Violência

Três em cada quatro moradores de favela expressam discordar de operações policiais no RJ

Pesquisa inédita divulgada nesta quarta-feira (20) ouviu 4.080 pessoas dos quatro maiores conjuntos de favelas da cidade

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Protesto contra a operação policial que deixou dezenas pessoas mortas no Complexo da Penha, em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do Estado
Protesto contra a operação policial que deixou dezenas de pessoas mortas no Complexo da Penha, em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do Estado | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado? A partir desta pergunta, seis organizações da sociedade civil com atuação nos territórios realizaram uma escuta qualificada e inédita das principais comunidades do Rio de Janeiro. O objetivo é trazer a vivência para explicar como pensam as pessoas que mais sofrem com a violência no dia a dia.

A pesquisa divulgada nesta quarta-feira (20) ouviu 4.080 moradores dos quatro maiores conjuntos de favelas da cidade: Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha. Três em cada quatro (73%) expressaram discordar das operações policiais, enquanto 25% dizem apoiar. O resultado evidencia traumas de inúmeras violações e uma descrença no papel do Estado em proteger essa população.

Quando perguntados se as ações devem continuar como são hoje, a resposta é ainda mais contundente: 92% reprovam o modelo atual. Neste grupo, 68% defendem que as operações precisam ser realizadas, mas de outra forma; enquanto 24% dizem que não deveriam acontecer. O sentimento de medo associado à atuação policial foi declarado por 78% dos entrevistados.

Ao Brasil de Fato, o sociólogo Arthur Dóring, do Instituto Raízes em Movimento (Alemão), analisa que nem a parcela de “concordância” com as operações se sustenta, porque também neste grupo a ampla maioria reconhece e considera inaceitáveis os excessos cometidos pela polícia. Mesmo entre os que concordam, apenas 20% defendem que as operações devem continuar sendo feitas do jeito que são hoje. 

“O que os moradores e moradoras do Alemão, da Penha, da Maré e da Rocinha estão dizendo com esses números é que esse modelo chegou ao seu limite. Que concordar com as operações não significa acreditar nelas. E isso coloca uma pergunta inevitável para o poder público: se nem quem apoia as operações acredita que elas resolvem o problema da segurança, o que justifica seguir com esse modelo?”, questiona Dóring.

Uma pessoa que mora na Maré, por exemplo, conviveu com uma média superior a 30 operações por ano entre 2023 e 2025. Os Complexos do Alemão e da Penha, por sua vez, foram palco de uma chacina com 122 mortos em outubro do ano passado. 

Quem é mais diretamente afetado pelas ações policiais, muitas vezes não tem sua opinião considerada nas decisões que orientam a política de segurança pública. Os quatro territórios pesquisados somam 21% dos moradores de favelas da cidade. 

Segundo Vilson Luiz, do Coletivo Frente Penha, a pesquisa busca compreender os moradores onde aconteceu a operação policial com a maior letalidade do país. “Por isso, os Complexos do Alemão e da Penha estavam desde o início na pesquisa, que também agregou a Maré desde o começo porque a Redes da Maré monitora, desde 2016, todas as operações policiais no conjunto de 15 favelas da Maré, acompanhando os efeitos cotidianos desse tipo de ação. E a Rocinha entrou no grupo porque é a favela mais populosa do Brasil, fica na Zona Sul e tem menos operações policiais”, explica Luiz ao Brasil de Fato.

O levantamento foi realizado no mês de janeiro pela Redes da Maré, Frente Penha, Instituto Raízes em Movimento, Instituto Papo Reto, Fala Roça e A Rocinha Resiste. A etapa qualitativa conduziu oito grupos focais, com 79 moradores. Na etapa quantitativa, foram realizadas entrevistas estruturadas presenciais. 

Entre duas violências

Mais de 60% dos entrevistados disseram que alguma situação ou sentimento grave de ameaça, perda ou medo influenciaram o posicionamento negativo sobre as operações policiais. As violações mais citadas foram o direito de ir e vir; agressão, violência, ameaça, intimidação ou humilhação; patrimônio invadido ou violado; abordagem para revista; morte ou ferimento por tiro; extorsão, roubo ou furto; execução; detenção e sequestro.

Um dado revelador sobre essa dinâmica é o medo da atuação policial durante as operações que 78% dos moradores afirmaram sentir. Em contrapartida, 59% afirmam que não sentem medo dos traficantes de drogas no território. Para Magda Gomes, da organização A Rocinha Resiste, isso ocorre porque existe um convívio cotidiano com os grupos armados, “algo muitas vezes até mesmo naturalizado”.

Entre o grupo que aprova as operações, o medo da polícia chega a 59%, enquanto o medo dos grupos armados é de 53%. “Isso significa que, mesmo entre quem apoia as operações, a polícia é vista como fonte de medo mais frequente do que os próprios grupos armados que as operações afirmam combater”, completa Madga em entrevista ao Brasil de Fato.

Para Arthur Dóring, a pesquisa expõe uma fratura estrutural na relação entre o Estado e os territórios de favela, e o combate aos grupos armados. Nesse contexto, a população vive com medo de duas violências: do crime organizado e da atuação da polícia para combater o domínio desses grupos.

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“Por décadas, o Estado chegou nesses territórios de forma seletiva e precária: escola que fecha no dia de operação, posto de saúde que não funciona, política pública que não se sustenta. O que se consolidou no lugar disso tudo foi um único formato de presença estatal: a polícia, com confronto armado. E quando esse é o único rosto que o Estado mostra, a população oscila entre o medo e o desespero, vivendo entre duas violências, como disseram os próprios moradores nos grupos focais”, analisa.

Excessos e ilegalidades

Quase todos os moradores entrevistados (93%) afirmam ter vivenciado ou ter um familiar que vivenciou operações policiais. Os impactos mais frequentes foram restrição de circulação; invasão ou violação de domicílio, estabelecimento comercial ou veículo; e a presença recorrente de tiroteios e de balas perdidas.

Entre os que apoiam as operações, 85% reconhecem que a polícia comete excessos e ilegalidades nas operações, e 74% consideram esses excessos inaceitáveis. O que pode parecer uma contradição dos moradores de favelas, na verdade, evidencia o desamparo.

“Estamos diante de uma população inteira que aprendeu a viver sem acreditar que o Estado vai protegê-la, independente do lado em que se posiciona. Como apareceu nos grupos focais, há um apoio que nasce do desespero, não da concordância. As pessoas não estão dizendo que as operações são boas. Estão dizendo que não enxergam outra saída”, conclui Arthur Dóring.

A discordância pelos confrontos é maior entre os jovens (79%) de 18 a 29 anos. Thainã de Medeiros, co-fundador do Instituto Papo Reto (Alemão), observa que os moradores acima de 50 anos podem ter uma percepção diferente, mas também demonstram preocupação sobre o modelo atual.

“Os que mais concordam [com as operações policiais] possuem um perfil de homens normalmente mais velhos que veem na situação da violência no Rio de Janeiro sem muita solução. Viram muita promessa de política pública na área da segurança, mas pouca mudança de fato efetiva. E mesmo nessa população é latente a sensação de necessidade de mudança e medo das forças policiais. Ou seja, mesmo os que concordam, consideram que a polícia comete excessos nessas operações e não se sente mais segura com as operações”, explica.

Editado por: Vivian Virissimo

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