ARTIGO

Neonazismo e extrema direita em Santa Catarina

Quatro elementos podem nos ajudar a entender como o estado se tornou referência da extrema direita no Brasil

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Bandeira do estado de Santa Catarina
Bandeira do estado de Santa Catarina | Crédito: Reprodução/Site/Governo de SC

Alguns estudos já sugeriram que o nazismo nunca desapareceu completamente do cenário político europeu e mundial. Quando a Guerra Fria começou a dar seus primeiros sinais, os conhecimentos e as práticas de contenção dos movimentos de esquerda, dos sindicatos e dos movimentos sociais de massa, desenvolvidos pelos governos nazifascistas, passaram a ser não apenas reproduzidos, mas também, em muitos casos, operados pelos agora ex-nazistas e ex-fascistas que os haviam criado e desenvolvido nas décadas de 1930 e 1940. Foi nesse contexto também que empresários e cientistas, os quais haviam servido à política de extermínio dos regimes nazifascistas, passaram a encontrar uma função útil nos “anos dourados” da sociedade de consumo capitalista. Entretanto, por algumas décadas, os “ex-nazifascistas” mantiveram certa discrição, tanto sobre suas organizações semiclandestinas quanto sobre a expressão pública de suas opiniões.

Na Europa e nos EUA, manifestações públicas de simpatia pelo nazifascismo só começam a aparecer em público e a ser toleradas pelos governos na década de 1970. No Brasil, o registro de células neonazistas surge apenas nos anos de 1980 com o movimento skinhead. Antes dos anos 1980, não há registros nem estudos sobre sua existência entre nós. Portanto, parece plausível sugerir que é a conjuntura de estagnação econômica e a incerteza política do período de redemocratização, bem como a inspiração vinda da Europa e dos EUA, que deram origem a essa forma de organização política no Brasil. No livro “As tribos do mal”, Helena Salém menciona a existência de 12 grupos neonazistas em atividade no Brasil na década de 1980, localizados em São Paulo e no sul do país. Esses grupos se dedicavam basicamente à imprecação contra nordestinos, homossexuais, negros e judeus, considerados responsáveis pelo atraso econômico do país, aparentemente qualquer hierarquia entre esses grupos. No final dessa década, estudos da antropóloga Adriana Dias já apontavam a existência de “pelo menos 90 mil pessoas (…) diretamente envolvidas em grupos neonazistas, cerca de metade delas no estado de Santa Catarina”. Os grupos proliferavam rapidamente.

Em 1988, a nova Constituição Federal estabeleceu como imprescritíveis e inafiançáveis os crimes de racismo. Até então, tais crimes de ódio eram tratados apenas como injúria. Mesmo assim, na década seguinte, esse tipo de crime aumentou exponencialmente. De 2002 a 2009, o número de sites na internet que veiculavam informações de “interesse neonazista” subiu 170%, saltando de 7.600 para 20.502. No mesmo período, os comentários em fóruns sobre o tema neonazismo cresceram 42.585%, enquanto os blogs com referência ao neonazismo cresceram 550%.

Uma década depois, em 2019, a antropóloga Adriana Dias revelou que já existiam 334 células ativas em todo país. Em 2021, seu número saltou para 530 células; em 2022 novo salto para 1.117 células. O sul do Brasil respondia por ⅔ dessas células, aproximadamente 744. E apenas em Santa Catarina havia mais de 300 grupos ativos. Entretanto, esse não é um fenômeno apenas brasileiro. A antropóloga estimava que, em 1995, aproximadamente 25 mil estadunidenses seriam membros atuantes em grupos de expressão neonazista, mas, no ano 2000, meio milhão de pessoas acessavam, diariamente, literatura de cunho neonazista no país. Esse crescimento exponencial teve desdobramentos concretos: os “crimes que envolvem ódio racial, nos Estados Unidos, crescem em cerca de 8.000 casos por ano.”

A multiplicação de grupos neonazistas e o recrudescimento da intolerância política são fenômenos mundiais. Há registros dessa disseminação em toda a Europa, no Japão, na África do Sul e na América Latina, mas o principal foco de preocupação das autoridades naquela década — que chegou a originar um relatório das Nações Unidas —, foi o Leste Europeu, sobretudo depois de 1989. Não restam muitas dúvidas de que as células neonazistas se espalharam com grande velocidade, e de forma capilar, a partir da década de 1980. Por quê?

Nos últimos 40 anos vivemos uma nova e profunda reestruturação do capitalismo, caracterizada pela produção just in time, a mão de obra multifuncional, a flexibilização dos contratos e a transferência em massa de empresas de países capitalistas centrais para aqueles nos quais a mão de obra é miseravelmente paga. A isso se deu o nome de globalização. Presenciamos, também, o fortalecimento, o vigor e a confiança militante da alta burguesia, retomando as rédeas da ação pública, desde que o Estado de bem-estar social limitou a sua ação. A esse conjunto de novas ações, costumamos dar o nome de neoliberalismo. A expansão da informalidade foi o resultado das transformações do mundo do trabalho nessas quatro décadas. Aumenta, ano a ano, o número de trabalhadores informais e daqueles que jamais voltarão a encontrar um emprego com registro em carteira ao longo de suas vidas. A estabilidade é uma condição cada vez mais rara na experiência de trabalho de homens e mulheres: insegurança e instabilidade são as experiências mais comuns para quem ingressa hoje no mercado — a esse fenômeno damos o nome de precarização. Essas incertezas levam os sujeitos a uma série de experiências cotidianas de desamparo e opressão, que obstruem as possibilidades de uma identidade segura e o desenvolvimento pessoal por meio do trabalho, impedindo qualquer estilo de vida coletivo e compartilhado.

É possível sugerir que temos vivido uma era de fenômenos políticos regressivos, de expansão de valores obscurantistas e de crescente conservadorismo político em todas as esferas da vida. Do fundamentalismo religioso ao relativismo pós-moderno, da crise da representação democrática à expansão do negacionismo, da disseminação das fake news à descrença na ciência; do triunfo da empreendedorismo de si à descrença em quaisquer ações coletivas e de solidariedade, numa espécie de naturalização da desigualdade, da violência, do racismo, da homofobia, do misticismo, do individualismo ‒ todos, em conjunto, respondendo às transformações da nova fase do capitalismo na vida política, econômica e cultural. Há quem sugira que a “razão” esteja novamente sob ataque, como esteve na ascensão do nazifascismo nos anos 1920. Mas, se naquele contexto era o Iluminismo que estava sub judice, hoje me parece que vivemos um fenômeno distinto: não se trata de um ataque simples e direto à razão, mas de uma tentativa, sem máscaras ou disfarces, de instrumentalizar a razão e submetê-la à lógica da acumulação de capital. A única razão respeitável hoje é a razão da mercadoria.

A década de 1980 testemunhou profundas transformações não apenas na forma de produzir e distribuir as mercadorias, mas sobretudo no modo de estar no mundo. Os desdobramentos desses fenômenos — distintos, mas conectados — alteraram profundamente o cenário político mundial. A crise econômica que marcou os anos 1970, sobretudo as alternativas que foram implementadas para superá-la, empurraram todo o espectro político internacional para a direita, incluindo os partidos de esquerda e a social-democracia, que, literalmente, se esfarelou nesse processo. Uma vez no governo, os partidos de centro, de esquerda ou de direita foram ficando cada vez mais indistinguíveis. A queda do muro de Berlim e o fim do “socialismo real”, em novembro de 1989, ajudaram a borrar ainda mais esses contornos, a ponto de alguns sugerirem que a história havia chegado ao fim. Vamos tentar pensar separadamente esses fenômenos vividos simultaneamente e embaralhados.

As forças políticas de direita sempre tiveram uma presença muito forte no estado de Santa Catarina. A Ação Integralista Brasileira (AIB) foi um partido político criado em 1932, com forte inspiração no partido fascista italiano, no momento de uma crise profunda do liberalismo que se estendia desde a eclosão da 1ª Guerra Mundial em 1914. A partir daí, produziu-se uma clivagem irreconciliável: de um lado, as forças da revolução comunista, que tomaram o poder na Rússia em 1917; de outro, as forças da reação que chegaram ao poder na Itália em 1922, com Benito Mussolini e, em 1933, na Alemanha, com Adolf Hitler. Nesse contexto, o liberalismo esfarelou-se como alternativa política. Os estudos mostram que a adesão ao nazifascismo é resultado, sobretudo, do medo. Medo do comunismo; medo das transformações do capitalismo que originaram o capital monopolista e das gigantescas empresas de sociedade anônima em que o homem comum se via como mera, e dispensável, engrenagem; medo do liberalismo que foi responsabilizado pela tragédia da I Guerra Mundial e seus 9 milhões de mortos e 6 milhões de mutilados. O medo, logo ficou evidente, é um poderoso instrumento de mobilização política.

O Brasil não ficou imune a essa polarização esquerda versus direita. Em maio de 1922, foi fundado o Partido Comunista do Brasil (PCB), e, em 1932, a AIB. O PCB se apresentava como a sessão brasileira da Internacional Comunista, enquanto o Ação Integralista Brasileira se apresentava como um partido profundamente nacionalista, que recusava todas as influências estrangeiras. Santa Catarina aparece como um dos três estados brasileiros que, na década de 1930, organizaram os maiores e mais atuantes núcleos da AIB. Em todo o país, o Partido Integralista chegou a ter 1.250.000 membros; em Santa Catariana, foram aproximadamente 300 mil integrantes. É desconcertante, mas precisamos reconhecer: a AIB, um partido abertamente fascista, ainda é o maior partido de massas da história do Brasil. E o maior partido de massas da história de Santa Catarina.

Até aqui os dados nos ajudam a entender uma mudança global que favoreceu o aumento da religiosidade, o estímulo à desinformação e a descrença na ciência e na democracia. Esse quadro nos auxilia na compreensão da emergência e ascensão da extrema-direita, da proliferação da intolerância, do racismo, da xenofobia, do sexismo, assim como a disseminação dos grupos neonazistas. Mas precisamos ainda entender por que o estado de Santa Catarina tem sido protagonista nesses retrocessos.

Vou apresentar quatro hipóteses: a primeira hipótese diz respeito à propriedade da terra. Santa Catarina sempre foi o paraíso da pequena propriedade, num país de latifúndios. Contudo, entre 1985 e 2006, houve uma redução de 41,3 mil unidades agrícolas no estado.O censo agropecuário de 2017 apontou que a agricultura familiar e as pequenas propriedades representavam ainda 78% das propriedades rurais de Santa Catarina. Entretanto, em 2006, a agricultura familiar representava 87% e, em 1995, alcançava 96%. Ou seja, entre 1995 e 2017, desapareceram 18% das pequenas propriedades rurais familiares, enquanto a área agrícola cultivada, no mesmo período, aumentou aproximadamente 10%. Uma consequência direta disso é que, em uma década — entre 2000 e 2010 —, a população rural de Santa Catarina reduziu 12,1% e a urbana cresceu 24,4%. São dois fenômenos correlatos: Santa Catarina está deixando de ser o paraíso da pequena propriedade e a concentração da propriedade está se acelerando. Quem perde o acesso à terra faz o quê? Ou se torna assalariado no meio rural ou migra para as cidades. Mas, em ambos os casos, é de se supor que essa situação gere muita insatisfação e que ela seja canalizada contra alguém, que será responsabilizado por essa experiência de perda, de queda na qualidade de vida.

A segunda hipótese remete ao estudo da antropóloga Giralda Seyferth e sua noção de colono-operário. Ela estudou sobretudo a região nordeste do estado de Santa Catarina e mostrou que as famílias numerosas e a pequena propriedade empurravam — entre o plantio e a colheita — uma parte dos colonos para o trabalho industrial. Para esses colonos, a referência continuava sendo o trabalho no campo, a fábrica era sempre entendida como provisória nas suas vidas. Exatamente por isso, eles nunca se identificavam como operários ou se envolviam com a organização operária. Isso, ao menos em parte, ajuda a entender a baixa ocorrência de greves em Santa Catarina. Contudo, quando se perde o acesso à propriedade e não se tem mais terra para a qual voltar, para onde se dirige o descontentamento e a insatisfação?

A terceira hipótese diz respeito ao fato de que Santa Catarina, muito provavelmente, é o estado brasileiro que mais se identifica como europeu. Isso aparece na propaganda tanto de governos municipais quanto do estadual. É como o estado se exibe no cenário nacional e se apresenta na indústria do turismo. Paradoxalmente, isso foi acentuado nos últimos 40 anos com as grandes enchentes no vale do Itajaí de 1983. A recuperação das cidades (com a ajuda do governo alemão) e a criação da Oktoberfest (apresentada como a maior festa alemã fora da Alemanha) reforçam a autoimagem de Santa Catarina como o estado mais europeu e mais alemão do Brasil. São conhecidos os casos em que as prefeituras da região do vale do rio Itajaí-açu oferecem isenção de impostos para quem construir casas no estilo “alemão enxaimel” — embora aquilo que se apresenta como estilo alemão seja uma “tradição inventada”, muito usada pela indústria do turismo. E como o diabo mora nos detalhes, as pessoas começam a acreditar e a levar a sério o que a indústria do turismo vende como uma mercadoria. Isso dá origem a uma autoimagem dos catarinenses e a uma imagem que o restante do Brasil compra de Santa Catarina, como se fosse o estado mais alemão, mais trabalhador, mais sério ‒ diferente dos outros: com mais progresso e cultura, com menos miscigenação, mais branco. Um estado no qual a presença negra foi irrelevante. É possível supor que a intolerância racial crescente em Santa Catarina esteja fundamentada no fato de que parte significativa da sua população se veja como “quase europeia”, de modo que essa autoimagem alicerça um terreno no qual um povo branco e descendente de europeu se vê ameaçado em seu próprio estado, em seu próprio país.

A quarta hipótese diz respeito ao progressivo abandono dos governos de esquerda pela população de Santa Catarina. É preciso lembrar que Luiz Inácio da Silva venceu a eleição presidencial no estado em 2002: ele obteve 56% dos votos válidos no primeiro turno, a maior votação do país. Na eleição de 2006, o eleitorado catarinense migrou fortemente para o centro, dando a Geraldo Alckmin 57,2% dos votos no primeiro turno, a maior vitória do PSDB no Brasil. Em 2010, Dilma Roussef recebeu 38.71% dos votos válidos e José Serra, 45,77%. Em 2014, Dilma recebeu 35,41% e Aécio Neves, 64,59% dos votos válidos. Em 2018, Jair Bolsonaro recebeu 65,82% no estado, a sua maior votação em todo o país no primeiro turno. Em 2022, manteve uma votação expressiva: 62,21%. Como se percebe, foi uma transformação lenta mas persistente. É possivel sugerir que essa mudança represente o crescente abandono do campo da esquerda pelas classe médias. Resultado de uma percepção de que os governos petistas favoreciam, simultaneamente, os mais pobres (seja com o bolsa-família, seja com as políticas compensatórios) e os mais ricos (bancos e a grande indústria), abandonando as classes médias — basta considerar que as tabelas do imposto de renda se mantiveram constantes em todo o ciclo. Por outro lado, a pequena melhora nas condições de vida dos trabalhadores tornou mais caros os serviços para a classe média (empregados domésticos, manicure, etc.) Por fim, essa pequena melhora na condição de vida dos trabalhadores diminuiu a sua distâncias em relação às classes médias, que reagiram apavoradas com a “perda” dos seus privilégios (basta lembrar da postagem da professora universitária no aeroporto de Brasília, criticando um sujeito viajando de sandálias havaianas) e com o ardor renovado com que defendiam a meritocracia. Afinal, as políticas de reparação, implementadas pelos governos de esquerda, foram sentidas como um total desrespeito e uma intromissão indevida no mérito, tão arduamente conquistado pelas classe médias.

No conjunto, esses quatro elementos podem nos ajudar a entender que foram transformações estruturais e conjunturais que levaram Santa Catarina a se tornar hoje a maior referência da extrema direita no Brasil. Como não há nada de natural ou genético nessa guinada, mudanças políticas e transformações estruturais podem reverter esse quadro.

* Adriano Luiz Duarte é professor de história do Brasil e história contemporânea na Universidade Federal de Santa Catarina

**  Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato

Editado por: Thaís Ferraz

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