Em um ateliê instalado no Hospital Psiquiátrico Ulysses Pernambucano, no bairro da Tamarineira, Zona Norte do Recife, uma interna de nome Cristina, com dificuldades de verbalização e episódios de agressividade, revolvia intensamente um pedaço de argila, que logo foi se transformando em telhas, panelas e outros objetos que compõem uma casa. Cristina estava na iminência de ser transferida para uma residência terapêutica, instalações que, no contexto da reforma psiquiátrica inserida dentro da luta antimanicomial, garantem cuidados especializados, autonomia e inserção dos pacientes na vida das comunidades. Ali, ela talvez estivesse, por meio da arte, conseguindo comunicar a esperança em um sentimento de lar que nascia dentro de si.
Essa foi uma de diversas experiências vividas no Ateliê-Residência instalado por seis anos nas dependências do hospital pela artista visual Christina Machado, que culminaram em uma vivência artística no equipamento de saúde e duas exposições. Os processos criativos, subjetivos e sociais dessa trajetória estão relatados no livro “Minha Cabeça, Nossa Natureza: histórias das exposições de uma obra em expansão e do processo de Christina Machado”, primeiro livro da pernambucana, organizado pela historiadora e curadora Joana D’Arc Lima.
A obra será lançada nesta quarta-feira (28), às 10h, na Universidade Federal de Pernambuco, e às 15h, no Hospital Ulysses Pernambucano, integrando a programação do Maio Antimanicomial da unidade, em referência ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado no último dia 18. A publicação conta com relatos da artista, assim como de outras figuras que atravessam sua trajetória, como as curadoras Joana D’Arc Lima e Cristiana Tejo, e os psicanalistas Cristina Mendonça e Everaldo Júnior, passando por reflexões sobre autoimagem, fazer artístico, loucura e razão.
Christina tem sua primeira experiência no Ulysses em 2005, a partir do projeto Spa das Artes, da Prefeitura do Recife, que tinha o Hospital da Tamarineira, como também é conhecido o Ulysses, como uma das sedes da iniciativa. Por lá, realizou um trabalho com sucatas de camas de ferro batizado de “Cama Sem Pé, Nem Cabeça”, que integrou uma instalação interativa no interior do espaço. Pouco depois, foi convidada a instalar o seu Ateliê-Residência, desenvolvendo trabalhos com argila, matéria-prima fundamental em sua trajetória artística, com os chamados “clientes”, termo que o livro adota, utilizado inicialmente pela psiquiatra Nise da Silveira, em substituição a “pacientes”, em uma tentativa linguística de reafirmar as subjetividades e capacidades de trocas dos internos.
Por lá, Christina desenvolveu um trabalho de seis anos que considera uma espécie de doutorado artístico, vivenciando experiências ora cativantes, ora sofridas. “Acabou sendo um laboratório interno meu, de ver que o sofrimento não pode ser expurgado, mas pode sim ser minimizado por meio da arte”, afirma a artista, em entrevista ao Brasil de Fato. Por duas vezes na semana, o ateliê era aberto aos clientes, que entravam e saíam sem hora certa, sempre convidados a explorarem a argila nos processos conduzidos por Christina.
Machado não se coloca como alguém que estava ali para desempenhar uma função de arte-terapia. Ela estava como uma artista que se abria para trocas sinceras com os frequentadores do ateliê. “Eu, como artista, me encaixo muito bem entre esses dois mundos de razão e loucura, então era uma troca de igual para igual. Ali ninguém precisava falar, o próprio contato com a argila já era um facilitador de tudo”, explica Christina.

Essas trocas alcançaram um outro patamar em 2009, quando as experiências culminaram na vivência “Minha Cabeça, Nossa Natureza”. A iniciativa parte das pesquisas e obras anteriores de Machado envolvendo a argila e seu próprio corpo, como na exposição “Tempo de Carne e Osso”, de 2004. Desse último trabalho, ela aproveita um molde de sua cabeça para reproduzi-la em 60 peças, que passaram por intervenções artísticas dos clientes do hospital, de Centros de Atenção Psicossocial (Caps), além de estudantes e outros artistas.
Em 2012, no Recife, e em 2023, em João Pessoa, essa vivência se desdobrou em duas exposições de mesmo nome, nas quais Christina revisita os trabalhos desenvolvidos nas cabeças, agora queimadas em cerâmica e transformadas em diversos personagens, atravessadas também por novas intervenções de fotografia, desenho e pintura. Ambas são uma espécie de agradecimento pelas histórias vividas dentro da Tamarineira, lembrando de quando se despiu de preocupações sobre o que poderia ser feito com a réplica de sua face para ver nascer obras que lhe tocaram muito.
“Eu tinha algo de proteção ali, tivemos cenas fortes, como a do cliente Chico, que pegou um objeto e começou a furar a cabeça, como se estivesse esfaqueando. Mas não foi algo que me afetou. Diferente de outra, feita por uma pessoa do Caps, que deu a uma das cabeças um olhar que me lembrou o da minha adolescência, uma lembrança que não achei que tinha e mexeu muito comigo”, relembra a artista.

Hoje, ela lamenta a redução do espaço para artes em instalações como a do Ulysses. A ela faz coro a psicanalista Cristina Mendonça, testemunha do trabalho da xará na Tamarineira, que aponta em seu relato no livro que, apesar de Machado não se colocar em um lugar de arte-terapia, o trabalho em seu ateliê foi uma das grandes iniciativas de cuidados na instituição, apontando terem sido perdidos com a saída da artista.
“Diria que o efeito terapêutico na clínica daqueles pacientes foi inegável. É evidente que o atendimento realizado pela equipe de profissionais foi também fundamental, mas, dentro desse conjunto de múltiplos cuidados, o trabalho de Christina Machado era, sim, um dos pilares fundamentais”, conclui Mendonça, em seu testemunho publicado no livro. Após seu lançamento, o livro estará disponível gratuitamente no site da artista.
