trio de cordas

Arte milenar da luteria resiste no Centro de SP e desperta curiosidade de quem frequenta o Minhocão

Entre a capital paulista e Cremona, na Itália, luthier André Amaral faz da construção de violinos uma cena urbana

No audio source provided.
O luthier André Amaral em sua janela de frente para o minhocão
O luthier André Amaral em sua janela de frente para o minhocão. | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

No Centro de São Paulo (SP), uma janela voltada para o Minhocão transformou um ofício antigo em parte da paisagem cotidiana da cidade. Do lado de dentro, entre madeiras, arcos, ferramentas e instrumentos em diferentes etapas de construção, o luthier André Amaral trabalha na fabricação e no restauro de violinos, violas e violoncelos. Do lado de fora, pedestres, ciclistas e frequentadores do elevado observam, tiram fotos e, às vezes, param para acompanhar a cena.

Em meio ao fluxo urbano do Minhocão, André constrói violinos, violas e violoncelos — o trio de cordas de uma orquestra — a partir de uma técnica milenar, aprendida entre o interior de São Paulo e Cremona, na Itália, cidade conhecida como um dos berços mundiais da luteria e terra de Antonio Stradivari.

“Logo que eu vi, falei: ‘isso aqui tem um potencial enorme, porque olha a quantidade de carro que passa aqui’. E aí foi sensacional. Hoje em dia as pessoas me conhecem, mas sem saber que sou eu”, conta. “Eu estava num projeto na Sala São Paulo, onde já construí dois violinos lá dentro, e muita gente chegava e falava: ‘tem um luthier no Minhocão, tem um ateliê bonito ali’. Eu respondia: ‘acho que você está falando com ele’.”

A relação com quem passa pelo elevado também já rendeu contatos profissionais. Segundo André, há violinistas que correm ou caminham pelo Minhocão, veem o ateliê, tiram fotos, chamam sua atenção pela janela e depois procuram o trabalho. “Já passei contato aqui, já até vendi violino aqui”, brinca.

De Tatuí a Cremona

A trajetória de André na luteria começou pela música. Ainda criança, ele se interessou por concertos exibidos na televisão e por um violino guardado em casa. Mais tarde, já adolescente, estudou o instrumento e passou a se interessar não apenas por tocá-lo, mas por entender sua construção.

A virada aconteceu a partir de uma conversa com um professor húngaro, que percebeu o interesse do aluno pelo funcionamento do violino. “Eu comentei com esse professor que tinha vontade de construir meu instrumento. Ele falou: ‘Opa, vamos lá. Parou a aula, vamos conversar’. Aí ele percebeu que eu tinha uma vontade e explicou como era a profissão”, lembra.

O professor, que conhecia luthiers na Europa, incentivou André a seguir o caminho. “Ele falou: ‘É uma profissão muito legal, muito bacana. Acho que você tem um bom potencial, se tem essa vontade’. E aí eu resolvi ir para Tatuí.”

No Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, mais conhecido como Conservatório de Tatuí, André estudou por cinco anos. Durante esse período na instituição localizada a 140 km de São Paulo, começou a aplicar o que aprendia consertando instrumentos de estudantes e músicos da região. Depois, trabalhou por cerca de três anos no Projeto Guri, uma iniciativa que há 30 anos ensina música de graça a crianças e adolescentes. Ele trabalhava no polo do Centro, onde fazia reparos em instrumentos enviados por polos de todo o estado de São Paulo.

A etapa seguinte foi a Itália. Em Cremona, André frequentou a escola de luteria e trabalhou no ateliê de um professor, onde aprofundou a construção de violinos. “Foi fantástico. Consegui aprender muita coisa. Desde o ano em que cheguei, comecei a trabalhar com um professor meu. Eu ia ao ateliê dele duas, às vezes três vezes por semana, para construir um violino. E tinha a escola. Foi uma experiência fantástica.”

Ao voltar ao Brasil, em 2014, abriu seu próprio ateliê em São Paulo. Passou por outros dois endereços até chegar ao apartamento de frente para o Minhocão, que hoje considera seu espaço definitivo na cidade.

A relação de André com a música começou nas aulas de violino, ainda na infância. (Foto: Vitor Shimomura/Brasil de Fato)

O centro como território de artistas

Para André, a escolha do local não foi apenas imobiliária. O bairro, diz ele, faz parte de um circuito cultural importante da cidade, próximo a equipamentos como o Teatro São Pedro, a Sala São Paulo e o Theatro Municipal, além de concentrar músicos e outros profissionais da arte.

“Aqui sempre foi um bairro de artistas. Você sempre teve o pessoal do Teatro Municipal, da Osesp, morando muito nessa região. Praticamente o prédio inteiro é de artista. Tem arquiteto, artista plástico, tem eu como luthier, tem vários artistas no prédio e na região também.”

O apartamento no Minhocão também respondia a uma necessidade prática: unir casa e trabalho. A produção de um instrumento exige longas horas de concentração, e morar no mesmo lugar em que trabalha ajuda a reduzir deslocamentos em uma cidade marcada por problemas de mobilidade.

Aos poucos, porém, o ateliê deixou de ser apenas um espaço privado. A janela voltada para o elevado aproximou o trabalho manual de quem circula pela cidade. Quando clientes ou músicos tocam no local, a cena chama ainda mais atenção.

“Às vezes eu fico com a janela aberta, às vezes tenho cliente que vem tocar aqui. Já vi parar 15, 20 pessoas aqui na frente porque tinha alguém tocando aqui, que eu estava atendendo”, relata.

Para André, a curiosidade do público revela uma demanda reprimida por cultura. “O público tem interesse nos eventos de cultura. Eu acho que é só uma questão de investimento. Se tem mais investimento, o público passa a participar.”

Uma arte de madeira, cálculo e som

A luteria é o ofício de construir, restaurar e ajustar instrumentos de corda. Para André, o trabalho começa na escolha da madeira e passa por etapas que envolvem escultura, medidas precisas, acústica, verniz e acabamento.

“O trabalho de luteria envolve muitas habilidades. Você tem a questão técnica, porque tudo que vai fazer precisa ter uma técnica de trabalho. Você tem medidas que precisam ser respeitadas, senão o músico não consegue tocar o instrumento. Se o instrumento estiver fora da medida, você não vai ter um instrumento que funciona”, explica.

O luthier afirma que a profissão exige noções de diferentes áreas do conhecimento. “Você tem que ter conhecimento de marcenaria, um pouco de engenharia, porque está falando de muito peso em cima de uma estrutura muito fininha. Tem que ter conhecimento de química, um pouco de arte, de biologia, para saber o tipo de árvore que vai utilizar. É uma arte bem completa.”

Cultura como política pública

A experiência de André em projetos como o Guri também aparece em sua visão sobre o papel da cultura na cidade. Para ele, São Paulo poderia aproveitar melhor a concentração de teatros, equipamentos culturais, artistas e espaços públicos no Centro.

“Como política pública, eu acho que tinha que ter um investimento maior nos teatros. Você tem o Teatro São Pedro, que poderia ter um investimento muito maior. Você tem o Sesc, que já tem um bom investimento. Tem pontos de cultura. Eu acho que poderiam ser feitas muitas coisas aqui no centro, com pouco investimento, para difundir cultura, ter mais concertos e trazer o público mais para dentro da cultura.”

O luthier defende que o acesso à música pode transformar trajetórias, especialmente nas periferias. Ele compara a formação musical à base esportiva que revela atletas no futebol.

“Você consegue mudar a realidade de muita gente que mora numa comunidade carente e que tem condição de sair daquela condição porque passa a ter uma perspectiva: tocar um violino, uma viola, um violoncelo”, avalia.

Do mesmo jeito que você tem o futebol na várzea, se você tem uma grande base de estudantes, pode ser que eles não se tornem violinistas, mas eles têm uma cultura que estão recebendo na comunidade onde vivem. E com certeza vai descobrir um grande Messi do violino, um Pelé do violino”, completa o luthier.

André também atribui a projetos sociais e a igrejas parte da popularização do violino no Brasil. Segundo ele, quando começou na profissão, em 2003, quase ninguém sabia o que fazia um luthier. Hoje, percebe uma mudança no reconhecimento do ofício e no interesse pelos instrumentos de corda.

“Quando eu comecei, em 2003, 99% das pessoas para quem eu falava o que fazia precisavam de uma explicação. Hoje em dia, eu diria que uns 40% já sabem o que é. O violino também está muito mais popular do que há 20 anos”, afirma.

* Lugar de Memória – Observatório Cultural é uma plataforma gratuita e de fácil acesso, dedicada ao registro, à difusão e à valorização da memória, da identidade e do patrimônio cultural material e imaterial da região central de São Paulo.

Editado por: Rodrigo Gomes

|

Newsletter