SOBERANIA DIGITAL

Dependência tecnológica ameaça autonomia digital no Sul Global, apontam pesquisadores

Debate em Brasília discute infraestrutura própria e cooperação internacional para reduzir influência das big techs

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Especialistas discutem os impactos da dependência estrangeira sobre dados, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico nos países periféricos.
Especialistas discutem os impactos da dependência estrangeira sobre dados, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico nos países periféricos | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

O 2º Encontro Nacional pela Soberania Digital, realizado em Brasília, colocou em debate nesta segunda-feira (18) os impactos da dependência tecnológica dos países do Sul Global em relação às grandes potências econômicas. Pesquisadores e ativistas defenderam a construção de infraestrutura própria e políticas públicas capazes de reduzir a influência das big techs sobre economias periféricas.

Os participantes da mesa “Soberania Digital desde o Sul Global” apontaram que a infraestrutura digital se tornou um novo espaço de disputa geopolítica, envolvendo controle de dados, inteligência artificial, cabos submarinos, servidores e plataformas digitais. A dependência de tecnologias estrangeiras compromete a autonomia econômica, política e informacional dos países.

Secretário-geral do Fórum Acadêmico do Sul Global e pesquisador do Instituto Tricontinental, Jeff Xiong apresentou um índice internacional que mede o grau de soberania digital das nações. Segundo ele, o ambiente digital precisa ser entendido como um território estratégico.

“O digital é um território real, os dados têm valor econômico real e, a partir disso, a gente consegue pensar por que a maior parte dos países ainda não atingiu a sua soberania digital por dependerem da infraestrutura dos Estados Unidos”, afirmou.

A mesa também discutiu como a extração de dados passou a ocupar papel semelhante ao da exploração de recursos naturais em ciclos econômicos anteriores. Segundo os participantes, empresas de tecnologia concentram riqueza a partir do uso massivo de informações produzidas pelas populações do Sul Global, sem retorno proporcional para os países de origem.

Pesquisadora do Fórum Tecnológico dos Brics, Isabela Rocha explicou que a soberania digital envolve desde a produção de hardware (componentes físicos), até a capacidade de formular pensamento e desenvolver tecnologia nacional.

Fragilidade e disputa

Os debatedores avaliaram que o Brasil ainda ocupa posição vulnerável na cadeia tecnológica internacional. Entre os problemas apontados estão a ausência de produção nacional de chips, servidores e grandes modelos de inteligência artificial, além da dependência de serviços controlados por empresas estrangeiras.

A discussão também abordou a saída de pesquisadores brasileiros para o exterior e a falta de investimento em ciência, inovação e infraestrutura tecnológica. Para Isabela Rocha, o país enfrenta uma disputa estratégica que envolve não apenas a economia, mas a produção de conhecimento e a capacidade de desenvolver soluções próprias.

A pesquisadora criticou políticas de incentivo fiscal voltadas a empresas estrangeiras sem contrapartidas para fortalecimento da indústria nacional. Segundo ela, o Brasil continua exportando recursos naturais e mão de obra qualificada enquanto mantém dependência na tecnologica externa.

“A soberania digital é sinônimo de soberania nacional. O Brasil precisa construir políticas para se tornar protagonista no Sul Global, deixando de entregar dados e força de trabalho ao controle das grandes potências tecnológicas”, afirmou.

A exploração de minerais estratégicos, como o lítio e as chamadas terras raras, também apareceu entre os temas debatidos. Os participantes alertaram que, embora o Brasil possua reservas importantes para a indústria tecnológica global, o país ainda ocupa posição subordinada na cadeia produtiva.

A influência geopolítica dos Estados Unidos foi apontada como um dos fatores que sustentam a concentração tecnológica mundial. Em contraponto, a China foi citada como exemplo de país que consolidou presença digital a partir de planejamento estatal e investimento público.

“É fundamental que as organizações brasileiras tragam demandas políticas para que as empresas estrangeiras, inclusive as chinesas, respeitem os interesses do povo, garantindo transferência de tecnologia e o cumprimento das leis do nosso país”, destacou Isabela Rocha.

O encontro, organizado pela Rede pela Soberania Digital, segue nesta terça-feira (19), no Sindicato dos Bancários, em Brasília, com novos debates sobre regulação de plataformas, inteligência artificial e autonomia tecnológica brasileira.


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Editado por: Clivia Mesquita

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