Combate a Pobreza

Colômbia vive “a maior reforma agrária de sua história”, afirma ministra de Petro

Martha Carvajalino concedeu entrevista ao BdF durante o Fórum Global de Redução da Pobreza e Desenvolvimento, em Pequim

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A ministra da Agricultura da Colômbia, Martha Carvajalino Villegas, durante entrevista ao Brasil de Fato no Fórum Global de Redução da Pobreza e Desenvolvimento, em Pequim.
A ministra da Agricultura da Colômbia, Martha Carvajalino Villegas, durante entrevista ao Brasil de Fato no Fórum Global de Redução da Pobreza e Desenvolvimento, em Pequim | Crédito: Bruno Falci/Brasil de Fato

O Fórum Global de Redução da Pobreza e Desenvolvimento, realizado nesta quarta-feira (27) em Pequim, teve sua programação marcada pelo anúncio da criação da Parceria Global para a Redução da Pobreza e o Desenvolvimento (GPPAD), uma nova plataforma internacional que reúne China, 53 países e nove organizações internacionais em torno de uma agenda global de combate à pobreza e desenvolvimento rural.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, a titular da Agricultura da Colômbia, Martha Viviana Carvajalino Villegas, afirmou que o país vive “a maior reforma agrária de sua história” e destacou que as transformações no campo colombiano estão conectadas a uma reconfiguração mais ampla do desenvolvimento global, especialmente a partir de novas formas de cooperação Sul-Sul.

A ministra afirmou que a experiência recente de cooperação entre Colômbia e China abriu novos caminhos para o desenvolvimento rural e para o fortalecimento da agricultura camponesa. Segundo ela, a adesão colombiana à Iniciativa do Cinturão e Rota, assinada durante visita do presidente Gustavo Petro a Pequim há um ano, ampliou o intercâmbio em áreas como ciência, tecnologia e desenvolvimento rural.

“Bem, justamente há um ano esteve o presidente Gustavo Petro aqui na China assinando com o presidente Xi Jinping essa adesão da Colômbia à Rota da Franja e da Seda. A partir disso, temos permitido construir grandes apostas de intercâmbio em ciência, tecnologia e desenvolvimento rural, a partir de um objetivo comum que é o fortalecimento das agriculturas camponesas”, afirmou.

Carvajalino destacou que a Colômbia tem buscado aprender com a experiência chinesa de revitalização rural e redução da pobreza. “Aprendemos da revitalização rural integral da China, não apenas pelo fato de ter retirado cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza, mas também pelo desenvolvimento do campo e pelo reconhecimento das pessoas que trabalham a terra, que é justamente o propósito que a Colômbia vem impulsionando há muito tempo”, disse.

Ela afirmou que a cooperação bilateral também avançou em áreas técnicas ligadas ao comércio agrícola. “Nesta semana tivemos uma reunião com a diretora de Aduanas da China que nos permitiu fortalecer essa relação e a diplomacia sanitária para encontrar esses mercados agroalimentares”, afirmou.

Segundo a ministra, ampliar a presença de alimentos colombianos no mercado chinês faz parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento rural e de enfrentamento das economias ilícitas. “Encontrar mais alimentos da Colômbia na China é, para a Colômbia, poder fortalecer sua produção agropecuária e um objetivo comum que temos: a luta contra as drogas”, disse.

Carvajalino explicou que o país vive um processo de substituição de cultivos ilícitos por produção agrícola legal. “A Colômbia tem uma das maiores produções de coca que hoje começa a ser substituída pelo cacau e pelo café, que começam a ingressar no mercado chinês e a superar grandes desafios agrológicos e de comércio exterior”, afirmou.

Fome e pobreza no centro da cooperação internacional

Carvajalino afirmou ainda que a Colômbia tem acompanhado iniciativas internacionais de combate à pobreza e à fome, destacando a articulação de diferentes países, incluindo o Brasil, na construção de uma agenda comum.

“Colômbia tem acompanhado todos os esforços que vêm sendo impulsionados por diferentes países, como o Brasil, na formação da aliança contra a pobreza e contra a fome. Acompanhamos essa aliança impulsionada pela China, porque não há outra forma além do trabalho conjunto e global”, afirmou.

Para a ministra, a relação entre fome e pobreza é estrutural e inseparável dentro das estratégias de desenvolvimento.

“Para nós, a luta contra a fome é a luta contra a pobreza. Encontrar o que pode ser desenvolvido, em uma lógica justa, nos sistemas agroalimentares; garantir o abastecimento alimentar e devolver a dignidade a quem trabalha a terra é a premissa essencial para lutar contra a fome”, disse.

Ela destacou que o cenário internacional atual exige maior cooperação entre os países.

“Acho que hoje encontramos um caminho conjunto. O que vemos aqui é muito forte. Há um momento global de inflexão: a crise climática, as guerras e a fragilidade do multilateralismo nos mostram que é necessário reconstruir a comunidade global”, afirmou.

Carvajalino reforçou ainda o caráter político da mensagem enviada a partir do fórum em Pequim.

“Estar aqui hoje nos permite enviar uma mensagem ao conjunto das nações do mundo para reforçar esses objetivos de trabalhar juntos. E avançar no desenvolvimento rural como estratégia fundamental na luta contra a pobreza e contra a fome”, concluiu.

Integração regional e reforma agrária na América Latina

Carvajalino também destacou o papel da integração latino-americana em um momento de redefinição dos mecanismos de cooperação regional. Ela lembrou que a Colômbia deixou recentemente a presidência da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), agora sob liderança do Uruguai, em um contexto que exige a revisão das formas tradicionais de articulação entre os países.

“Hoje as integrações no mundo estão se tornando mais complexas e precisam ser repensadas. O que o presidente Gustavo Petro tem proposto à comunidade latino-americana é justamente repensar a forma de nos encontrarmos”, afirmou.

A ministra ressaltou que, apesar da diversidade política da região, há convergências importantes em torno de uma agenda comum envolvendo países como Brasil, México, Uruguai e Colômbia, especialmente no eixo da terra e dos sistemas agroalimentares.

“Somos 33 países com perspectivas distintas, mas hoje temos uma aposta comum em países como Uruguai, México, Colômbia e Brasil: redistribuir a terra para fortalecer os sistemas agroalimentares em lógica de justiça, resiliência e sustentabilidade na luta contra a fome”, disse.

Carvajalino destacou ainda a Segunda Conferência Internacional de Reforma Agrária, realizada em fevereiro em Cartagena das Índias, no Caribe colombiano, com participação de mais de 100 países e 52 delegações oficiais. O encontro foi impulsionado a partir de uma agenda iniciada pelo Brasil há duas décadas e resultou na Declaração do Pacto de Cartagena, voltada à terra, à vida e ao desenvolvimento rural.

“Ali temos uma agenda comum que nos coloca diante dos desafios da crise climática, da fome, da pobreza e da unidade latino-americana”, afirmou.

Crise do multilateralismo e “pacto pela vida”

Carvajalino afirmou que o mundo atravessa um momento de instabilidade geopolítica e enfraquecimento das instituições multilaterais.

“O multilateralismo parece estar em crise, e a decisão do progressismo no mundo é reconstruí-lo, com base no respeito mútuo, na igualdade entre os Estados e na autodeterminação dos povos”, disse.

Ela acrescentou que os conflitos recentes em diferentes regiões do mundo reforçam a necessidade de reaproximação entre os países e de valorização da dignidade humana acima dos interesses econômicos.

“O que vemos no Caribe latino-americano e no Oriente Médio é a necessidade de voltarmos à racionalidade, ao entendimento, e de colocarmos o respeito aos povos e à dignidade humana acima de qualquer interesse econômico”, afirmou.

A ministra concluiu destacando o que chamou de um ponto de inflexão histórico global.

“A questão é se esta humanidade pode enfrentar mais guerras ou se estamos diante de um ponto de inflexão. Ou nos reconstruímos, ou caminhamos para um mundo de mais morte. A aposta da Colômbia é o pacto pela vida”, disse.

China lança parceria global contra a pobreza e reforça cooperação internacional

O Fórum desta quarta-feira marcou o anúncio da criação da Parceria Global para a Redução da Pobreza e o Desenvolvimento (GPPAD), apresentada como o principal resultado institucional do encontro. A iniciativa foi estabelecida conjuntamente pela China, 53 países e nove organizações internacionais.

Durante a abertura do fórum, o vice-primeiro-ministro chinês Liu Guozhong afirmou que é “urgentemente necessário” ampliar o consenso internacional e acelerar os esforços globais de redução da pobreza. Ele defendeu a atuação coordenada entre os países, o fortalecimento do intercâmbio de experiências em erradicação da pobreza e a ampliação do papel da tecnologia e dos mercados nas estratégias de desenvolvimento.

Liu destacou ainda que a China apoiará a nova parceria por meio de diálogo político, demonstrações técnicas e capacitação de profissionais de países em desenvolvimento, além de projetos de cooperação de pequena escala, descritos como “pequenos, mas inteligentes”.

O fórum reuniu representantes de diversos países e organizações internacionais e se consolidou como uma das principais plataformas globais de debate sobre pobreza, desenvolvimento rural e segurança alimentar. O encontro ocorreu em um contexto de crise climática, persistência das desigualdades e reconfiguração do sistema multilateral, reforçando a aposta na cooperação Sul-Sul como eixo central da nova arquitetura de desenvolvimento.

Editado por: Thaís Ferraz

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