A cidade de São Paulo respirou arte e música no último final de semana com a realização de mais uma edição da Virada Cultural. Com investimentos milionários, palcos descentralizados e forte apelo midiático, o evento cumpre um papel fundamental no calendário da capital, democratizando o acesso a grandes shows gratuitos e movimentando a economia criativa de dezenas de bairros, mas contrasta com o sucateamento apontado por artistas e ativistas em outros setores da cultura.
A megaprodução, que aconteceu no último sábado (23) e domingo (24), é a principal vitrine da política cultural da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), voltada à grande visibilidade pública. No entanto, por trás das luzes dos palcos temporários, o cotidiano dos equipamentos culturais permanentes da cidade revela um cenário de profundas contradições.
Enquanto o governo municipal investe altos valores na estrutura de eventos efêmeros, teatros, bibliotecas, coletivos da periferia e espaços comunitários que sustentam a produção artística paulistana ao longo de todo o ano enfrentam uma rotina marcada por abandono estrutural, falta de funcionários, ameaças de despejo e disputas em torno da preservação do patrimônio.
Um dos retratos mais nítidos dessa deterioração atinge a Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato, instituição histórica e de referência na literatura infantil localizada na Vila Buarque, região central da cidade. Na última quarta-feira (20), o Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública Municipal de São Paulo (Sindsep) flagrou lonas pretas e baldes improvisados espalhados pelo chão para conter uma grave infiltração na gibiteca, cujo teto apresentava água escorrendo e mofo, colocando em risco o acervo de histórias em quadrinhos.
“A biblioteca está abandonada. Aí você observa que a prefeitura está investindo um valor altíssimo na Virada Cultural e não investe nas unidades que ela já tem prontas”, criticou Luzia Barbosa, coordenadora da Região Centro do Sindsep, em denúncia gravada no local.
De acordo com a dirigente, a precarização passa também pelo esvaziamento do quadro técnico: “Faltam bibliotecários, faltam administrativos, o que faz com que o serviço fique cada vez mais precarizado. A prefeitura precisa urgente de concurso público”.
Procurada pelo sindicato por meio de nota, a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) negou o abandono e afirmou que o local passa por uma “requalificação predial” com manutenção de telhado e impermeabilização. O Sindsep e os usuários consultados pela reportagem rebatem a versão oficial, pontuando que o flagrante foi feito em pleno horário comercial e não havia nenhuma equipe operando obras no local. O sindicato acionou integrantes do Conselho do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB) para interpelar formalmente a gestão municipal.
A crise na zeladoria e na segurança do patrimônio público estende-se a outros complexos culturais icônicos da capital. O Centro Cultural São Paulo (CCSP), na Vergueiro, registrou recentemente a inundação da Discoteca Oneyda Alvarenga (referência na preservação da memória fonográfica) além de um princípio de incêndio controlado pelos próprios servidores, segundo o sindicato.
A falta de vigilância após a falência da empresa prestadora de serviços forçou a gestão do CCSP a antecipar o inventário interno, fechando as bibliotecas e a gibiteca ao público desde o dia 18 de maio, conforme informações do Sindsep.
A escassez crônica de funcionários e de monitoramento adequado também vulnerabilizou a Biblioteca Mário de Andrade, palco do trágico furto de obras raras e valiosas em dezembro de 2025. Entidades sindicais denunciam que a unidade segue ignorando prazos de acessibilidade exigidos pelo Ministério Público, perpetuando barreiras físicas para usuários com mobilidade reduzida.
“Absurdo a SMC gastar rios de dinheiro na Virada Cultural enquanto nossos equipamentos públicos seguem abandonados o ano todo, sem estrutura e sem equipe”, criticou a bibliotecária Luba Melo, vice-presidente do Sindsep.
A inversão de prioridades orçamentárias na cultura paulistana tem sido alvo de contestações e investigações. Dados compilados pela Agência Pública apontam que, em meio à corrida eleitoral de setembro de 2024, a gestão Ricardo Nunes triplicou os gastos com shows em relação ao ano anterior, saltando de R$ 5,6 milhões para investimentos com alta de 191%.
Paralelamente, auditorias apontam suspeitas de irregularidades e superfaturamento em contratos de centenas de milhões de reais envolvendo empresas terceirizadas prestadoras de serviços logísticos para a SPTuris e para a Secretaria de Turismo.
Tensões no asfalto e ameaças à cultura popular
A fragilidade institucional também assombra os espaços culturais independentes que atuam como polos de resistência no território urbano. É o caso do Teatro de Contêiner, localizado na região da Luz, no centro.
O projeto enfrenta barreiras constantes e pressões institucionais para garantir sua permanência na área, evidenciando como as iniciativas independentes no centro de São Paulo operam sob permanente clima de instabilidade e falta de fomento estável.
De acordo com Marcos Felipe, integrante da Cia Mungunzá e do Teatro de Contêiner, após uma intensa pressão política exercida no ano passado, a prefeitura chegou a assinar um acordo garantindo a transferência do teatro para a Rua Helvétia. “Só que esse acordo não foi cumprido”, relata o artista.
Em janeiro deste ano, a gestão Nunes lacrou o espaço e, em março, executou a remoção forçada das instalações. “Eles desmontaram e demoliram em dois dias, na maior violência e sem comunicação nenhuma com a gente”, afirma Marcos Felipe.
Para o coletivo, a ação agressiva do poder público reflete uma incompreensão profunda sobre o papel da produção artística contínua nos territórios. O grupo ingressou com uma ação popular no Judiciário para exigir o cumprimento do acordo, enquanto aguarda o desfecho do embate legal.
Segundo o artista, a Funarte acolheu a grade de espetáculos contratada do teatro, servindo como abrigo político enquanto os artistas lutam para reerguer a estrutura modular na Rua Helvétia. Marcos Felipe define a situação como reflexo de uma cidade “rifada para o capital especulativo imobiliário”, onde pequenos teatros e centros culturais são suprimidos e desapropriados para dar vazão à explosão de novos edifícios.
O artista aponta que o desmonte atinge seu ápice irônico na proposta municipal de instalar uma “Times Square” paulistana na Avenida São João. O projeto é classificado por ele como uma “política de maquiagem” e de “shopping”, que prioriza painéis de LED e apelo estético em detrimento do fomento humano.
“Ao invés de se investir em ações e ambientes culturais, em teatros e cinemas, e depois fazer a maquiagem, o movimento vem antes: incentiva-se que as pessoas vão para o centro olhar painel de LED, de forma completamente alheia ao conteúdo. Demole-se um teatro no próprio território onde se promove a Times Square“, critica.
Felipe pondera que grandes eventos são vitais para o turismo e para a autoestima da população, defendendo expressamente a permanência da Virada Cultural. O problema, segundo ele, reside no abismo que separa a festividade da política estruturante diária.
“O município investe os recursos em megaeventos, e toda a política de leis de incentivo e editais fica à mercê. Uma coisa não pode estar distanciada da outra. O que vemos é o completo descaso e desvio de verba das políticas estruturantes para megaeventos onde meia dúzia de artistas pega uma fatia imensa do orçamento”, afirma o artista.
Mais do que a deterioração física de prédios públicos, a falta de amparo do poder público atinge diretamente manifestações da cultura popular e negra. O tradicional Samba do Cruz, importante reduto de memória e identidade negra na capital paulista, vive sob o fantasma do despejo iminente por parte da gestão Ricardo Nunes, mobilizando a comunidade em torno da defesa de seu território histórico.
A disputa pelo uso do espaço público e pela memória da cidade também envolve episódios drásticos de demolição e desmonte de patrimônios tombados, como os casos que envolveram o Grupo XIX de Teatro e o Teatro Ventoforte. As investidas da municipalidade contra esses centros de pesquisa cênica reascenderam os debates sobre a falta de diálogo da prefeitura com os órgãos de preservação, como o Condephaat, e com a classe artística paulistana.
O Brasil de Fato questionou a Secretaria Municipal de Cultura sobre o sucateamento dos equipamentos permanentes da capital. A reportagem perguntou acerca das infiltrações na Biblioteca Monteiro Lobato, o fechamento temporário das bibliotecas do CCSP por falta de vigilância e os prazos descumpridos de acessibilidade na Biblioteca Mário de Andrade.
A administração municipal também foi questionada a respeito das denúncias de desmonte e violência institucional apresentadas pela Cia Mungunzá sobre o descumprimento do acordo de transferência e posterior demolição do Teatro de Contêiner na região da Luz, além das queixas de inversão de prioridades orçamentárias que privilegiam megaeventos como a Virada Cultural em detrimento da manutenção diária dos aparelhos públicos nos bairros.
A prefeitura respondeu em nota: “A Prefeitura de São Paulo informa que ampliou significativamente os investimentos em reformas, modernização e requalificação de equipamentos culturais da cidade. De 2021 para 2025, o valor dos investimentos em reformas passou de R$ 2.120.611,39 para R$ 20.929.918,24, um aumento de 887% em obras, recuperação estrutural e modernização de instalações. Para 2026, estão previstos R$ 33,9 milhões. São recursos destinados a garantir melhores condições de atendimento ao público, segurança, acessibilidade e valorização do patrimônio cultural da cidade.
Em relação ao Teatro de Contêiner Mungunzá, a Prefeitura informa que o grupo ocupava irregularmente a área da Rua dos Gusmões havia quase dez anos, incluindo ligações clandestinas de água e energia, registradas em boletim de ocorrência pelo Município. A atual gestão manteve diálogo com os representantes, repassou R$ 2,5 milhões às atividades da companhia e apresentou quatro alternativas de terrenos para transferência. A desocupação da área foi realizada em cumprimento a decisão judicial. A Subprefeitura Sé informa que todos os itens retirados estão armazenados em depósito da Prefeitura, garantindo a preservação das estruturas e materiais.”
