PRIVATIZAÇÃO

‘Não é aceitável’, diz sindicalista sobre inquérito do MPF que apura ‘espionagem’ na Copasa

Em meio a denúncias, TCE-MG autoriza oferta de ações para privatização da Copasa

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Copasa
Inquérito apura denúncias de suposta “espionagem” de deputados, autoridades públicas, influenciadores e veículos jornalísticos por parte da Copasa | Crédito: Divulgação

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou, na segunda-feira (18), um inquérito para apurar denúncias de suposta “espionagem” de deputados, autoridades públicas, influenciadores e veículos jornalísticos por parte da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). 

A prática teria acontecido por meio da contratação da Ernst & Young Assessoria Empresarial Ltda, empresa que supostamente realizou o monitoramento, durante o período de discussões e trâmites legislativos sobre a privatização da estatal mineira. 

Como demonstrado em reportagem publicada pelo Brasil de Fato MG anteriormente, a Copasa teria pago R$7 milhões pelo serviço, que incluiu, entre outras coisas, o levantamento de informações pessoais sobre parlamentares envolvidos ativamente nos debates sobre a desestatização da companhia. 

As informações preliminares indicam que a contratação da multinacional aconteceu em maio de 2025, antes do início da tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 24/2023, medida aprovada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e que acabou com a necessidade de realização de um referendo popular para privatizar a empresa.

Também consta em um relatório da consultoria, de junho do ano passado, o monitoramento do Brasil de Fato, classificado como “Perfil Relevante”, juntamente com outros veículos da imprensa: Jovem Pan, 98 FM, Rádio Itatiaia, Record, Programa Bom Dia Minas e jornal O Tempo.

Em dezembro de 2025, o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) exigiu que a Copasa explicasse sobre a denúncia de contratação da empresa estrangeira para monitoramento de autoridades. 

Agora, com a abertura do inquérito pelo MPF,  Milton Luiz Costa, da coordenação do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Estado de Minas Gerais (Sindágua-MG), argumenta que essa é uma das provas de que o governo de Minas, sob comando de Romeu Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD), junto à gestão da Copasa, utilizou de todos os métodos para facilitar o caminho da privatização. 

“A denúncia do MPF só reforça a posição que o Sindágua vem tomando ao longo do período em que enfrentamos o processo de privatização da empresa. Nós sempre denunciamos que o governo de MG tem usado de todos os meios para tentar entregar a empresa ao capital privado, inclusive utilizando de métodos não republicanos e não aceitáveis, como esse de espionagem de autoridades e personalidades públicas”, comenta o dirigente da entidade sindical que representa os trabalhadores da Copasa e que foi protagonista nas lutas contra a privatização.

O procedimento no MPF foi aberto após pedido da deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT). A investigação do ministério busca analisar se houve violação de direitos fundamentais ou descumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) na coleta de informações pela Ernst & Young.

Mesmo com denúncias, privatização segue

Mesmo com a abertura da investigação pelo MPF, segue em curso o processo de privatização da Copasa. Também na segunda-feira (18), o TCE-MG autorizou a oferta de ações para privatização da companhia. Em abril deste ano, o tribunal havia freado a desestatização, autorizando que o governo de Minas e a gestão da empresa avançassem apenas com procedimentos preparatórios,  proibindo a conclusão da venda da Copasa, com transferência do controle acionário.

A mudança de posição do órgão, com a justificativa de que o Executivo e a estatal teriam cumprido as determinações fixadas, levantou críticas. “Estamos fazendo várias denúncias, mas o processo de privatização ainda ganha novos capítulos com autorização do TCE. Isso nos surpreende muito e nos deixa chateados, mas seguimos firmes na luta”, lamenta Milton Luiz Costa. 

Agora, a Copasa está autorizada a ofertar e vender ações para o mercado financeiro, com o acompanhamento do TCE-MG. 

Relembre

Após aprovar a proposta que ficou conhecida como “PEC do Cala a Boca” e retirar da Constituição Mineira a obrigatoriedade de realização de um referendo popular para privatizar a Copasa, a ALMG aprovou em dois turnos o projeto de lei, de autoria do governo Zema/Simões, que trata especificamente sobre a privatização da companhia. 

:: Relembre: ‘Retrocesso’: saiba quem votou a favor da privatização da Copasa, aprovada em 2º turno na ALMG :: 

O processo foi marcado por críticas de autoritarismo, manobras parlamentares e ausência de debate com a sociedade. Uma pesquisa, encomendada pela Associação Mineira de Municípios (AMM) e divulgada no fim do ano passado, mostrou que 57% dos mineiros são contra a privatização da Copasa. Além disso, movimentos sociais realizaram, em 2024, um plebiscito popular que indicou que o índice de contrários é ainda maior e chega a 95%. 

Outros indícios de irregularidades

No início de março de 2026, o Conselho de Administração da Copasa, em reunião questionada pelos trabalhadores, discutiu sobre os moldes da privatização. De acordo com o Sindágua-MG, o formato deliberado e levado à Assembleia Geral de Acionistas da Empresa (AGE) é o de “oferta secundária” de ações na bolsa.

A reunião foi convocada pelo ex-presidente do Conselho de Administração da Copasa, Hamilton Amadeo, que renunciou ao cargo no dia 12 de fevereiro, após se tornar pública a notícia de que ele participou de uma delação na qual admitiu ser um dos líderes de um esquema de pagamento de propina quando era CEO da Aegea, empresa que possui diversos contratos de concessão de serviços de saneamento ao redor do Brasil.

:: Leia também: Em meio a denúncias de irregularidades, leilão da Copasa (MG) pode acontecer a qualquer momento ::

“Não podemos aceitar que o futuro da Copasa e do saneamento de Minas Gerais seja decidido por um processo capitaneado por quem confessou ser o operador de um esquema de propinas. Amadeo admitiu atuar no suborno de deputados e autoridades para viabilizar a privatização de empresas públicas”, argumentou a entidade, na época. 

Além das irregularidades, a população teme que, com a privatização, a qualidade do serviço oferecido pela Copasa piore e as tarifas fiquem ainda maiores, como já aconteceu com outras empresas que atuam no saneamento e que foram desestatizadas. 

:: Relembre:  Experiências de privatização de saneamento são ruins. Mesmo assim, Zema quer vender a Copasa :: 

Outro lado

O Brasil de Fato MG entrou em contato com o governo de Minas e a Copasa para comentar sobre as denúncias. O texto será atualizado, caso haja um posicionamento.  

Editado por: Elis Almeida

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