Apesar do favoritismo de Iván Cepeda nas eleições presidenciais colombianas do próximo domingo (31), o candidato de direita Abelardo de la Espriella ganhou tração nos últimos dias e pode chegar a um eventual segundo turno. Enquanto Cepeda representa a continuidade do bem avaliado governo de Gustavo Petro, Espriella antagoniza a narrativa, se apresentando como uma espécie de Nayib Bukele, presidente ultraconservador de El Salvador, colombiano.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Ricardo Leães, professor e pesquisador de Relações Internacionais, avalia que um cenário em que a disputa vá para segundo turno é bastante provável e a história da América Latina indica isso. “Infelizmente, estamos em um momento em que a ausência da extrema direita no segundo turno é uma exceção, não a regra. E a Colômbia é um país que historicamente tem mais possibilidade do avanço de movimentos de direita e de extrema direita, ainda que um pouco mais disfarçados, por conta sobretudo da atuação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e de outros grupos que operam no país. A gente sabe que esse discurso antiviolência é muito forte, e mesmo no Brasil a gente tem um candidato que está apostando nessa retórica com a expectativa de angariar votos de Flávio Bolsonaro”, diz.
Segundo Leães, uma ida de uma figura como Espriella para o segundo turno pode colocar em risco real o favoritismo de Cepeda e a razão disso é que os discursos extremistas lidam com passionalidade. “O eleitor muitas vezes não vota com a cabeça, vota com seu fígado. E aí um candidato de extrema direita apela mais para os ressentimentos e seus sentimentos do que um candidato da direita que, como a gente brinca, consegue comer utilizando os talheres. Essa é uma figura que está cada vez mais em desuso. Embora a mídia muitas vezes insista em dizer que pode haver figuras competitivas nesse sentido, não é uma realidade aqui no Brasil e no restante da América Latina não é diferente”, afirma.
Com relação a uma eventual interferência estadunidense nas eleições colombianas, incensada pela ida do senador Flávio Bolsonaro (PL) aos EUA em busca de um encontro com Donald Trump, Ricardo Leães brinca que quando o assunto é relações internacionais, “tudo pode acontecer, inclusive nada”.
“No ano passado, os EUA divulgaram as estratégias nacionais de segurança. Por meio desse documento, se delineiam quais são as principais diretrizes da política externa dos Estados Unidos. E lá está escrito que a prioridade dos EUA deveria ser o hemisfério ocidental, que é um eufemismo para América Latina. Se fala lá que os recursos naturais da América Latina devem servir para atender aos interesses dos EUA e que eles atuariam em cooperação com países aliados para conseguir atingir esses objetivos”, explica.
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