Adaptação climática

‘Tudo vai depender’: Brasil encara despreparo e desigualdade diante de possível Super El Niño

Debate virtual alertou para os impactos climáticos e cobrou políticas públicas diante da ameaça de eventos extremos

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Cenários de seca, queimadas e redução da umidade do ar preocupam especialistas diante da possibilidade de eventos climáticos extremos.
Cenários de seca, queimadas e redução da umidade do ar preocupam especialistas diante da possibilidade de eventos climáticos extremos. | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil vive um cenário de incertezas climáticas diante da possibilidade de um Super El Niño ainda neste ano. Um debate virtual promovido nesta sexta-feira (22) pelo Fórum de Defesa das Águas, do Clima e do Meio Ambiente do DF reuniu 59 lideranças ambientalistas, pesquisadores e representantes do poder público para discutir os impactos do fenômeno, sobretudo no Cerrado. O consenso entre os participantes foi de que, além da ameaça climática, o país enfrenta um grave despreparo para lidar com eventos extremos.

A doutora em climatologia Karina Bruna Lima explicou que o país atravessa o chamado período de “barreira de previsibilidade”, fase em que os modelos climáticos ainda apresentam um grau muito alto de incerteza.

“Nesse momento, a gente ainda não tem um El Niño totalmente caracterizado. A gente já tem umas anomalias, já está esquentando o oceano, mas para que seja um El Niño, a gente tem que ter outras condições. E a gente não tem como prever exatamente”, afirmou.

Segundo a pesquisadora, os modelos meteorológicos apontam maior probabilidade para um evento intenso. “Os modelos estão cada vez mais confiantes de que vai ser um El Niño muito forte, um Super El Niño. Mas é importante também ressaltar: tudo vai depender de como o cenário vai evoluir, ninguém ainda pode cravar a intensidade”, disse.

O coordenador de enfrentamento às mudanças climáticas da Secretaria de Meio Ambiente do DF (Sema-DF), André Souza, destacou que a região central do país tem características que potencializam os impactos climáticos.

“Nós estamos numa área de transição, então ela tem diversos elementos que fazem com que os eventos se intensifiquem ainda mais. Particularmente, nós estamos numa área de Planalto, na interface entre a Amazônia e a Mata Atlântica”, analisou.

Ele alertou que o El Niño tende a reduzir as chuvas e agravar períodos de seca no Cerrado. “O El Niño para a gente vai reduzir as chuvas. As secas podem se tornar mais severas. Observamos até uma umidade atmosférica na faixa de 9%, que é inferior a níveis desérticos”, afirmou.

Cerrado sob pressão

Entre as principais preocupações está o aumento do risco de incêndios florestais no Distrito Federal. O coordenador afirmou que a combinação entre vegetação seca, altas temperaturas e ventos transforma o território brasiliense em uma área altamente vulnerável. “O DF acaba se transformando numa caixa de fósforos naturais, porque nós temos grande parte da nossa área com unidades de conservação e reservas”, disse.

Como resposta preventiva, o governo do DF publicou uma portaria de emergência climática voltada ao enfrentamento de incêndios florestais. “Isso é importante porque faz com que as medidas relacionadas aos incêndios florestais que possam acontecer nos próximos meses tornem o seu combate mais eficiente”, explicou.

A coordenadora do Fórum Defesa das Águas e presidente da Preserva Serrinha, Lúcia Mendes, criticou o que considera ausência de preparo do poder público diante dos alertas climáticos. “Eu ainda estou no modo sociedade civil furiosa, porque a gente tem que cobrar os nossos governantes. A gente recebe alertas de ventos fortes e temporal, e me dá vontade de perguntar: para onde que eu corro?”, questionou.

Ela também chamou atenção para os impactos desiguais das ondas de calor sobre a população mais pobre. “Eu fico pensando nas pessoas nos ônibus de Brasília e nas escolas públicas em salas que não têm ar condicionado. Nós já tivemos um cenário de calor que chegou a 40º, que para nós brasilienses isso é um absurdo”, afirmou.

Para Karina Lima, a desigualdade social é um dos principais fatores que determinam quem sofrerá mais os efeitos da crise climática. “A questão climática nos mostra como a desigualdade social é um fator extremamente importante nos impactos. Todos seriam afetados em algum grau, mas os mais vulneráveis, os mais pobres, serão mais afetados”, analisou.

André Souza também relacionou o avanço urbano desordenado ao agravamento das chamadas “ilhas de calor” em regiões como Ceilândia e Taguatinga, regiões administrativas do DF. “O friozinho que a gente ainda sente um pouco de manhã, ele tá indo embora por conta dessas questões climáticas”, lamentou.

Adaptação e agroflorestas

No debate, a agricultura familiar apareceu tanto como setor vulnerável quanto alternativa para enfrentar a crise climática. A agricultora e pesquisadora Sofia Carvalho, mestre em Sistemas Agroflorestais, defendeu que as políticas de mitigação sejam tratadas como prioridade.

“Soluções a gente já tem, não precisamos inventar tudo do zero. Precisamos direcionar nossa energia tanto para os riscos que estão no horizonte quanto para as potencialidades que já existem”, afirmou.

Carvalho apresentou dados de pesquisas realizadas no Distrito Federal que conseguiram verificar o potencial das agroflorestas no sequestro de 37 toneladas de carbono por hectare em um ano. “Isso é mais do que o dobro da meta estipulada para o plano Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (ABC)”, destacou.

Os participantes também ressaltaram que parte significativa dos incêndios florestais tem origem em ações humanas e defenderam maior engajamento da população na preservação ambiental. “Não basta termos os planos publicados. Cada um de nós tem que fazer seu dever de casa e tentar engajar com os que estão próximos a nós, de forma que essas medidas possam se tornar mais efetivas”, afirmou André Souza.

Ao encerrar o debate, Karina alertou que o El Niño atua como agravante de uma crise climática já em curso. “A cada evento de El Niño a gente está mais preocupado. Tem algo potencializando tudo, que são as mudanças climáticas. Precisamos de gente no poder que veja isso como a prioridade que é”, enfatizou.

A preservação do Cerrado foi apontada como elemento central para a sobrevivência hídrica e climática do Distrito Federal. “A gente tem que proteger o Cerrado, não apenas para manter uma foto, mas para nós termos ele como um organismo vivo. E nós somos um elemento também importante desse Cerrado”, concluiu André.

Para as lideranças presentes, enfrentar os impactos da crise climática passa por organização popular, participação política e pressão social sobre os governos. “O que a gente pode fazer enquanto cidadão é o voto e, além do voto, é a nossa mobilização, a nossa organização, o nosso aprendizado sobre os nossos territórios”, finalizou Lúcia Mendes.


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Editado por: Clivia Mesquita

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