O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou força no Congresso Nacional após o envio, pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do projeto de lei que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem redução salarial. A proposta, que prevê dois dias de descanso remunerado por semana, é tratada pelo líder do governo, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), como uma das principais medidas de valorização da classe trabalhadora em 2026.
Na entrevista a seguir, Pimenta fala sobre os impactos da medida na vida dos trabalhadores, rebate críticas do setor empresarial, destaca experiências internacionais e reforça o compromisso de votação do projeto ainda neste semestre.
Brasil de Fato – O governo federal lançou oficialmente uma campanha pelo fim da escala 6×1. Por que esse tema se tornou prioridade neste momento?
Paulo Pimenta – Porque estamos falando da vida concreta de milhões de trabalhadores e trabalhadoras brasileiros. O modelo 6×1 impõe uma rotina extremamente desgastante, especialmente para quem recebe os menores salários. São pessoas que passam horas no transporte, saem de casa muito cedo, voltam à noite e têm apenas um dia de descanso para cuidar da família, da casa e de si mesmas. O Brasil já amadureceu esse debate. E já tem uma estrutura econômica capaz de resolver este problema. É hora de garantir mais equilíbrio entre trabalho, descanso e convivência familiar.
“O mundo inteiro está discutindo novas formas de organização do trabalho, impulsionadas pelas mudanças tecnológicas e pelos ganhos de produtividade”.
O senhor costuma dizer que essa é uma pauta histórica do movimento sindical. Qual o papel das entidades sindicais nesse debate?
Fundamental. Nenhum direito trabalhista foi conquistado sem organização e luta coletiva. O movimento sindical tem um papel decisivo nessa construção, porque conhece a realidade de quem está na base do mundo do trabalho. Tenho destacado muito a importância da unidade das centrais sindicais e também feito questão de homenagear o senador Paulo Paim (PT-RS), que dedica sua vida à defesa e ampliação dos direitos dos trabalhadores.
O projeto prevê redução da jornada sem corte de salários. Empresários argumentam que isso pode gerar aumento de custos. Como o governo responde a essas críticas?
Primeiro, com dados concretos. Um estudo do Ipea mostra que o impacto direto da redução da jornada para 40 horas semanais seria inferior a 1% nos custos operacionais das empresas. Além disso, vários países já avançaram nessa direção e colheram resultados positivos. Quando o trabalhador tem mais qualidade de vida, há redução de afastamentos, melhora da produtividade, queda da rotatividade e aumento do consumo. Não se trata de trabalhar menos, mas de trabalhar melhor.
“As jornadas mais pesadas recaem justamente sobre os trabalhadores mais vulneráveis: mulheres, trabalhadores do comércio, dos serviços, domésticas, pessoas com baixa renda e pouca proteção social”.
Há exemplos internacionais que inspiram essa proposta?
Sim. O Chile, a Colômbia e o México avançaram recentemente nesse debate. Na Europa, jornadas de 40 horas ou menos já são predominantes. Países como Islândia, Reino Unido e Portugal fizeram experiências importantes e registraram redução do burnout, melhora na saúde mental e manutenção da produtividade. Ou seja: o mundo inteiro está discutindo novas formas de organização do trabalho, impulsionadas pelas mudanças tecnológicas e pelos ganhos de produtividade. O Brasil não pode ficar para trás.
O senhor destacou que a maioria dos trabalhadores submetidos à escala 6×1 pertence às faixas de menor renda. Isso também transforma a proposta em uma medida de combate às desigualdades?
Sem dúvida. As jornadas mais pesadas recaem justamente sobre os trabalhadores mais vulneráveis. Muitas vezes são mulheres, trabalhadores do comércio, dos serviços, domésticas, pessoas com baixa renda e pouca proteção social. Reduzir a jornada sem reduzir salários é uma forma de melhorar a qualidade de vida e garantir mais dignidade. Estamos falando também de justiça social.
“O trabalhador não é uma peça descartável da engrenagem econômica. Ele precisa ter condições de viver com qualidade, esperança e perspectiva de futuro”.
O governo acredita que há condições políticas para aprovar o projeto ainda neste semestre?
Esse é o compromisso do governo do presidente Lula e dos partidos do campo popular. Nós queremos votar essa matéria até junho. Evidentemente, um debate dessa dimensão exige diálogo e construção de consenso, mas existe uma compreensão crescente na sociedade de que essa mudança é necessária. Estamos falando de uma medida moderna, justa e plenamente viável para a economia brasileira.
A campanha do governo usa o slogan “Mais tempo para viver”. O que isso representa na prática?
Representa compreender que a vida das pessoas não pode se resumir ao trabalho. Tempo com a família, descanso, cultura, lazer, estudo, cuidado com a saúde… tudo isso também faz parte da dignidade humana. Quando defendemos o fim da escala 6×1, estamos defendendo um modelo de desenvolvimento que coloca as pessoas no centro. O trabalhador não é uma peça descartável da engrenagem econômica. Ele precisa ter condições de viver com qualidade, esperança e perspectiva de futuro.
Qual mensagem o senhor deixa para os trabalhadores que acompanham esse debate?
Quero dizer que essa luta vale a pena e que ela precisa continuar mobilizando a sociedade. Nenhuma transformação acontece sem participação popular. Estamos juntos, na mesma trincheira, lutando contra a precarização e em defesa dos direitos da classe trabalhadora. O Brasil está preparado para dar esse passo histórico.
