'terreiros urbanos'

‘Desistir não é uma possibilidade’, diz Mãe Luciana, Ialorixá que acolhe crianças e combate o racismo religioso em SP

Protagonista da série ,'Terreiros Urbanos', Luciana Bispo fala sobre a relação entre o terreiro e o Lar Maria Sininha

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Na cosmologia iorubá, Xangô é o rei (Obá) que governa com o machado da justiça e o equilíbrio do fogo. É sob o amparo desse orixá que a história do Ilê Obá Asé Ogodo começou a ser escrita pelas mãos de Mãe Aparecida Bispo há mais de 80 anos. Mais do que fundar um terreiro no alto do bairro Mata Virgem, na zona sul de São Paulo, Aparecida traduziu a justiça do seu protetor em ação social, erguendo o Lar Maria e Sininha, um polo cultural hoje reconhecido pela Unesco que atua na linha de frente da defesa dos direitos da infância.

Hoje, esse trono de cuidado e resistência é ocupado por sua filha, Luciana Bispo de Oya, assistente social, ativista, educadora e Ialorixá. Ela é uma das protagonistas da série documental “Terreiros Urbanos em São Paulo”, produzida pelo Brasil de Fato, que percorre territórios sagrados da capital paulista para mostrar o papel político, social e espiritual das casas de matriz africana em meio à cidade crescente, à intolerância religiosa e ao racismo estrutural.

Para a Ialorixá, manter as portas abertas é um ato político e espiritual de reparação. “Eu vou olhando para a história desse país e diria que os espaços de maior cuidado, sem nenhuma discriminação, são os quilombos e os terreiros”, afirma Luciana, reforçando que esses territórios são refúgios históricos para populações vulnerabilizadas.

Nesta entrevista, Mãe Luciana detalha como o legado de sua mãe e a força de seus ancestrais combatem o estigma que ainda tenta marginalizar a fé de matriz africana. Segundo ela, “dar visibilidade para o terreiro como um lugar de cuidado, e não de demonização, tem sido uma tarefa fundamental”.

Ela pontua que, embora o povo preto tenha chegado ao Brasil sob o peso da escravidão, trouxe consigo linhagens de reis e rainhas, e que “desconstruir esse estigma marginalizado para um lugar de perspectiva e resgate oferece ao outro possibilidades de mudança”.

Entre o som dos tambores e o acolhimento das crianças da periferia, Luciana Bispo nos mostra que a verdadeira abolição não se deu em um papel assinado em 1888, mas se constrói diariamente no axé de quem nutre a vida e a identidade de seu povo. “Desistir não é uma possibilidade”, diz ela, “porque muito pior fez quem veio antes.”

A série documental conta com cinco episódios e está disponível no YouTube do Brasil de Fato. A obra também terá um lançamento presencial nesta quinta-feira (21), no Armazém do Campo, em São Paulo.

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Mãe Luciana, gostaria que a senhora se apresentasse e contasse um pouco como se deu o seu encontro com a espiritualidade e como isso se conecta com a sua trajetória familiar.

Mãe Luciana Bispo: Eu chego a esse lugar porque herdo esta casa da minha mãe, Dona Aparecida Bispo, uma mulher de Xangô. A casa é de Xangô, Ilê Oba Àse Ogodo, do qual tenho muito orgulho. Sou neta biológica de Maria José, que é a mãe biológica da minha mãe, e filha e neta de Dona Dionísia de Ogum, minha iniciadora — também tenho muito orgulho dela.

Tenho cinco irmãos, uma família grande. O núcleo Aparecida Bispo aqui em São Paulo são os filhos dela, os netos, mas a família Bispo é grande e vem de Ribeirão Preto, onde passei muito tempo da minha infância.

Sou assistente social de formação, educadora, articuladora, ativista em algumas causas, especialmente na infância e adolescência — áreas pelas quais tenho muito carinho e que me ensinam o que é ser ativista, militância, política e o que não é política partidária.

O terreiro também é esse lugar que me constrói. Como sou neta de Ialorixá, minha vida toda foi no terreiro. Procurei e não localizei fotos da minha mãe grávida no terreiro, mas minha vida inteira ele esteve presente. Em alguns momentos fiquei mais distante por estar estudando, fazendo outras coisas, mas sempre soube: “é dia tal, essa é uma festa”.

Minha personalidade e minha formação como criança, pessoa e mulher se dão nessa relação de família preta e também de terreiro. É desse lugar que me construo como profissional, que olho para o mundo e amplio meu olhar a partir desses saberes ancestrais.

Tenho me visto revisitando minha infância, adolescência e juventude a partir do que temos construído agora, falando muito de ancestralidade. Falar de ancestralidade é: “sua avó fazia assim”, “por quê? porque sua bisavó fazia assim”. Depois, algumas coisas só mudam de lugar. Antes se falava da avó da minha mãe; hoje falam da minha avó. Eu também falo para meus filhos e netos: “sua avó”. Alguns ancestrais vão ficando mais distantes no sentido de lembrar nomes e fazeres, mas com mais concretude. Por exemplo, uma receita de molho é de família, mas não sei quem foi a primeira.

Tenho muito orgulho de ser mulher preta, de ter vivido uma infância linda e exigente — minha mãe era exigente, minha avó também — mas uma infância que me preparou para ser quem sou. O terreiro sempre foi meu porto seguro.

Paralelo a isso, hoje sou diretora executiva de uma organização fundada pela minha mãe, que tem como foco a vulnerabilidade social de crianças e adolescentes.

Mãe Luciana Bispo herdou o terreiro Ilê Obá Asé Ogodo e a missão no Lar Maria Sininha da sua mãe Aparecida Bispo, que aparece no retrato ao fundo | Iolanda Depizzol/Brasil de Fato | Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato

Como se chama a organização e como se dá a prática nesta busca pela garantia de direitos das crianças e adolescentes?

É uma organização que trabalha no contraturno escolar: a Associação Maria e Sininha, que nasceu como orfanato. Desde 2010, a partir de um edital bacana com a Unesco e o Criança Esperança, nos tornamos um polo cultural, que fica aqui do lado do terreiro. Geograficamente é o mesmo espaço, embora sejam duas coisas diferentes. Esse polo cultural amplia o aprendizado do terreiro no sentido do cuidado.

Olhando para a história desse país, os espaços de maior cuidado, sem discriminação, são os quilombos e os terreiros. O Lar Maria e Sininha nasce nessa perspectiva de cuidar de quem está descuidado. Cada um tem sua função institucional: lá as coisas são mais institucionalizadas, com registro de impacto. Nos terreiros impactamos muita gente, mas não temos grandes registros.

Muita gente visita o terreiro para mostrá-lo nesse lugar político que ele é — uma política que não tem a ver com partidarismo, mas com política de cuidado. O Lar Maria e Sininha tem essa política de cuidado e prevenção. As duas coisas caminham bem na minha vida, resgatando minha perspectiva de ativista, inclusive no enfrentamento da intolerância religiosa. Uma coisa subsidia a outra, pois desde criança aprendo a cuidar e a ser cuidada.

Dar visibilidade ao terreiro como lugar de não demonização, mas de cuidado, tem sido uma tarefa importante para a história do povo preto que chegou a este país na condição de escravizado, mesmo sendo capturados reis e rainhas. Desconstruir esse lugar demoníaco, escravizado, marginalizado, para um lugar de visibilidade, cuidado e acolhimento ao outro, oferecendo possibilidades de mudança e resgate.

Hoje polo cultural, o Lar Maria Sininha foi fundado como orfanato por Aparecida Bispo | Marina Duarte de Souza/Brasil de Fato | Crédito: Marina Duarte de Souza/Brasil de Fato

Como a senhora descreve a experiência de ser mulher preta, ativista social e Ialorixá no Brasil de hoje?

Isso tem sido uma luta que travo todos os dias. Não é fácil. Sou mulher negra. O primeiro tom — eu sempre digo isso — já está posto em todo lugar que chego. Num país tão perverso, onde o racismo está aí colocado (embora digam que não), não é tarefa fácil. Mas assim como os meus não se furtaram lá atrás, eu também não. Vamos buscando estratégias, parcerias. Em vários momentos olho para trás e vejo quem veio antes, tudo o que fizeram para que eu estivesse aqui e desse certo. É nesse lugar que me inspiro. Falei um dia — e falo bastante — que é responsabilidade ancestral: desistir não é uma possibilidade, porque muito pior fizeram quem veio antes, sendo chicoteado.

Sei que temos números preocupantes e alarmantes de homens, mulheres e crianças pretas morrendo todo dia, mas a condição de poder ir e vir quem me dá são meus ancestrais. Precisamos lutar para não sermos assassinados, para que nossos cultos e nossa cultura sejam valorizados e respeitados. É nesse caminho que tenho seguido.

A senhora poderia contar quando e como nasceu o Ilê Oba Àse Ogodo e qual a importância das mulheres da sua família nessa história?

É engraçado como se repetem as histórias da falta de registros. Vamos procurando quando começou o terreiro. É preciso pensar que, na perspectiva do cuidado, essas mulheres que me antecederam estavam preocupadas em cuidar, não em registrar. Ouvi uma mais velha de um terreiro tradicional da Bahia dizer: “A casa é pequena porque era sonho ter aquele lugar; não se pensava que seria possível ou necessário um lugar tão grande.” Estrategicamente, o terreiro fica lá em cima para ver a polícia chegar e tomar cuidados.

Trazendo para cá: minha avó tinha um terreiro na Vila Santa Catarina, que foi tomando forma. Não tenho registro documental, mas tenho fotos — eu criança lá. Minha avó, se estivesse viva, teria aproximadamente 90 anos. Aquele terreiro deve ter começado nos anos 60. Dona Aparecida herdou e ficou naquele lugar. Depois, o terreiro veio para cá. Oficialmente, juridicamente, minha mãe olhou para essa questão de constituição em 1989. Mas o terreiro já existia há muito tempo, acho que até antes de 1960, talvez nos anos 1950. Não consigo precisar pelas fotos, que são muito antigas.

Para dizer: minha infância viu o terreiro da minha avó, depois vi esse terreiro ser dado e ampliado pela minha mãe, mas ele toma constituição jurídica em 89. Esse terreiro nasce do outro, do terreiro da minha avó, que era mulher de Ogum. As práticas, os aprendizados são todos esses. Lembro de criança, muito criança, no colo de Ogum, o orixá da minha avó. Sempre brinco: primeiro conheço Ogum, depois conheço Mãe Oyá. As velhas sabiam de quem você era, mas não era uma preocupação ficar dizendo “você é tal santo”. Fui iniciada muito criança por um problema de saúde, bronquite, e por isso sempre estava no colo de Ogum, da Preta Velha, sendo benzida.

Tenho uma lembrança muito afetuosa da festa de Pai Oxóssi: havia outra porta ao lado, eu sentia o cheiro das folhas e ficava olhando por baixo. Do ponto de vista de construção, esse terreiro tem mais de 80 anos, sem dúvida. Minha avó trabalhava em lavanderia, mas nos fins de semana tinha atividades, orôs, todo mundo chegava. É uma lembrança de vida toda. Minha mãe tem foto minha no terreiro: mais de meio século.

Comunidade do Ilê Obá Asé Ogodo reunida durante a função religiosa no terreiro | Iolanda Depizzol/Brasil de Fato | Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato

Como foi a chegada do Lar Maria e Sininha a este território e o que mudou com o crescimento desordenado da região?

Juridicamente, tanto o Lar Maria e Sininha quanto o terreiro têm constituição jurídica juntas. Mas o Lar vem de um pedido de uma entidade: “olha, a gente vai ter isso, crie esse espaço.” Também era um pedido da minha mãe. Em terapia familiar, a pergunta era: por que nosso patrimônio estava sendo dividido? Minha mãe contou uma história que não tínhamos ouvido: ela sofreu várias violências na infância e, por conta disso, pensou em ter um lugar que pudesse acolher crianças para que elas não passassem por aquilo. Ela veio com aproximadamente 10 a 12 anos para São Paulo trabalhar como empregada doméstica, uma criança. Se hoje já é complicado, imagine naquela época, sem pai, sem mãe, numa cidade como São Paulo.

O Lar nasce nessa perspectiva do cuidado, antes do Estatuto da Criança e do Adolescente, como orfanato. Mais de 250 crianças moraram no mesmo ambiente. Primeiro, chegamos aqui como nossa casa, e minha mãe foi organizando. Esse era nosso espaço de fim de semana, morávamos no Jabaquara e no fim de semana vínhamos para cá, família preta, para ficar à vontade num território cheio de mato (por isso o nome Mata Virgem). Bichos, borboletas, macacos, cobras. O terreiro foi a primeira coisa construída aqui, porque precisa de um lugar mais rural, com mato e água. Havia várias cachoeirinhas e poços de água.

Maria, uma das espiritualidades que minha mãe incorporava, fala de tomar esse sonho. Na verdade, é reconstruir, porque ele já estava. Minha mãe, cabeleireira na Vila Santa Catarina, começou a cuidar de uma criança chamada Daiane, em situação de abandono. Isso foi em 77, 78. Ali o Lar começa a tomar forma. Na terapia descobrimos que foi nesse momento que a história do Lar se consolidou. Repercutiu no bairro, e outras pessoas deixavam crianças com minha mãe. Isso foi crescendo. O Lar Maria e Sininha se constitui juridicamente em 89, quase 11 anos depois da chegada da Daiane.

Minha mãe saiu da Vila Santa Catarina, pois o número de crianças aumentou, e veio morar aqui. Por um período, ela morou dentro do terreiro com essas crianças, enquanto nossa casa ainda estava em construção. Depois veio o Estatuto da Criança, e tudo que era orfanato passou a se chamar abrigo. Ficamos assim até 2010, quando encerramos o serviço de abrigo porque o território teve um crescimento muito desordenado, com várias vulnerabilidades, especialmente entre crianças.

O que era só morro e mato foi desmatado e ocupado por pessoas, na grande maioria, vindas do Nordeste para trabalhar (anos 90, 93 em diante). As crianças eram cuidadas dentro do Lar, mas olhando para essa demanda, entendemos que precisávamos também olhar para o território. Contribuímos para a pavimentação da rua. Paralelamente ao serviço de abrigo, abrimos oficinas para as crianças da comunidade. Diante da grande demanda e lista de espera, entendemos que se fazia necessário um polo cultural: um lugar para proporcionar lazer, cultura e acesso a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Participamos de um edital, deixamos o serviço de abrigo em 2010 e nos oficializamos como polo cultural. Assim temos seguido. A criança está na escola e vem para cá no contraturno. Neste momento, temos uma parceria muito interessante com o Ministério da Cultura para oferecer cinco oficinas: dança, percussão, fotografia, tecnologia e contação de história.

Como a visão de mundo do terreiro reflete no desenvolvimento e crescimento das crianças e pessoas na sociedade? Como as crianças do terreiro são preparadas para a sociedade fora daqui?

Acho que todo o histórico das pessoas pretas traz um ser humano melhor no sentido do cuidado e da luta. O homem preto já nasce tendo que lidar com várias violências. Muitos crescem em ambientes violentos e partem para a violência por conta dessa experiência. No terreiro, problematizamos o tempo todo a importância de cuidar do outro, do mais velho, e como a mulher e o homem se cuidam. Varrer todo mundo varre, porque cuidar do espaço é cuidar da gente.

A criança que vem para o terreiro já sabe: “vamos, tem muita coisa para fazer” — varrer, cortar quiabo para a divindade, que é o rei, mas que também é a comida dele e que ele também come. O desafio tem sido problematizar o respeito, as coisas que não pode fazer. Quem nasce para o segredo tem outra perspectiva de vida, renasce para dizer: cuidado é importante, amor é importante, falar é importante, ouvir é importante. Quando eu, Ialorixá, estou ouvindo minha sacerdotisa, estou aqui atentamente. Posso argumentar, os Iaôs também, respeitosamente. Mas a importância da escuta, escuta fina, tem feito o diferencial.

Para o povo de terreiro, para todo povo preto, para o povo africano, a ancestralidade é a maior divindade. Respeito à mãe, ao tio, à avó não é de agora: nasce sabendo que não pode desrespeitar. As mulheres também estão nesse lugar de respeito e cuidado. A diferença da criança que recebemos, que vem de várias violências, é esse ambiente de terreiro. A criança de terreiro nunca vai atacar uma pessoa de outro credo, porque falamos de respeito.

Por conta do meu ativismo sobre intolerância religiosa, escuto crianças que foram verbalmente agredidas por suas indumentárias ou fios de contas. Na maioria das vezes, não respondem com violência. Elas dizem: “por quê? Se esse elemento é de amor, minha roupa é de amor, é como me preparo para o ambiente sagrado.” Tudo é sagrado para essa criança.

Ela convive com pessoas que falam de cuidado. Em vários momentos, paramos tudo e estamos no terreiro, lugar onde se brinca, se fala, se sorri, mas também se diz “isso não pode” e se explica por quê. Fazendo a comida de Pai Xangô, sabem que é a comida do rei e que precisa ser feita com cuidado. Para um menino mais indisciplinado na escola, não digo “você vai ver”. Digo: “você é o iniciado. O que está acontecendo? Jagum não pode, Pai Jagum não vai gostar, Mãe Oxum não vai gostar, Mãe Iansã não vai gostar.” Como ele tem relação de afeto com o divino, se recolhe.

‘O tempo todo estamos validando essa beleza, porque isso dá suporte para o enfrentamento lá fora’ – Mãe Luciana Bispo, sobre as crianças do terreiro | Marina Duarte de Souza/Brasil de Fato | Crédito: Marina Duarte de Souza/Brasil de Fato

Qual a principal diferença que a senhora observa entre uma criança criada no terreiro e uma criança que não tem essa vivência, especialmente no que diz respeito à relação com o cuidado e com o diferente?

Temos redobrado o cuidado do menino com a menina, do menino com o menino, do menino com o mais velho. Saber o que é o terreiro, o que é o candomblé, de onde vem, como chegamos, é resgate de autoestima, se respeitar e cobrar respeito do outro. Quando falam pejorativamente “macumbeiro”, a criança sabe. Às vezes brincamos: “você vai para a macumba?” e ela responde “quero ir para a macumba” porque é um lugar seguro, onde pode brincar, onde não vão atacá-la, onde acham ela bonita. Validamos essa beleza o tempo todo para dar suporte ao enfrentamento lá fora. “Ah, seu cabelo é feio?” – “Não, meu cabelo não é feio.” Ele ouve que o cabelo não é feio, que o nariz não é feio, que a pele é de outro tom mas não é inferior. Isso fortalece para o enfrentamento de todos os dias.

Vejo as crianças dizendo: “fui com meu contregum à escola.” Elas vão entendendo os sinais. Se tem um contraegum, é da religião; pode ser Umbanda, Ifá, mas sabe que são religiões de matriz africana. Isso dá conforto. “Ah, tenho uma amiguinha que é de Iansã.” Ele vai se localizando e ganhando conforto.

Qual o impacto concreto do Lar Maria e Sininha na vida das famílias e crianças neste território?

O Lar trouxe e traz o tempo todo para esse território a possibilidade de acessar outras coisas. É um território marcado por violências — de mulher, de criança — todas as violências da periferia estão aqui. O Lar Maria e Sininha é esse lugar que dá outra possibilidade: mostra o que é teatro, dança, cultura, garantia de direito. A mãe não foi vacinada? Ela vem aqui reclamar. É um lugar de referência. As pessoas olham: “vai lá no Lar Maria e Sininha”, “aqui não tem isso”, “minha filha teve o cabelo cortado na escola porque é menina negra, ela tem onde recorrer”. Esse é o primeiro impacto.

O segundo: o Lar olha para a comunidade e visibiliza as coisas boas. Durante a pandemia tivemos muito tempo o sarau. A arte precisa falar mais alto na periferia para dizer que a periferia não é só lugar violento. Entre nós há muitos artistas: mãe que faz poema, filho que faz poema, menino que dança. Recentemente, tivemos uma bailarina no sarau, algo distante para nossas crianças. Elas olharam com encantamento. Subir no palco foi resgate de autoestima.

Um impacto que me dá muita felicidade é o do cuidado. O menino que passou pelo Lar, seja no abrigo, seja nas atividades, entende o que é cuidado. Temos meninos e meninas que agora são homens e mulheres no território e vêm colaborar com outras atividades. Eles falam de quanto isso foi importante: “participei aqui da primeira preparação da entrevista para meu trabalho e hoje sou gerente.” O Lar transforma vidas. Como eu cuido da minha criança? Ir à reunião da escola, a importância disso — eles queriam essa cobrança e entenderam. Hoje, como pais, vão às reuniões.

Esse território só tem essa organização como referência, infelizmente. É muito comum, em territórios periféricos, a ausência do poder público e de uma rede de atendimento com expertise para garantir direitos. Quando vou à escola porque uma criança teve o cabelo cortado, não vou só como mãe: vou defender ou colaborar com outra mãe. Chego com subsídios para dizer: “diretora, isso não é brincadeira.” As pessoas tendem a minimizar a perversidade do racismo — “o outro estava brincando” — então vamos brincar de cortar o cabelo dele e ver como ele se sente. Mudança de conduta das mães, ouvindo suas dificuldades para trabalharmos. Há o impacto da mudança de vida, do bem viver, da transformação. E um impacto maior: muita gente consegue ver Mata Virgem, também conhecida como Morro dos Macacos, com suas belezas, porque belezas existem.

Crianças brincam em uma ação solidária de Natal do Lar Maria Sininha | Marina Duarte de Souza/Brasil de Fato | Crédito: Marina Duarte de Souza/Brasil de Fato

Qual tem sido o impacto do terreiro na vida de quem o frequenta e na relação com a religiosidade de matriz africana?

Aqui é do terreiro. Falei muito do Lar. O impacto do terreiro, que tem aparecido muito, é esse lugar de acolhimento e de sagrado que fortalece o outro, para quem fez a escolha de ser do Ilê Oba Àse Ogodo. “Voltei para a faculdade, não estava bem.” De boca a boca: “vai se cuidar lá, vai ouvir”. Momentos em que sentamos todos juntos para falar das nossas dores, dos nossos medos. A violência está colocada nesse lugar de medo: como me relaciono com minha religião? Como saio na rua com meus elequês? Como respondo? Saber dar respostas para o incômodo que não é seu, que é do outro, e crescer.

Esse terreiro faz bem para nós e para fora, porque o tempo todo estou em outros espaços falando da intolerância. Uso o terreiro, uso que sou Ialorixá, para outros lugares, para outras pessoas, sendo ou não de terreiro. Recentemente, no Sesc Ipiranga, foi muito bonito ver pessoas que nunca foram ao candomblé poder vê-lo naquele espaço. Pudemos falar de Pai Exu, Pai Ogum, Mãe Iemanjá, Mãe Iansã a partir da nossa beleza, a partir de nós. Contamos nossa história. Não é alguém que fala que é demônio; demônio não existe para nós, diabo não existe. O impacto é ver nos olhos das pessoas o encantamento com o candomblé: veem aquilo que circula e gira do mais velho para o mais novo, todos no mesmo espaço, mesma sintonia, buscando sorrisos, abraços e curas. Você olha um menino e vê esse comportamento diferente. Estamos impactando vidas.

Diante da crescente neopentecostal e do aumento da violência contra jovens e mulheres pretos, quais os principais desafios tanto do Lar como do terreiro hoje?

São muito semelhantes. A organização tem o desafio de se manter o tempo inteiro, porque está na periferia. O terreiro também. A organização atende, na maioria das vezes, pessoas pretas, porque são elas que estão na margem. Não nasceu para cuidar só de pessoas pretas, mas sim para garantir direitos de qualquer criança e adolescente. Se a maioria é preta, é porque eles é que estão na vulnerabilidade. Esse recorte não é nosso. A gestora e fundadora é uma mulher negra — eu — e por isso também temos a questão do racismo.

Se olharmos para a captação de recursos na cidade de São Paulo, ela está muito voltada para organizações maiores, consequentemente com pessoas brancas, porque vêm de fundações que têm seu próprio dinheiro. O Lar Maria e Sininha foi fundado por Dona Aparecida com recursos dela, mas não é uma fundação. O tempo todo estamos fazendo projetos com esse recorte de pessoa preta para problematizar: não somos nós, mas essas pessoas estão à margem. O maior número de mulheres assassinadas são mulheres pretas. O maior número de crianças não adotadas são crianças pretas. Negativamente, os números são para nós, para as pessoas pretas. Esse é o desafio do Lar: se manter, captar recursos, mostrar esse trabalho bonito e importante na vida de todos, brancos e pretos, mas pretos na maioria.

O desafio do terreiro, ainda em 2026, é a intolerância religiosa. É se manter num lugar que cresceu muito, com várias organizações neopentecostais que o tempo todo tentam…às vezes ouvimos na rua. É também o desafio de quem chega entender que lugar é esse: um lugar sagrado. Não é “quem vive”, mas “que lugar é esse?” É sagrado. Não se pode chegar de qualquer jeito. Nosso sagrado pode não ser sagrado para você, mas é sagrado para nós e para todos que vivenciam o candomblé.

O desafio do terreiro não está só dentro dessas paredes. É subsidiar quem vivencia aqui e sai para fora. Como preparo o menino, a menina para esse mundo? Como dou suporte para quem sai na rua e é atacado? Dentro das nossas possibilidades e com vários diálogos, vamos tratando. Quando se inicia uma criança ou adulto, ele sai na rua, tem que andar de cabeça baixa, usa o kelê (a joia), não pode uma série de coisas, pega transporte público. Como se manter — sendo que aqui é um lugar seguro — lá fora? É um desafio.

‘O desafio do terreiro não está só dentro dessas paredes. É subsidiar quem vivencia aqui e sai para fora’, diz Mãe Luciana Bispo | Marina Duarte de Souza/Brasil de Fato

Qual o sonho da senhora? O que ainda deseja conquistar para o Lar e o terreiro?

Sonho com um mundo melhor. Tenho me assustado muito com os rumos do ser humano. Mexe bastante comigo. Muito assustada com a violência e com a banalização da vida. A vida está banalizada. Alguém atira porque não quer ficar comigo, outro atira por uma vaga de carro, outro mata por um celular. Isso me assusta. Alguém decide colocar guerra, colocar pessoas para se matarem, porque ela decide. Isso tem me assustado muito.

O sonho é de um mundo melhor, mais cuidadoso um com o outro, que não atira primeiro para depois perguntar quem é. Um mundo mais justo, mais cuidadoso. Trabalho para isso e tenho me pegado cobrando, pensando onde vamos parar. Dá a sensação de que você sai e não sabe se volta, mesmo tendo feito tudo o que disseram que para voltar precisa fazer — para não ser preso, precisa ser honesto. Isso tem me apavorado. Confesso que tem dias que não consigo dormir. Ver tanta violência e alguém sorrir pela violência que cometeu me tira o sono.

O que é ser ialorixá, quais as responsabilidades e diferenças de ser uma líder religiosa do candomblé?

Ser Ialorixá para mim é um lugar de muita responsabilidade e de muita entrega. O tempo inteiro estou me entregando, buscando sabedoria para conduzir os meus. Muitas pessoas contam com o que digo, com o que acredito, com o que faço. É um lugar de responsabilidade, mas quando olho minha comunidade, como o homem que está aqui trata a mulher, como o pai cuida do filho, isso me dá um respiro. Digo: “poxa, é isso.”

O que às vezes me dá um respiro é olhar minha comunidade, ver que as pessoas que estão aqui estão atentas, preocupadas comigo, e que são melhores. Como os homens olham e cuidam de seus filhos, como tratam as mulheres, as mães, as tias, como se tratam, as escutas, os olhares. Isso me tranquiliza um pouco desse lugar tão desafiador que é ser Ialorixá: dar conta da essência, da espiritualidade, dos desejos e sonhos das pessoas, de como elas vão se transformar boas. Só tem uma possibilidade: como elas vão olhar para o sagrado.

Estou comprometida com meu sagrado, com minha fé, com minha ancestralidade. Ser Ialorixá são várias camadas. Ialorixá concentra todas as Lucianas, essa pessoa que está no mundo lutando. E agora é hora de me conectar com meu orixá. Mesmo que já o tenha chamado várias vezes, é o silêncio, ouvir o que chega para eu dizer ao outro ou a mim mesma: “como você vai lidar?” É esse lugar que me fortalece, me restabelece para o outro e para mim. É o lugar que tenho visitado nos momentos de angústia, nessa busca por um mundo melhor, por pessoas melhores. Ser Ialorixá é esse montão de coisas, esse montante. É isso.

Para Mãe Luciana Bispo ser Ialorixá é um lugar de muita responsabilidade e de muita entrega | Iolanda Depizzol/Brasil de Fato

Quem é Xangô, o que este oríxá simboliza e representa para você?

Xangô é o rei. É uma divindade ligada à justiça, de um grande reinado. Falar de Xangô é falar de amor, porque minha mãe é uma mulher de Xangô. A gente vai aprendendo a amar o orixá e reconhecê-lo reconhecendo o outro. Sempre que falo de Xangô, lembro da pessoa mais especial da minha vida: minha mãe.

É uma divindade que agrega seus amores e suas mulheres — teve três mulheres: Mãe Oyá, Mãe Oxum e Mãe Obá. É ligada à justiça e traz essas mulheres para a luta junto com ele. Você sempre verá pessoas de Xangô com muita gente, porque é uma divindade política, articula para ganhar reinados. Reconhecemos essas características nas pessoas de Xangô. Seu machado é um instrumento de luta, mas também que separa o bem do mal e faz com que o bem vença.

Quando falamos de Xangô, precisamos falar de luta, de justiça, de igualdade, de equidade e de toda a estratégia que ele usa para vencer, inclusive os grandes amores dele, essas mulheres que vão junto para a conquista dos reinados. Isso me leva para um lugar de afeto. Mesmo quando está parado, Xangô observa para garantir a justiça ao outro. Um dos maiores legados de Xangô é ser esse homem justo e promover para o outro justiça e calor, que foi o legado da minha mãe: busca por justiça para ela e para os outros. Xangô luta por um reinado, por um lugar onde as pessoas possam ficar contra os inimigos, com dignidade. Na minha mãe é isso também. Estamos sempre muito próximos dessas qualidades do orixá — qualidade no sentido de ser esse rei que promove a busca por justiça.

* “Terreiros Urbanos em São Paulo” é uma produção do CPMídias e Brasil de Fato, com realização da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Governo do Estado de São Paulo.

Editado por: Thaís Ferraz

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