RECURSO PÚBLICO

Verbas da reconstrução no RS teriam financiado empreendimentos turísticos de alto padrão

Denúncia aponta uso de fundo das enchentes para resorts; governo nega desvios

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Empreendimentos turísticos na Serra Gaúcha estão entre os projetos analisados para receber subsídios do programa estadual
Empreendimentos turísticos na Serra Gaúcha estão entre os projetos analisados para receber subsídios do programa estadual | Crédito: Rafael Cavalli

A destinação de recursos públicos criados para a recuperação das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 passou a ser questionada após denúncia apresentada pela deputada estadual Laura Sito (PT) ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) e ao Tribunal de Contas do Estado (TCE). A parlamentar solicita investigação sobre o uso de verbas do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs) em projetos turísticos voltados ao público de alta renda, sem relação direta com os impactos da tragédia climática.

O questionamento envolve a previsão de até R$ 200 milhões do fundo para subsidiar juros de financiamentos a grandes empreendimentos turísticos por meio do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prograntur). Entre os projetos listados estariam resorts e complexos hoteleiros na Serra Gaúcha, incluindo iniciativas planejadas há anos e que não teriam sido diretamente afetadas pelas enchentes.

Segundo Laura Sito, o direcionamento dos recursos contraria a finalidade do fundo. A deputada afirma que há um descompasso entre a destinação prevista e a situação de milhares de famílias que seguem fora de suas casas ou aguardam soluções habitacionais definitivas após as enchentes. A parlamentar também aponta que parte dos empreendimentos contemplados já estava em fase de planejamento antes dos eventos climáticos, o que, em sua avaliação, reforça a necessidade de apuração sobre possível desvio de finalidade.

Estrutura do fundo e objetivos oficiais

Criado em maio de 2024, o Funrigs reúne recursos provenientes, entre outras fontes, da suspensão temporária do pagamento da dívida do Estado com a União. O fundo foi concebido para financiar o Plano Rio Grande, que inclui ações de reconstrução de infraestrutura, recuperação de serviços públicos, assistência às populações atingidas e iniciativas de desenvolvimento econômico.

A legislação que estrutura o fundo prevê aplicação em áreas como mobilidade urbana e rural, saúde, educação, segurança pública e resiliência climática. Também contempla medidas voltadas à retomada econômica do Estado após os eventos extremos de 2023 e 2024.

É nesse último eixo que o governo estadual enquadra o Prograntur. Instituído por decreto em agosto de 2025, o programa tem como objetivo estimular investimentos privados no setor turístico por meio da concessão de subsídios em operações de crédito. Os projetos elegíveis devem apresentar investimento mínimo de R$ 50 milhões.

Empreendimentos e concentração de recursos

De acordo com a denúncia apresentada, ao menos seis grandes projetos turísticos estariam entre os possíveis beneficiários dos subsídios, incluindo hotéis e resorts de padrão elevado na região de Gramado e arredores. A crítica apresentada pela parlamentar aponta que a concentração dos recursos em poucos empreendimentos de grande porte pode limitar o alcance das políticas públicas de reconstrução.

Laura Sito argumenta que iniciativas localizadas em regiões diretamente atingidas pelas enchentes ou voltadas à recuperação de pequenos negócios poderiam gerar impacto mais amplo na retomada econômica. A deputada também menciona a existência de demandas não atendidas, como apoio a comerciantes que perderam suas atividades e não se enquadram em programas federais, além da necessidade de investimentos em habitação e infraestrutura de proteção contra novos eventos climáticos.

Posição do governo estadual

Em resposta às críticas, o governo do Rio Grande do Sul nega irregularidades e afirma que não houve repasse financeiro aos empreendimentos mencionados até o momento. Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, todos os projetos vinculados ao Prograntur estão em fase de análise técnica, financeira e jurídica.

A pasta sustenta que o uso dos recursos está alinhado às diretrizes do Funrigs, que incluem não apenas ações emergenciais, mas também estratégias de recuperação econômica. De acordo com o governo, o turismo é considerado um setor estratégico por sua capacidade de geração de empregos e dinamização de cadeias produtivas regionais.

Ainda segundo o Executivo, o programa foi estruturado com critérios que levam em conta viabilidade econômica, impacto na geração de renda e potencial de atração de visitantes. A administração estadual também destaca que a iniciativa foi oficialmente publicada e divulgada, seguindo normas de transparência.

Execução do plano de recursos

O governo estadual informa que o Plano Rio Grande reúne cerca de R$ 14 bilhões destinados a mais de duas centenas de ações de reconstrução. Desse total, aproximadamente R$ 4,2 bilhões já teriam sido pagos em iniciativas voltadas diretamente à população, enquanto o restante está vinculado a projetos em andamento.

A gestão estadual argumenta que a recuperação após eventos climáticos envolve múltiplas frentes e que a retomada da atividade econômica é parte do processo de reconstrução. Nesse sentido, o incentivo a investimentos privados, incluindo no setor turístico, é apresentado como complementar às ações emergenciais e sociais.

Encaminhamentos e fiscalização

Além dos pedidos protocolados no Ministério Público Estadual e no Tribunal de Contas do Estado, a deputada também indica a intenção de acionar o Ministério Público Federal e o Ministério da Fazenda. Este último tem atribuição de fiscalização sobre a aplicação de recursos relacionados à suspensão da dívida estadual, conforme legislação recente.

Os órgãos de controle deverão avaliar se a destinação dos recursos está de acordo com os objetivos legais do fundo e com os critérios estabelecidos para sua aplicação. Até o momento, não há decisão sobre a abertura formal de investigação ou eventuais medidas cautelares.

Editado por: Gilson Camargo

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