A Semana da Luta Antimanicomial 2026 segue mobilizando movimentos sociais, universidades, coletivos, trabalhadores da saúde mental, usuários da Rede de Atenção Psicossocial e familiares em João Pessoa. A programação, iniciada na última segunda-feira (18), acontece até esta sexta-feira (22) com rodas de diálogo, oficinas, sessões públicas, atividades culturais e um ato público no Centro Histórico da capital paraibana.


Com o tema “Loucura, Ocupação e Território: Democratizar e Cuidar em Liberdade”, a iniciativa é organizada pelo Coletivo Antimanicomial em Defesa da Raps de João Pessoa e reúne entidades como Abrapso, Acaflor, LouCid/UFPB, Projeto Fortalecendo a Raps, Conselho Regional de Psicologia da Paraíba, Defensoria Pública do Estado da Paraíba, Projeto Errantes Urbanos/UFPB, ApoiaRaps, Coletivo Canto Geral, Coletivo Conectar, Caravela Cultural, Brechó Volver e serviços da Raps.

Na abertura, na segunda-feira (18), houve uma caminhada “Errantes Urbanos na Luta Antimanicomial”, realizada no Centro Histórico de João Pessoa. Também houve roda de diálogo sobre democratização do cuidado em liberdade e sessão especial na Assembleia Legislativa da Paraíba sobre os 25 anos da Lei da Reforma Psiquiátrica.




Debates seguem nesta quarta-feira
Já nesta quarta-feira (20), a programação na parte da manhã incluiu debate sobre atenção à crise e leitos de saúde mental, no Auditório Humberto Nóbrega, no Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba. Também ocorreram atividades de orientação jurídica para usuários e familiares da Raps, promovidas pela Defensoria Pública do Estado da Paraíba.
À tarde, acontece a exibição do filme “O lixo que desabito”, dirigido por Arlanny Carneiro, seguida de debate. À noite, a Caravela Cultural recebe apresentação da banda Passageiro 22 e da DJ Sistah’s Selectas, além de arrecadação de alimentos para famílias atingidas pelas chuvas na Paraíba.
A professora, extensionista e pesquisadora da Universidade Federal da Paraíba, Ludmilla Correia, afirmou que a semana busca fortalecer a luta por direitos e denunciar novas formas de institucionalização.
“Os manicômios se reinventam e não estão apenas nos muros físicos das instituições manicomiais clássicas, como os hospitais psiquiátricos e manicômios judiciários, mas também em novas roupagens, como é o caso das comunidades terapêuticas. Desde o início da luta antimanicomial no Brasil e na Paraíba, a gente entende que as conquistas por instrumentos normativos, políticas públicas e serviços na política pública de saúde mental não impedem que a gente continue lutando. Pelo contrário: é preciso efetivar os direitos previstos na Reforma Psiquiátrica.”

Ato público encerra programação
Na quinta-feira (21), a programação terá debate sobre redução de danos e cannabis medicinal, oficinas culturais e um sarau poético no Brechó Volver, em Miramar.
O encerramento ocorre na sexta-feira (22), com debate sobre saúde mental e segurança pública no Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal da Paraíba e ato público às 14h. A concentração será na Praça Pedro Américo, com caminhada até a Praça Antenor Navarro.
Segundo Ludmilla Correia, a mobilização também busca ocupar os espaços públicos da cidade. “Tudo isso para lembrar que a Reforma Psiquiátrica só pode ser efetivada também a partir da dimensão sociocultural, no sentido de que a sociedade reconheça que as pessoas em sofrimento mental são cidadãs e, portanto, precisam ocupar a cidade.”
Violações de direitos
O Dia Nacional da Luta Antimanicomial é celebrado em 18 maio desde o Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental de Bauru, realizado em (1987). O movimento ganhou força durante a redemocratização do Brasil, denunciando violações de direitos em hospitais psiquiátricos e defendendo políticas públicas de cuidado comunitário e em liberdade.
A aprovação da Lei nº 10.216/2001 consolidou a Reforma Psiquiátrica Brasileira, priorizando serviços substitutivos aos manicômios, como os Centros de Atenção Psicossocial. Dados do Ministério da Saúde indicam que a Rede de Atenção Psicossocial passou a integrar políticas de saúde mental em todo o país, embora movimentos sociais apontem desafios relacionados ao financiamento e ao fortalecimento de modelos hospitalocêntricos.
Informações sobre a Reforma Psiquiátrica e a Rede de Atenção Psicossocial podem ser consultadas no Ministério da Saúde – Saúde Mental e na Fiocruz – Reforma Psiquiátrica Brasileira.
“A gente precisa continuar mobilizando os direitos que estão garantidos na lei e também lutar por aqueles que ainda não foram conquistados na norma. E o que a gente quer deixar também como recado é que a luta antimanicomial, embora seja lembrada especialmente nesse período do 18 de maio, é uma tarefa cotidiana. Porque as práticas manicomiais estão também nos gestos e nas ações das pessoas, e não apenas nas instituições”, conclui Correia.
