A jornalista e ex-deputada federal Manuela d’Ávila apresentou, em Porto Alegre, a plataforma digital “Agora é com a Gente”, no sábado (23). Ferramenta foi criada para organizar voluntários, coordenar ações de rua, distribuir conteúdo nas redes e integrar agendas de pré-candidaturas parceiras durante a pré-campanha e a campanha ao Senado Federal pelo Rio Grande do Sul.
O evento, realizado no Fuga Bar, no Quarto Distrito, reuniu militantes, representantes de movimentos sociais, lideranças históricas do campo progressista gaúcho e integrantes da chapa majoritária que o campo de esquerda articula para 2026. A entrada de Manuela ao palco, com luvas de boxe ao som da música Eye of the Tiger, da trilha sonora da franquia Rocky, correu as redes sociais ainda na noite de sábado e dominou as repercussões do fim de semana no estado.
Em 2026, Manuela chega à disputa do Senado com uma candidatura que ela própria descreve como coletiva. “Os agentes da Manu, desde o princípio, estão na centralidade da nossa estratégia. O Senado se tornou um dos principais espaços da disputa política nacional. A extrema direita compreendeu isso e está organizada para ocupar esse lugar. Nossa resposta será organização popular, participação coletiva e mobilização democrática”, declarou a pré-candidata durante o evento.
A plataforma
A ferramenta “Agora é com a Gente” é o centro operacional da estratégia de campanha apresentada no sábado. Segundo a equipe de Manuela, a plataforma permite que voluntários, chamados de “agentes da Manu”, organizem atividades presenciais em bairros e municípios, mobilizem ações porta a porta, compartilhem conteúdos digitais com suas redes de contato e acompanhem a agenda da campanha em tempo real. A proposta também prevê a integração com agendas de outras pré-candidaturas e de movimentos aliados, ampliando a articulação territorial do campo progressista no estado.
O site da candidatura, hospedado em manuelanosenado.com, convoca as pessoas a se tornarem parte do grupo: “Somos um grupo de pessoas que, cada qual à sua maneira, doam o tempo que podem para defender o Rio Grande e o Brasil, nossa democracia, a vida das mulheres e a conquista de direitos para todo o povo. Nosso objetivo é furar as bolhas do algoritmo e da política, disputando as nossas ideias” (texto de abertura da plataforma). A plataforma prevê ainda “dias de ação conjunta”, fins de semana em que os voluntários realizam atividades simultâneas em diferentes localidades do estado para ampliar o alcance territorial da campanha.
A referência em Nova York
A inspiração declarada da campanha é a vitória do socialista democrático Zohran Mamdani na eleição para a prefeitura de Nova York, em novembro de 2025. Nascido em Uganda, deputado estadual de 34 anos, Mamdani derrotou o ex-governador Andrew Cuomo por quase 13 pontos percentuais, após iniciar a disputa com 1% nas pesquisas. A virada se construiu, segundo diferentes análises, sobre uma campanha de base que mobilizou mais de 90 mil voluntários, responsáveis por aproximadamente três milhões de portas batidas, quatro milhões de ligações e quase três milhões de mensagens de texto enviadas aos eleitores nova-iorquinos.
A plataforma de Mamdani centrou-se no custo de vida: moradia acessível, congelamento de aluguéis, transporte público gratuito e na taxação dos mais ricos para financiar esses programas. A campanha também foi marcada, segundo analistas, por uma presença digital esteticamente elaborada e pela rejeição de financiamento corporativo, o que, conforme avaliação publicada pelo Instituto Lauro Campos e Marielle Franco, construiu “uma credibilidade de quem fala sério sobre trabalhadores contra bilionários”.
A equipe de Manuela não detalhou publicamente quais funcionalidades específicas da campanha nova-iorquina foram adaptadas para a ferramenta gaúcha, mas a estrutura de voluntários distribuídos por território, com missões coordenadas digitalmente e presença simultânea em múltiplos pontos, é o modelo que a plataforma replica.
O Brasil tem, segundo levantamentos do setor, mais de 150 milhões de usuários ativos em redes sociais, e o TikTok já era a quarta rede mais utilizada no país nas eleições de 2022, segundo estudo publicado no Brazilian Workshop on Social Network Analysis and Mining. O alcance orgânico nas redes sociais despencou, e o uso estratégico do tráfego pago é obrigatório para fazer a mensagem furar a bolha algorítmica. Para consultores e pesquisadores da área, guardar energia apenas para os 45 dias oficiais de campanha é apontado como um dos principais erros que campanhas cometem.
É nesse contexto que a plataforma “Agora é com a Gente” tem sua razão estratégica mais clara: ela funciona como infraestrutura para distribuir conteúdo, organizar voluntários e ampliar alcance territorial fora do período oficial e sem depender exclusivamente de verba de impulsionamento pago.
As bandeiras da campanha
Ao caminhar em direção ao palco, Manuela enumerou as pautas que devem nortear sua candidatura. A sequência cobriu a defesa da democracia e o enfrentamento à extrema direita, o Sistema Único de Saúde (SUS), a ciência, a creche, os direitos das mulheres, das pessoas negras e da juventude, além da soberania nacional e do fim dos conflitos armados. “Luta para que nenhuma mulher crie suas crianças sozinha”, disse ela durante o percurso.
A pauta da creche não é nova na trajetória de Manuela. Ao longo dos mandatos como vereadora em Porto Alegre, deputada federal por dois mandatos e deputada estadual, ela construiu um histórico legislativo que inclui projetos voltados a direitos de estudantes, trabalhadores e mulheres. Desde que deixou o exercício de mandatos, em 2019, atuou como comunicadora, escritora e presidiu o instituto E Se Fosse Você, organização voltada ao combate e à denúncia de ataques a mulheres que exercem atividade política. Manuela ressaltou, em audiência sobre o tema, que “os espaços de poder não são pensados para as mulheres” e que “o ataque promovido a uma brasileira afeta a todas e deve levar a uma reflexão de toda a sociedade”.
A aliança do campo progressista
O lançamento de sábado também serviu para consolidar publicamente a arquitetura política que o campo progressista gaúcho articula para 2026. Manuela integra a chapa majoritária encabeçada por Juliana Brizola (PDT) e Edegar Pretto (PT), que disputam o governo do estado, enquanto Paulo Pimenta (PT) é pré-candidato à outra vaga no Senado. O evento reuniu, além de Pimenta, Brizola e Pretto, nomes históricos como os ex-governadores Tarso Genro e Olívio Dutra e o senador Paulo Paim.
A aliança também prevê a integração das agendas de outros movimentos populares, sindicais, ambientais e da juventude à plataforma “Agora é com a Gente”, segundo informações divulgadas pela campanha.
A repercussão nas redes
A entrada de Manuela ao palco com luvas de boxe dividiu as reações nas redes sociais. Entre apoiadores e militantes do campo progressista, a cena foi recebida como afirmação de combatividade e como resposta simbólica ao histórico de violência política que a ex-deputada vivenciou especialmente na campanha presidencial de 2018. Parte da militância ampliou o alcance do vídeo nas primeiras horas após a publicação.
Na direita e em setores sem filiação política definida, a reação foi, em grande parte, de ridículo e hostilidade. Críticos publicaram comentários apontando o que chamaram de artificialismo da cena e questionando a pertinência da referência cinematográfica norte-americana em um contexto de disputas políticas gaúchas.
A estratégia de restringir comentários após uma viralização adversarial é conhecida no ambiente de campanhas digitais. Ao circular fora do perfil da candidata, compartilhado por quem criticava, o vídeo alcançou audiências que não teriam assistido voluntariamente.
O contexto de violência política contra mulheres
A candidatura de Manuela d’Ávila ao Senado acontece em um cenário que ela própria ajudou a documentar nos últimos anos. Desde que deixou o exercício de mandatos, Manuela presidiu o Instituto E Se Fosse Você, que monitora e denuncia os ataques direcionados a mulheres na política. Em 2018, quando integrou como vice a chapa presidencial de Fernando Haddad, ela relatou publicamente a escalada de ameaças e ofensas que atingiram também sua família durante a campanha.
O Rio Grande do Sul, estado onde a candidatura está sendo construída, é também o estado onde a extrema direita tem apresentado, em sucessivos ciclos eleitorais, uma das maiores implantações sociais e influência política no país. A presença de Van Hattem e Sanderson, ambos com histórico de ataques a adversários nas redes, entre os principais competidores pela mesma vaga coloca a disputa já no patamar de confronto político declarado, antes mesmo do período oficial de campanha.
