há um entendimento muito direto sobre o que é a vida, a natureza, o risco da morte e a manutenção da vida.

No intervalo, ela conta à Luna que não entende bem a aula, primeiro por dificuldades de acompanhar o português e o espanhol, pois ainda está habituada ao seu idioma originário, arawak (idioma dos povos Wayúu). Diz ficar muito em dúvida sobre como pensar o que está aprendendo a partir do que viveu até aquele momento. É como se houvesse duas histórias que não conversam entre si: a vivida por sua aldeia e a estudada nos livros de história da universidade. Estes podem até estar certos, mas são sempre curtos em explicar todo o processo vivenciado pelos povos ao longo da história de luta e resistência.

Ana Tierra conta, por exemplo, que, para seu povo (= wayuukana), a água não é um recurso. A água é a origem de tudo (água = win). E tem uma relação com a vida como algo sagrado, a ser cuidado, preservado. Detalha um pouco mais ao ver as sobrancelhas de Luna enrugadas: “Nossos ancestrais contam que a vida surgiu em um tempo antigo chamado sumaiwa, produto da união entre a terra (mma) e a chuva (juya). Um vínculo sagrado que não só deu origem à existência, mas também definiu nossa identidade matrilinear e a relação profunda com o eterno. A partir desta compreensão, a vida se entende como um tecido de relações em que a natureza, os seres humanos e os espíritos estão interconectados. A terra não é um recurso, é uma mãe que cuida e sustenta, enquanto a chuva, como água corrente, fecunda e dá continuidade à vida”.*

Luna pede para ela continuar, pois está fascinada com esta região tão próxima e, ao mesmo tempo, tão distante dela, a tão apagada América Central, após séculos de consolidação de uma tal de fronteira escravista colonial e depois fronteira nacional, como aprenderam na disciplina. Ana Tierra sorri com a observação de Luna e aproveita para dizer que antes não existia a fronteira nesses moldes que elas estudaram. E que, mesmo existindo essas fronteiras nacionais hoje, há outras que não estão demarcadas por este esquema: como as dadas pela própria natureza, que é entrecortada por rios, ou pelos próprios povos, que situam sua organização social, delimitando bem até onde cada grupo pode ir, avançar, conviver.

Ela vai mais longe e conta que, por exemplo, em sua comunidade, a história (= wayú) não se separa da vida e é transmitida de forma oral. As mulheres mais velhas da aldeia são ótimas guardiãs dos contos. Sempre se reúnem para tecer, moldar o barro e a cerâmica. E, enquanto fazem isto, contam histórias. Ana Tierra aproveita e diz que não chamam esses fazeres de trabalho. Chamam de vida (= kataa o´u). Essa categoria que a professora insiste em dizer que é fundamental não existe no seu povo. Apesar de ela entender o significado, parece que a existência do fazer é anterior e maior que a do falar sobre o fazer, a de filosofar sobre o fazer.

E é lindo, continua Ana Tierra, que, enquanto as educadoras populares mulheres da aldeia falam, há uma harmonia inseparável entre o que contam, o som do rio, o vento nas árvores e a quantidade de animaizinhos que estão por perto. Por isso, a história, para seu povo, sua aldeia, não é só o que essas mulheres contam. É também como elas contam, onde elas contam, para quem elas contam. Elas transmitem o conhecimento que depois a gente repassará a outras gerações. Então, eu aprendi que a história e a minha vida são uma mesma coisa.

Luna fica pensativa e pergunta a Ana Tierra: — Tem escola na sua comunidade? Ana Tierra diz que sim. — Ah, lembra quando a professora mostrou aquelas imagens de desenhos mexicanos? Eu recordei que na nossa escola tem duas gravuras de uma famosa pintora mexicana, Andrea Gómez. As gravuras se chamam “A niña de la vasura; a mãe contra a guerra”. Esta senhora era muito amiga de minha avó, líder indígena Wahyúu. Aquelas imagens pintadas retratam as crianças da nossa aldeia, da nossa escola. A escola, apesar de antiga, tem muitos problemas por ser distante da cidade e por não ter professores que dominem o pensamento e a linguagem da arawak. Então, ir para a escola é muito legal, mas mais para brincar do que para aprender. E é por isto que estou aqui estudando Mediação Cultural, para voltar e assumir tarefas na comunidade, na escola.

Ainda sobre as fronteiras, Ana Tierra conta que parte do seu povo está hoje na Venezuela e outra parte na Colômbia. E que não há mais convívio direto. Os mundos comuns foram separados. Com esta separação, muitas histórias foram destruídas. Muitas relações foram desfeitas. Muita gente desapareceu.

Luna e Ana Tierra ficam em silêncio e viajam, em pensamento, até a história de suas aldeias, navegam pelas memórias que habitam seu (in)consciente. Voltam para a sala de aula muito mexidas com a conversa que acabaram de ter. A professora pede a Luna para se apresentar porque acha fascinantes as tranças de seu cabelo. Luna olha para Ana Tierra e não sabe o que dizer ou fazer. Ana Tierra a incentiva a falar. Então Luna simplesmente diz, num sopro de vento ora irado, ora nostálgico-medroso: “não são tranças! São mapas!”.

Toda a turma olha para ela com espanto, como quem diz “como assim?”. A professora, tão sabida na história dos livros, ficou meio incomodada com o tom ríspido e incisivo daquela jovem haitiana. Luna continuou em seu idioma raiz, o criollo:

Mwen soti nan yon rejyon kote istwa li make ak fòs konesans sou lanati. Zansèt mwen yo te goumen pou libere nou anba esklavaj Ewopeyen. Lidè vodou nou an se te Cesare Fatima. Depi nou piti, nou aprann ke li te nesesè pou nou kreyatif pou nou siviv epi goumen/lite. E youn nan fason pou siviv se te sèvi ak cheve nou. Nan cheve nou, nou te trase chemen pou wout pou nou kache ak wout konba yo, epi nou te konn mete rès semans, fèy bwa, ak rèv nou yo tou. Konsa, kote nou wè cheve transe, mwen menm mwen wè yon vilaj.**

E continua: minha história, professora, não foi apagada; vive através de mim e dos meus. Mas parece que não está presente nos textos que lemos. Então eu te pergunto: como contar a história, mesmo sendo críticos, se seguimos apagando tanta gente desse contar?

A turma de novo vira o olhar para Luna, com um segundo vento de espanto. Afinal, quem aquela moça centro-americana acha que é para dizer isso para a professora? Que abusada, soberba?

Apesar dos olhares julgadores, Luna provocou um silêncio generalizado. O vento ruidoso silenciou de forma generalizada. A professora agradeceu e preferiu acabar a aula por ali.

Luna abraçou Ana Tierra e chorou compulsivamente. Estava com vergonha, com raiva, com dores em todo o seu corpo. Ela não queria ter dito o que disse, do jeito que disse. É como se entregasse algo reservado a alguém que sequer a conhece.

Ana Tierra a acolheu. Chorou junto. Segurou forte suas mãos: — Anda, vamos caminhar que quero saber um pouco mais dessa história de vodu e de Cecile Fátiman. Ah, quero um mapa também, hein? Trata de fazer no meu cabelo esta semana!

Luna riu meio chorosa, agradeceu pela win e tomou, em um gole calmo, aquele bem que, para Ana Tierra, era um bem sagrado. As duas seguiram a caminhada.

Luna, agora mais forte, segue narrando sua história. Conta a Ana Tierra que ninguém sabe ao certo a origem daquela incrível mulher negra. O que se sabe é que sua história, como a de outras africanas trazidas para a América Central desde o século 18, foi a de compra e venda de escravos e todas as violações que acompanham essa história. Passaram por todo tipo de perigo que as mulheres escravizadas enfrentavam para sobreviver: estupros, açoites, trabalhos exaustivos, perdas, assassinatos, doenças. Mas também vivenciaram uma incrível teia de resistências históricas presentes nos cânticos, nas andanças, na luta social continuada nos territórios, para além da escravidão.

Segundo Luna, seus ancestrais contam que, na rebelião dos escravos, Cécile teve um protagonismo central. Conhecedora das matas e das ervas, entendia que a defesa estava em saber usar a floresta a favor de seu povo. Após um longo silêncio, Luna contou que, na sua adolescência, aprendeu a encenar essa história no teatro. E que, aliás, seu povo adora o teatro de rua. Teve uma peça, escrita por CRL James, em que Cécile Fatiman aparecia como Celestine, uma líder de uma cerimônia no meio da floresta, anterior à Revolução Haitiana. Graças ao protagonismo desta mulher líder negra, muitas meninas ainda hoje no Haiti se chamam Celestine. Ou seja, a liderança de Cécile fez com que a história dela se tornasse presente nos nomes de diversas gerações de meninas de sua aldeia.

Luna diz achar muito engraçado que os cristãos chamem de bruxaria, feitiçaria, o que é o vodu. E é bom isso, segundo ela. Como não conhecem, mas acham que conhecem, ficamos mais protegidos sobre nossa história quanto menos divulgação ela tiver. As duas riram bastante.

Ana Tierra aproveita o intervalo para o respiro conjunto do ventinho gostoso que passa entre elas e pergunta: — Luna, o que é o vodu? Luna recuperou o fôlego e fez uso das próprias palavras de Ana Tierra para explicar: — Você não me contou que para vocês a água é um todo sagrado? Que sem água não há vida. Então, para nós, o sagrado é o vodu. Uma forma nossa de entender a vida, de defendê-la e de nos posicionar em resistência e rebeldia contra o que e quem ousa atacá-la. É um mecanismo do meu povo pela luta por liberdade frente à histórica escravidão. Então, é uma maneira de aprender sobre a natureza e sobre a humanidade. Mas, com o passar do tempo, foram se perdendo muitas coisas, e foram sendo colocadas outras coisas no lugar dessa prática, como o cristianismo.

As nossas líderes no Haiti, na República Dominicana e em Cuba nos ensinam que o vodu é uma filosofia de vida e está protegido dentro das florestas por seus diversos povos. Mas, como vocês com o rio, só entende quem o vive.

Ana Tierra consentiu com a cabeça e logo afirmou: — Parece que entre minhas avós e suas avós há muita história comum. Luna sorri. Ana a abraça e a relembra que é hora de voltarem para a moradia estudantil, pois hoje é dia de Soledad e Mari del Mar cozinharem. Correram para pegar o ônibus da universidade como duas crianças de aldeia. Estavam felizes naquele momento.

Mari del Mar e Soledad já estavam nos preparativos da janta. Com música, cantos, risos, esperando suas amigas. Essa del Mar é curiosa, colocou logo um “Carimbó: olelê olalá… foi os pexinhos do mar….tereré terreré no recanto da maré”.

*Venho de uma região que tem uma história marcada pelo total conhecimento da natureza. Meus antepassados lutaram para libertar parte do nosso povo da escravidão europeia, e uma de nossas líderes, vodu, foi Cecile Fátiman. Aprendemos, desde muito cedo, que era preciso ser criativo para sobreviver, resistir, lutar e nos emancipar. Uma das formas de sobrevivência foi utilizar os nossos cabelos. Neles desenhávamos caminhos de rotas de fuga e de combates, e também produzíamos reservas de sementes, de ervas, de sonhos. Então, onde vocês veem tranças, eu vejo história, vejo aldeia.

**Najin na wayuu laulayu’kana, wayakana juchon’ni mma jonta musia juya, junainje tia, tu eiruukuka ounusu juchirua tu weika (madre). Musu jain einuou eka japajirain wakuaipa otta musia tu waya ejirain waya jupaa tu maka, makajain tu wuinchika, na wayuukana otta musia tu juseyu tu mmapaka. wamuin wayakana tu mmapaka jia tu weika, wainmajuintu musia alinjatuin jia wapula. Chi juyakai nai chi antiraaka wuin wamuin cúpula wuintujatuin tu mmapaka jupula anainjatuin tu wakuiapaka.

***Roberta Traspadini é educadora popular, professora do curso de graduação e pós-graduação em Relações Internacionais da UNILA e professora-ENFF no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe – TerritoriAL (IPPRI/UNESP). Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Extensão Saberes em Movimento, a luta por terra e trabalho na América Latina. Esse texto contou com as consultorias territoriais, idiomáticas e afetivas do haitiano Evens Pierre, egresso do curso de Serviço Social, UNILA. E da colombiana Yanderi Josefina Fernandez Hernandez do Mestrado em Relações Internacionais da UNILA. Ambos conectados por ybypu.

****Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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