A médica e militante cubana Aleida Guevara participou, na última semana, do 4º Encontro Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). O Brasil de Fato conversou com a cubana em diferentes momentos durante o evento e ouviu relatos sobre o bloqueio contra Cuba, a força da organização popular, a situação da juventude, a reforma agrária e o papel estratégico do campesinato na construção da soberania e da justiça social.
A entrevista foi construída de forma conjunta por Marcos Antonio Corbari, Valter Israel da Silva e Caio Barbosa. As fotos são de Ana Flávia Luck. Confira:
Brasil de Fato – Como você tem interpretado a situação atual de Cuba, sob ameaça do império estadunidense?
Aleida Guevara – Cuba vive hoje uma situação extremamente difícil. Há décadas sofremos o bloqueio dos Estados Unidos, mas nos últimos anos ele se tornou ainda mais duro. Não é apenas um bloqueio econômico: é financeiro, energético, comercial e também político.
Quando os Estados Unidos colocam Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo, praticamente nenhum banco pode negociar livremente conosco. Isso dificulta investimentos, impede transações financeiras e torna quase impossível manter relações comerciais normais com outros países.
Além disso, há um bloqueio energético. Muitos navios deixam de levar petróleo para Cuba por pressão dos Estados Unidos. Nós produzimos uma parte do nosso próprio petróleo, mas ele é pesado, tem muito enxofre e cria dificuldades nas refinarias. Isso provocou apagões em todo o país.
Estamos falando de um país tropical, com temperaturas de quase 40 graus e umidade muito alta. Sem eletricidade, os alimentos estragam rapidamente. Muitas famílias compram apenas o que vão consumir naquele dia, porque não conseguem conservar nada.
Também falta combustível para o transporte público, para ambulâncias e para serviços essenciais. Há cidades que passam até 72 horas sem energia elétrica. É uma situação muito dura.
O que mantém o povo cubano resistindo diante dessas dificuldades?
O povo cubano tem uma consciência social construída ao longo de muitos anos de processo revolucionário. Existe confiança de que vamos encontrar alternativas.
Nossa história de resistência vem desde as lutas contra a colonização espanhola. Cuba sempre teve homens e mulheres extraordinários, mas o principal é o povo. É o povo quem decide.
Depois da Revolução, o povo cubano se tornou mais livre porque também se tornou mais culto. Como dizia José Martí: um povo verdadeiramente livre precisa ser um povo instruído, para que ninguém possa manipulá-lo.
Cada vez que os governos dos Estados Unidos aumentam as agressões contra Cuba, o povo tende a se unir mais.

Cuba teme uma guerra com os Estados Unidos?
Nós não queremos guerra de forma alguma. Mas também não vamos aceitar sermos esmagados.
Os Estados Unidos podem até ter superioridade militar, mas o povo cubano jamais aceitaria uma ocupação sem resistência. Lutaremos até as últimas consequências, se necessário.
Por isso insistimos tanto na solidariedade internacional e na consciência dos povos. O que hoje fazem contra Cuba, amanhã podem fazer contra qualquer outro país.
Como você vê o papel da juventude cubana atualmente?
As novas gerações têm desafios enormes, mas nós, das gerações anteriores, também precisamos reconhecer nossos erros. Muitas vezes descuidamos da formação política e ideológica dos jovens.
Nos últimos anos tivemos uma migração muito grande de jovens cubanos, e isso nos obriga a refletir profundamente.
Mas, ao mesmo tempo, eu tenho muito orgulho da juventude cubana. Converso muito com jovens militares e civis e vejo neles um enorme espírito de soberania, liberdade e resistência.
Precisamos escutar mais os jovens, compreender suas necessidades e fortalecer a formação da consciência social.
Qual a importância da relação entre campo e cidade?
Essa relação é fundamental. Eu sempre lembro da primeira vez que cortei cana-de-açúcar, quando ainda era estudante de medicina. Aquilo mudou completamente minha visão.
Passei a compreender profundamente o esforço dos trabalhadores do campo. Minha formação universitária gratuita só existia porque milhares de trabalhadores acordavam às quatro da manhã para sustentar a economia do país.
O trabalho voluntário defendido pelo Che tinha justamente esse sentido: unir trabalhadores urbanos e camponeses para que cada setor compreendesse a importância do outro.
A cidade não sobrevive sem o campo. Mas o campo também precisa de tecnologia, ciência, industrialização e respeito à terra.
Neste contexto, qual a importância da educação para os camponeses?
A educação é essencial. Não apenas matemática ou química, mas uma educação capaz de impedir que o camponês seja explorado, enganado ou manipulado.
É importante falar a linguagem do povo. Às vezes um camponês pode não entender o conceito de “mais-valia”, mas entende perfeitamente quando percebe que produz muito e recebe pouco.
A consciência do próprio papel social é fundamental para qualquer transformação.
Como você vê o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e os demais movimentos camponeses brasileiros?
Tenho uma relação muito próxima com o MPA há muitos anos e sinto muito orgulho disso. Considero o movimento um dos mais coerentes e consequentes da América Latina.
O mais importante é a solidariedade entre os povos.
O campesinato precisa compreender sua importância estratégica para o mundo. São os camponeses que produzem os alimentos, preservam sementes, garantem soberania alimentar e sustentam a vida.
Também é fundamental aproveitar os avanços tecnológicos sem perder a autonomia e os valores humanos.
O que mais chamou sua atenção no encontro do MPA?
Primeiro, a dimensão do encontro. Para nós, cubanos, o Brasil parece um continente. Escutar camponeses de tantos estados e regiões é extremamente educativo.
Esses encontros são importantes porque permitem troca de experiências concretas. Uma pessoa aprende com a outra, compartilha soluções e descobre novas possibilidades.
Mas uma coisa me impressionou profundamente: ouvir os camponeses falarem abertamente sobre socialismo. Eu realmente não esperava isso.
Quando um camponês entende que defender a terra, produzir alimentos e combater a fome exige um sistema diferente, isso revela um nível muito importante de consciência política.

Qual sua avaliação sobre a questão agrária no Brasil?
É inadmissível que um país que produz alimento para quase um terço da humanidade ainda tenha pessoas passando fome.
As melhores terras continuam concentradas nas mãos de poucas famílias. Isso mostra como a reforma agrária continua sendo uma necessidade urgente.
Também me impressionou muito a preocupação dos camponeses brasileiros em construir reservas de alimentos e projetos solidários. Isso demonstra visão de futuro e compromisso internacionalista.
O que a solidariedade representa para você?
A solidariedade transforma tanto quem recebe quanto quem oferece ajuda.
Os anos em que vivi em Angola como médica foram extremamente duros, mas também me fizeram crescer enormemente como ser humano.
Sempre digo uma frase muito bonita que usamos em Cuba: “Feliz é o homem que sabe receber sem esquecer e sabe dar sem cobrar.”
Como você recebeu a homenagem ao Frei Sérgio Görgen?
Perder pessoas importantes para o povo é sempre muito doloroso. Mas, como dizia José Martí, a morte não é real quando a obra da vida foi cumprida com dignidade.
Pessoas como Frei Sérgio continuam vivendo naquilo que construíram, nas sementes que deixaram, nas lutas que ajudaram a formar e nas pessoas que inspiraram.
Essa é uma forma de permanência muito profunda.
Que mensagem você deixa para os camponeses brasileiros?
A principal mensagem é: união, solidariedade e respeito mútuo. Sem respeito não existe unidade. E sem unidade não existe força para transformar a realidade. Também é importante ouvir os povos originários, aprender com os mais velhos, valorizar os conhecimentos populares e nunca acreditar que possuímos a verdade absoluta.
Sempre podemos aprender com outro ser humano.
Esses encontros têm valor justamente porque aproximam pessoas, criam vínculos e permitem construir ações concretas — não apenas discursos, mas práticas reais de transformação social.
