Editorial

Crimes de Maio: o massacre que o Brasil ignora

Como remédio para esse esquecimento, o Brasil de Fato e a Ponte Jornalismo lançaram, neste mês, o podcast Crimes de Maio

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Crimes de Maio, com mais de 500 mortes, completam 20 anos
Crimes de Maio, com mais de 500 mortes, completam 20 anos | Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

Um célebre escritor e jornalista brasileiro chamado Eric Nepomuceno definiu o nosso país como o da amnésia, em uma entrevista ao Brasil de Fato. Ele citava o massacre de Eldorado do Carajás, quando 21 sem-terra foram brutalmente assassinados pela PM do Pará por realizarem uma passeata pacífica pela reforma agrária, em 17 de abril de 1996. 

Da zona rural à urbana, do campo à cidade, o Brasil repete a tal da amnésia citada por Nepomuceno. O que aconteceu há 20 anos, em maio de 2006, em São Paulo (SP), foi esquecido pelo país. Centenas de jovens negros foram assassinados sem sequer saberem o motivo pelo qual eram baleados pelas costas ou rendidos no chão. 

Aqui digo centenas porque, de fato, ninguém sabe ao certo quantos foram mortos. Foram mais de 500, mas até isso o Estado brasileiro se esforça em ignorar: a dimensão do crime que cometeu e o mínimo respeito com as vítimas.

Como remédio para esse esquecimento, o Brasil de Fato e a Ponte Jornalismo lançaram, neste mês, o podcast Crimes de Maio. O trabalho está dividido em cinco episódios, lançados semanalmente (já foram dois, temos mais três), disponíveis nas plataformas de podcast, no YouTube e nos sites dos veículos.

O ponto de partida do podcast é discutir a memória que a população, no geral, tem do que foi essa semana trágica para a história do país. O lugar comum é que uma série de rebeliões e motins do Primeiro Comando da Capital (PCC) causaram a morte de dezenas de policiais, que apenas responderam aos ataques, o que levou à morte de bandidos.

Contestar a versão oficial é um desafio; afinal, muitos assassinatos foram ocultados, tiveram a cena alterada ou corpos levados antes da perícia. Mas que a verdade seja dita: sabemos que não eram bandidos, a grande maioria era inocente, apenas mais jovens negros de periferias do país. Como Edson Rogério Silva dos Santos, filho da revolucionária Débora Maria da Silva, uma das fundadoras do movimento Mães de Maio.

Inclusive, essa é a principal chama de esperança que resiste em meio a mais uma tragédia brasileira. O que surgiu deste massacre é único e persevera até hoje.

Editado por: Geisa Marques

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