A Paraíba recebeu, entre os dias 22 e 24 de maio, a primeira formação dos Agentes Populares Ambientais das Periferias. O encontro ocorreu no Centro de Formação João Pedro e Elizabeth Teixeira, em Lagoa Seca, e reuniu 40 agentes de territórios urbanos periféricos na etapa inicial do processo formativo. Segundo a organização Mãos Solidárias Paraíba, a etapa inicial trabalhou, de forma integrada, temas como meio ambiente, saúde, alimentação e comunicação popular.

A formação continuará entre 5 e 7 de junho, quando mais 50 agentes deverão se somar ao processo. A previsão informada pela organização é alcançar 90 agentes em mais de 30 territórios, com a meta de consolidar 45 Comitês Populares Ambientais.

Educação popular, território e comunicação
O encontro seguiu uma metodologia inspirada na Educação Popular e no pensamento de Paulo Freire, valorizando o diálogo, a escuta, a troca de experiências e a comunicação popular como eixo do processo formativo. Nessa perspectiva, as vivências concretas dos territórios periféricos serviram como ponto de partida para rodas de conversa, momentos de estudo, místicas e práticas de comunicação, transformadas em espaços de construção coletiva do conhecimento.
Mirna Lomanto, uma das coordenadoras da formação, destacou a importância da primeira atividade realizada na Paraíba, que reuniu debates sobre mudanças climáticas, saúde e segurança alimentar. Segundo ela, o crescimento desordenado da cidade e o avanço de um turismo invasivo têm provocado impactos diretos nas comunidades periféricas, especialmente em João Pessoa e nos municípios ao redor.
“No estado da Paraíba, principalmente em João Pessoa, a gente tem um crescimento da cidade de forma descoordenada e um turismo invasivo que tem gerado problemas para comunidades que antes já sofriam. O desmatamento na cidade e nos municípios ao redor tem trazido consequências muito graves na vida dessas pessoas.”
Lomanto também defendeu a formação e a organização popular como caminhos para fortalecer a consciência coletiva e a ação dentro dos territórios.
“Na prática, as pessoas estão sendo removidas dos seus lugares e enfrentando uma grande quantidade de problemas. A gente precisa da formação e da organização popular para se conscientizar, para que a gente tenha uma articulação dentro das nossas periferias. A proposta é formar comitês como espaços de discussão, organização e ação nas comunidades.”

Os debates relacionaram meio ambiente, saúde, alimentação, moradia, justiça social e o direito das comunidades de narrar a própria realidade. Temas como saneamento básico, racismo ambiental, enchentes, lixões, ausência de áreas verdes e luta por moradia digna foram discutidos não como problemas isolados, mas como desafios presentes no cotidiano das periferias e diretamente ligados às desigualdades urbanas.

Segundo Ravi Pachêco, um dos comunicadores populares do encontro, a formação também buscou fortalecer o protagonismo dos participantes por meio da comunicação popular, entendida como instrumento de organização comunitária e de leitura crítica dos territórios.

“A comunicação popular ali não foi tratada como mero instrumento de divulgação, mas como processo formativo e político. Os agentes experimentaram na prática o protagonismo: produziram registros fotográficos, relatos orais, cartazes e pequenos vídeos com seus celulares, exercitando o direito de narrar as próprias histórias. Aprendemos que comunicar é organizar, e organizar é resistir”, destacou ele.
Iniciativa dialoga com outras formações no Brasil
A experiência dos agentes ambientais não é a única no estado. Na Paraíba, formações semelhantes já ocorreram na área da saúde, como o Programa de Formação de Agentes Educadoras e Educadores Populares de Saúde, o AgPopSus, que iniciou seu percurso no estado em 2023 e reuniu cerca de 400 educandas e educandos, do sertão ao litoral, em mais de 22 territórios, com a participação de 12 movimentos e organizações sociais.

No plano nacional, o Ministério da Saúde e a AgSUS publicaram, em janeiro de 2026, edital para selecionar movimentos sociais populares e formar 450 turmas de agentes populares de saúde em 17 unidades da federação, com possibilidade de beneficiar até 9 mil estudantes.
O Ministério do Meio Ambiente também já havia ofertado formação de Agentes Populares de Educação Ambiental e Agricultura Familiar, com objetivo de formar pessoas capazes de identificar e refletir criticamente sobre questões socioambientais em seus territórios.
No caso atual, o diferencial está em reunir, em uma mesma formação, temas como periferias urbanas, mudanças climáticas, saúde, alimentação e comunicação popular. O projeto da Rede de Comitês Populares Ambientais em Territórios das Periferias foi lançada na Fiocruz Pernambuco em 27 de abril, com atuação prevista em Pernambuco e na Paraíba. A iniciativa é coordenada pela Fiocruz Pernambuco em parceria com o Movimento Mãos Solidárias, a Universidade de Pernambuco e a Universidade Federal da Paraíba.
Desafios ambientais reforçam a importância dos agentes na Paraíba
Na Paraíba, os dados oficiais mais recentes do IBGE sobre favelas e comunidades urbanas, referentes ao Censo 2022, apontam que o estado tinha 282 favelas e comunidades urbanas, distribuídas em 12 municípios, onde viviam 210.485 pessoas, o equivalente a 5,3% da população estadual. As informações foram divulgadas pelo IBGE e publicadas pelo jornal A União.

Foto: Ravi Pachêco | Crédito: Ravi PachêcoNesses territórios, apenas 43,5% dos moradores viviam em domicílios com esgotamento sanitário por rede geral, rede pluvial ou fossa ligada à rede, proporção inferior às médias brasileira e nordestina. O dado reforça a relação entre periferia, saneamento, saúde e ambiente.
Além da vulnerabilidade urbana, a Paraíba também enfrenta impactos ambientais associados à seca e às mudanças no uso da terra. Estudo divulgado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba apontou intensificação da vulnerabilidade ambiental em microrregiões do estado, com áreas da Caatinga expostas à perda de cobertura vegetal e a secas severas.
Entidades envolvidas
O projeto é fruto da parceria entre o Movimento Mãos Solidárias, a Universidade Federal da Paraíba, a Universidade de Pernambuco, a Fiocruz Pernambuco, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde. A Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde, a Fiotec, atua como responsável pela gestão administrativa e financeira da iniciativa regional.
Favelas e comunidades urbanas no país – Censo 2022
No Brasil, o tema se conecta a desigualdades urbanas históricas. O IBGE informa que 16,39 milhões de pessoas viviam em favelas e comunidades urbanas no país no Censo 2022. O próprio instituto define esses territórios como espaços populares formados diante da insuficiência de políticas públicas e investimentos para garantia do direito à cidade.
O saneamento segue como uma das dimensões centrais dessa desigualdade. Segundo o IBGE, 62,5% da população brasileira vivia em domicílios conectados à rede de coleta de esgoto em 2022, enquanto 49 milhões de pessoas ainda utilizavam soluções precárias de esgotamento sanitário.
“Que venham os comitês. Que venham as vozes. A rede começa a tecer suas primeiras raízes”, reforça Ravi Pachêco.
