O programa Desenrola 2.0, lançado em 4 de maio, voltou ao centro do debate econômico como uma das principais iniciativas de recuperação financeira das famílias brasileiras endividadas. Para especialistas, mais do que renegociar débitos, a política tem impacto direto na dignidade da população trabalhadora e na retomada do consumo popular, ao permitir que milhões de pessoas saiam das restrições impostas pelo sistema de crédito.
Segundo o economista Rodrigo Rodriguez, coordenador do Observatório de Orçamento e Finanças Públicas (Ofip) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o programa rompe um ciclo de exclusão financeira que afeta especialmente a população de baixa renda. “O Desenrola, no primeiro momento, resgata a dignidade do brasileiro que está endividado. Quando a pessoa tem uma oportunidade de sair da dívida, e ela geralmente quer sair da dívida, ela recupera a autoestima, ela fica fora de um ciclo vicioso”, afirma em entrevista ao Brasil de Fato.
Para Rodriguez, o programa também cria condições para uma retomada do mercado consumidor, ao recolocar trabalhadores e famílias no circuito econômico formal. Ele destaca que, ao quitar dívidas antigas, essas pessoas voltam a ter acesso ao crédito e conseguem reorganizar necessidades básicas de consumo. “As pessoas quitam dívidas e aí elas têm demandas, comprar uma geladeira, comprar uma televisão. Como estavam com restrição de crédito, perdendo essa restrição elas voltam para o mercado consumidor”, explica.
O professor ressalta ainda que o Desenrola não deve ser visto apenas como uma medida emergencial, mas também como um mecanismo de aprendizado financeiro para a população. “A pessoa que se endividou e renegocia a dívida tem um aprendizado nesse processo. Para muitas pessoas, se enrolar também foi um aprendizado porque ela percebeu os prejuízos que teve”, disse. Segundo ele, a experiência da renegociação ajuda a criar maior consciência sobre juros e condições de empréstimo.
Na avaliação de Juliana Inhasz, professora e coordenadora do curso de graduação em economia do Insper, o crescimento das contratações do ProNamp e do ProCred após as medidas de renegociação também revela o peso da crise enfrentada pelas micro e pequenas empresas nos últimos anos. Segundo ela, parte do aumento reflete uma recuperação da confiança no mercado, mas também uma forte demanda reprimida por crédito mais barato.
“Quando esses programas surgem com juros menores e condições mais facilitadas, a demanda pela renegociação aumenta muito”, afirmou. A economista destaca que, após um longo período de juros elevados e desaceleração econômica, muitas empresas adiaram investimentos e até renegociações de dívidas para conseguir manter as operações funcionando.
