O artista visual gaúcho Amaro Abreu inaugurou a exposição “Vida Paralela” no espaço Cero Once em Barcelona, Espanha. O grafiteiro apresenta na mostra um convite para cruzar a fronteira entre o real e o imaginário, reunindo obras que conversam com a natureza, o subconsciente e os universos invisíveis. Ali, ele cria paisagens poéticas carregada de simbolismo e contemplação, segundo diz.
Amaro estava em Lisboa, Portugal, há poucos meses, apresentando o seu trabalho quando foi convidado para ir a Barcelona reviver a sua saga de viajante das artes urbanas. A exposição vai até o dia 6 de junho.

Com 37 anos, Amaro é filho da jornalista gaúcha Rosina Duarte e do fotógrafo Luís Abreu, nasceu no bairro Belém Novo, em Porto Alegre, tem espírito andarilho e espalhou sua arte pelo mundo. A sua experiência artística voa entre arte contemporânea, sensibilidade e narrativa visual. Muita gente tem ido até a Carrer del Comerç, 4, no centro da cidade espanhola, para acompanhar o trabalho do artista, no antigo Café MTN94, agora Cero Once, hamburgueria e bar inspirados na cultura de rua de São Paulo – ou, como dizem por lá, “cultura street”.
A produção e organização é da Art Col’lectiva, agência de produção artística e gestão de eventos, especializada em conectar culturas e conhecida por realizar exposições contemporâneas e realizar grandes turnês e shows de artistas brasileiros na Europa.

A arte grafiteira de Amaro não tem limites. Está solta por aí. De Moscou ao Oriente Médio, da Índia ao México e dos escombros do muro de Berlim, de Porto Alegre à outras partes do Brasil, de vários países latinos à Europa e a tantos outros lugares. É nobre e mensageiro nas propostas de um mundo mais sensível, com menos dor e mais compreensão – mesmo com tudo que está por aí, não perde as esperanças de que outras pessoas vejam nas suas obras a possibilidade de dar um jeito nas suas vidas e convicções.
Amaro já está na estrada do seu trabalho há 17 anos e até lançou livro em 2024, durante a enchente do RS, chamado O Islã e a Maçã, criado durante a pandemia do Coronavírus. Ele se recolheu em Belém Novo, na casa dos seus pais, para escrever a sua obra, lançada pela Pubblicato, com 209 páginas.
A conexão com as imagens
O livro foi resultado de quatro meses de viagens, estudos, atividades artísticas, pinturas, palestras e oficinas no Egito, Líbano, Síria e Índia. Nestes países, viu realidades brutais, um mundo à parte do nosso mundo. Visitou e fez ações em campos de refugiados de palestinos, como o de Nahral-Bared, na fronteira Síria/Líbano, e observou realidades conflitantes. “O livro foi a soma de tudo. Reflete o meu eu diante de diferentes realidades pessoais, políticas e religiosas que presenciei. Demorei quase três anos para escrever, pesquisar e refletir.”
O posfácio escrito pela jornalista e mãe de Amaro, Rosina Duarte, revela bem o que é o livro do filho: “…ele nos oferece a tentadora maçã do desconhecido, acrescentando seu conhecimento contado de forma coloquial, humilde, observadora, meditativa, quase perplexa. Apresenta-se como um viajante em busca de pontes com a cultura islâmica, distorcida pelos nossos parcos saberes ocidentais. Ele reflete o tempo inteiro, inclusive, sobre a hermética realidade feminina dos países árabes, escondida por debaixo dos véus e das burcas. É um homem vindo do outro lado do planeta que não compreende, admite não compreender e, de forma quase instintiva, solicita, em contraponto, o olhar de quatro mulheres a quem admira: a fotógrafa Nair Benedicto, a poeta egípcia Amar Al Qady e as jornalistas Lelei Teixeira e Eliane Brum. Além delas, inclui a mim, sua mãe.”

Amaro é filho único e está solteiro. Fez sua formação acadêmica na Ulbra e também publicou Habitat, pela Editora Libretos, com rascunhos, grafites e fotos de sua arte urbana. “Desde onde minha memória consegue alcançar, me lembro da conexão com as imagens. O tempo e as dúvidas nem sempre andam na mesma direção, mas acabei descobrindo o desenho como forma de me desenvolver. No momento em que percebi isso, me deparei com o céu, um penhasco e um grande caminho pela frente. Caminho percorrido com paciência, persistência e dedicação.”
Ele realizou várias exposições individuais utilizando aquarela e nanquim. Ao passar pelo México pelas suas andanças globais, conheceu o grafiteiro Duek Glez, com quem assinou uma obra classificada entre as melhores do mundo, em 2016, pela agência norte-americana Support Street Art.
O artista também colocou o Brasil entre os destaques internacionais de arte urbana, com a criação de El Sonido Gris, selecionado como uma das melhores ilustrações da América Latina. O trabalho foi publicado no livro Colores latinos, produzido pela Faculdade de Desenho e Comunicação de Palermo (Buenos Aires, Argentina).

Morando em São Paulo e passando longos períodos em Porto Alegre, realizando trabalhos, ele impressionou também holandeses com seu trabalho sobre causas indígenas. Como diz a sua mãe Rosina: “O nome Amaro vem do idioma quíchua peruano – Amaru, uma serpente mítica capaz de refletir a luz, de produzir sabedoria e de incitar a pessoas a grandes lances”.
