A Inteligência Artificial impõe desafios à soberania digital e impacta o trabalho dos movimentos populares e feministas na construção de tecnologias comprometidas com a vida, a democracia e os territórios.
Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, Tica Moreno, militante da Marcha Mundial de Mulheres, defende que é preciso deixar de lado os tabus envolvendo a IA e tratá-la como ferramenta de acesso à informação, até porque seus usos vão desde situações extremamente simples até formulações complexas.
“A gente precisa conseguir aproximar o nosso cotidiano da compreensão do uso dessa tecnologia e de como ela é feita. Hoje, quando você faz qualquer busca na internet — se você usa o Google, por exemplo —, já recebe uma primeira resposta que não é a fonte da informação, mas uma explicação gerada pela inteligência artificial sobre o que você procurou”, afirma. “Quando a gente está nas cidades, essas estruturas que tiram foto da gente para entrar em determinado estabelecimento, que têm padrões de reconhecimento facial — a segurança pública já usa uma série de tecnologias com inteligência artificial para organizar, regular e controlar a vida em sociedade. De fato, é uma tecnologia que veio para ficar.”
Moreno defende que a grande luta é usar a IA a favor das pautas progressistas. Para ela, o caminho passa pelos sistemas de código aberto, bastante difundidos na realidade chinesa, que permitem que qualquer pessoa possa criar em cima de uma tecnologia já pronta. Foi esse expediente que permitiu a criação do projeto Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia (Iaraa), que tem objetivo de fortalecer a divulgação e a popularização da agroecologia.
“A Iaraa usa um modelo de inteligência artificial para gerar linguagem, para produzir essa interação quando você faz a pergunta e recebe a resposta. Mas antes disso tem todo um processo de organização: qual é a base de dados agroecológicos em cima da qual a Iaraa vai buscar a resposta. Isso já é uma questão política de partida. E quando a gente olha para qualquer modelo de inteligência artificial, ele precisa de grandes bases de dados. Sem esse conjunto gigante de dados que a gente gera na vida cotidiana, não existe inteligência artificial possível. Na nossa experiência da Iaraa, a gente foi entendendo como trabalhar essas bases de dados”, conta.
Tica Moreno afirma que o fundamental é promover a formação popular a partir das ferramentas tecnológicas que também acabam servindo como um mecanismo de emancipação e valorização da mulher dentro dos sistemas da agroecologia. “A gente aprendeu também como a gente pode guiar, dar instruções para a Iaraa gerar linguagem também de uma forma mais parecida com a nossa, mais próxima à educação popular, uma linguagem que considera que as mulheres são sujeitos da agroecologia e não estão lá só para o apoio”, diz.
Segundo ela, o curso de formação e inteligência artificial pros movimentos populares abre possibilidades de caminhada rumo a uma infraestrutura própria, já que hoje a maioria das informações e bases de dados estão sob poder das big techs, todas sob a égide do governo estadunidense de Donald Trump.
“Quando a gente coloca a mão na massa, vai aprender como que que funciona a inteligência artificial, vai desenvolver, a gente vai entendendo qual que é a necessidade da máquina mesmo, do poder computacional, que significa essa grande quantidade de servidores, que são os data centers que vão processar os dados. Então isso tudo traz para nós uma conexão do desenvolvimento da infraestrutura com a agenda política da soberania digital. Ou seja, não não adianta a gente ter uma ou outra experiência de desenvolvimento de uma inteligência artificial conectada com uma ou outra experiência de movimento, se a gente não tiver uma agenda no Brasil que coloque inteligência artificial no centro da nossa estratégia”, defende.
Para ouvir e assistir
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