“A velha estrutura internacional deixou de ser relevante. Ela simplesmente não funciona mais”. Foi o que disse ao Brasil de Fato Nelson Wong, vice-presidente do Centro de Xangai para Estudos Estratégicos e Internacionais da Bacia do Pacífico, ao analisar a visita do presidente russo Vladimir Putin à China, nos dias 19 e 20 de maio de 2026.
Para o analista, a viagem de Putin mostra que Moscou e Pequim estão consolidando uma visão geopolítica comum sobre os rumos da ordem internacional.
Wong afirma que a aproximação entre Rússia e China não é uma resposta conjuntural às sanções ocidentais impostas a Moscou após a guerra na Ucrânia. É uma estratégia de longo prazo, construída sobre um entendimento compartilhado de que a ordem internacional do pós-Guerra Fria esgotou sua legitimidade e que os dois países têm papel central na construção do que vem a seguir.
A visita de Putin, a 25ª à China, a mais frequente de qualquer líder de uma grande potência, resultou na assinatura de 40 acordos de cooperação e duas declarações conjuntas. Uma delas condena o hegemonismo, os atos unilaterais e qualquer tentativa de reabilitar o fascismo e o militarismo, sem citar os Estados Unidos pelo nome.
Wong afirma que o nível da relação é cada vez mais alto, mas que há espaço para qualificar, por exemplo, a relação comercial. O comércio bilateral, dominado pela compra chinesa de petróleo e gás russo, superou 200 bilhões de dólares anuais (mais de R$ 1 trilhão), por três anos consecutivos. Para o analista, isso não é suficiente. Ele defende uma integração mais ampla, que inclua manufatura, farmacêuticos e pesquisa científica, e chega a propor que os dois países adotem um plano quinquenal conjunto para dar concretude a essa agenda.
Sobre a América Latina, Wong cobra apoio concreto de China e Rússia à região, e aposta num papel de maior protagonismo para o Brasil no âmbito do Brics e do Sul Global.
Confira a entrevista na íntegra a seguir:
Brasil de Fato: Qual é o significado da visita de Putin, que ocorre poucos dias após a própria visita do presidente Trump à China? Há especulações sobre a coincidência, mas sabemos que o encontro também já estava previsto, porque, entre outras coisas, marca o 25º aniversário do Tratado de Amizade e Cooperação entre os dois países. Como o senhor lê este momento?
Nelson Wong: A importância e o significado desta visita do presidente Putin à China não podem ser subestimados. Do ponto de vista histórico, estamos diante de um aniversário importante nas relações bilaterais. Mas há algo maior em jogo: num mundo em transformação, China e Rússia são essencialmente as forças motrizes do novo mundo multipolar, ao lado de países como Brasil, Índia e África do Sul, os cinco membros fundadores do Brics. São os países do Brics, ou o conceito da plataforma Brics, que lançam as bases e impulsionam essa nova ordem multipolar.
Acho que Rússia e China compartilham o entendimento de que a estrutura existente, a velha estrutura, não é mais relevante. Ela simplesmente não funciona. É por isso que nossos dois países se aproximaram, não apenas por causa da longa fronteira comum ou da relevância histórica mútua, apesar dos momentos de tensão que existiram, algo que acontece entre qualquer par de países. Ao longo das últimas três décadas, China e Rússia foram se tornando cada vez mais próximas, construindo o que é essencialmente uma parceria estratégica para todos os momentos. Muita gente não sabe, por exemplo, que os dois países assinaram mais de 100 acordos para resolver todas as pendências ao longo da fronteira. Não existe, na prática, nenhuma disputa territorial entre nós.
Isso é um marco muito importante. No plano econômico, as economias dos dois países são altamente complementares. A Rússia tem o que a China precisa, e a China pode oferecer o que a Rússia precisa. Seria um equívoco reduzir essa parceria à ideia de que a Rússia, sob sanções e em meio a uma guerra na Ucrânia, não teria para onde se virar a não ser buscar apoio na China. Não é só isso. Sim, a China se tornou cada vez mais importante para o desenvolvimento econômico da Rússia, que enfrenta sanções em múltiplas frentes. Mas o mais importante é que as lideranças dos dois países compartilham uma visão sobre o futuro do mundo e sobre os papéis que seus países irão desempenhar nesse futuro. É uma estratégia de longo prazo.
Por isso acredito que esta visita aprofundou ainda mais a parceria. Com base nas dezenas de contratos assinados, dá para ver que a relação foi levada a um novo patamar, da cooperação econômica, comercial e industrial, à cooperação acadêmica, científica e de pesquisa, incluindo pesquisa nuclear. Abrange um espectro muito amplo de setores, algo qualitativamente diferente das nossas relações com outros países.
Sobre o timing, tão próximo à visita de Trump: não acredito que tenha sido algo orquestrado. Visitas de Estado dessa importância não acontecem da noite para o dia. Trump adiou sua viagem repetidas vezes por conta de sua própria agenda no Oriente Médio. A visita de Putin à China também já estava marcada para maio há bastante tempo. Foi uma coincidência.
O senhor mencionou uma visão compartilhada entre os dois líderes. Em uma das declarações assinadas agora, Putin e Xi falaram sobre a necessidade de resistir a tentativas de reviver o fascismo, o unilateralismo e o hegemonismo. Xi também já se referiu a mudanças de uma magnitude não vista em 100 anos. Como o senhor avalia essa dimensão geopolítica da parceria?
No plano da geopolítica global, quando digo que China e Rússia têm visões compartilhadas, o que me parece bastante evidente é que muitos países europeus estão tentando distorcer os fatos históricos. Vimos Kaja Kallas fazer afirmações realmente perturbadoras, chegando a dizer que a Rússia nem sequer fez parte da vitória na Segunda Guerra Mundial, da derrota do fascismo e do nazismo alemão. Foi uma distorção total dos fatos históricos. E no caso do Japão, vemos versões alternativas sendo promovidas sobre o que o país fez durante a guerra.
China e Rússia se preocupam profundamente com a preservação do legado da vitória na Segunda Guerra Mundial. Isso tem sido reafirmado repetidamente nas declarações conjuntas dos dois países, porque os fatos históricos são fatos, e não podem ser alterados. O Japão está agora tentando se remilitarizar, o que é algo que a China não vai aceitar nem tolerar. E o que a Rússia tem sofrido por conta da narrativa distorcida sobre seu papel, e o papel da União Soviética, na Segunda Guerra Mundial, é igualmente preocupante. Essas são as bases sobre as quais China e Rússia querem se unir e enviar uma mensagem clara: as conquistas da vitória na Segunda Guerra Mundial não podem ser alteradas nem distorcidas. Isso também evidencia a visão comum dos dois países.
O senhor já escreveu que a parceria entre Rússia e China ainda tem muito espaço para crescer. Como vê o próximo nível dessa relação, e como ela pode servir melhor ao princípio do benefício mútuo que a China sempre defende?
O consenso entre as lideranças dos dois países está estabelecido, e o comércio bilateral cresceu enormemente. Mas o ponto que venho defendendo insistentemente em textos e palestras é o seguinte: é importante que a China compre petróleo e gás da Rússia, e essa compra e venda representa a grande maioria do nosso comércio bilateral. Isso é importante? Sim. Mas não é suficiente.
Precisamos que empresas de diferentes setores da economia comecem a se integrar. Desde o colapso da União Soviética, a Rússia abandonou aquilo em que era muito forte: a manufatura e a produção industrial. Esta é uma oportunidade concreta para que China e Rússia cooperem na revitalização da capacidade produtiva russa. A Rússia é o maior país do mundo em extensão territorial e tem interesses nas regiões vizinhas. Não estamos falando apenas de um país de 130 milhões de habitantes, mas de mais de 300 milhões se considerarmos os países da região. A Rússia também quer promover o conceito de uma grande parceria eurasiática, que incorpora países da Ásia Central e do Sul. É um continente muito maior do que se imagina.
Por isso, as empresas dos dois países precisam se aproximar e trabalhar de forma mais integrada. Não apenas as grandes estatais no comércio de petróleo e gás. Manufatura, bens de consumo do dia a dia, farmacêuticos, colaboração aeroespacial: tudo isso precisa sair do papel. Cheguei a sugerir que talvez os dois países precisem considerar um plano de cinco ou dez anos, com metas específicas de implementação. Há muito mais a avançar.
A confiança mútua entre os líderes é fundamental, mas também não é suficiente. Precisamos que russos e chineses se aproximem como povos. São necessários muito mais intercâmbios, culturais e educacionais. Ainda há desconfianças de parte a parte, e essa confiança mútua precisará ser construída com o envolvimento de pessoas de todas as áreas, não apenas de estatais ou de cúpulas diplomáticas. Por isso me chamou atenção, nesta visita, a quantidade de contratos assinados entre universidades e instituições de pesquisa dos dois países. É um avanço concreto.
A América Latina atravessa um momento difícil. Os Estados Unidos colocaram a região como foco central de sua Estratégia de Segurança Nacional, e vemos ameaças graves contra Venezuela e Cuba. Como você avalia a relação de China e Rússia com a América Latina neste momento?
China e Rússia compartilham as preocupações com o que está acontecendo na América Latina. O que tem ocorrido na Venezuela, as ameaças sobre Cuba, e o que já foi feito no Panamá e no México falam por si sobre o que os Estados Unidos estão tramando na região.
China e Brasil têm uma relação muito sólida, e o Brasil é um dos países mais fortes e importantes do continente. Esperamos sinceramente que o Brasil tenha uma voz cada vez maior. O atual presidente brasileiro é um estadista respeitado internacionalmente. Pessoalmente, espero ver o Brasil desempenhar um papel muito maior no âmbito do Brics e no contexto mais amplo do Sul Global.
E sim, espero que China e Rússia mostrem mais apoio aos países latino-americanos, não apenas apoio moral, mas apoio concreto. Uma forma objetiva de fazer isso é aumentar o comércio entre a China e a América Latina, e entre a Rússia e a América Latina. Como dizem os próprios estadunidenses: o dinheiro é que manda.
