A presença do major israelense Rafael Rozenszajn em Belo Horizonte provocou protestos e reacendeu o debate sobre a influência de Israel nas políticas de segurança pública brasileiras. Na última segunda-feira (8), o militar, apresentado como porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), ministrou a palestra “A Guerra de Narrativas” para integrantes da Guarda Civil Municipal de Belo Horizonte e de outras forças de segurança de Minas Gerais.
O encontro foi realizado na Federação Israelita do Estado de Minas Gerais (FISEMG), no bairro Santo Antônio, e organizado pela entidade. Segundo informações divulgadas pelo próprio palestrante nas redes sociais, a atividade foi direcionada a agentes de segurança da capital mineira e do estado.
Do lado de fora do evento, manifestantes ligados ao Comitê Mineiro de Solidariedade ao Povo Palestino realizaram um ato de repúdio à presença do militar israelense. O grupo acusa Rozenszajn de atuar como propagandista do governo de Israel e de buscar legitimar a ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza e em outros territórios da região.
Em nota divulgada durante a mobilização, o comitê classificou a presença do major como uma tentativa de “legitimar crimes contra a humanidade” e reafirmou sua posição contrária ao que define como “ocupação colonialista, militar, supremacista e de apartheid da Palestina por Israel”.
“Repudiamos essa manifestação e quaisquer outras que deem apoio e respaldo a esse regime. Reafirmamos nossa posição contrária a qualquer forma de antissemitismo, mas também contrária ao sionismo e às políticas de ocupação promovidas por Israel”, declarou a organização.
‘Guerra de narrativas’ ou defesa da política israelense?
Para integrantes do Comitê Mineiro de Solidariedade ao Povo Palestino, o conteúdo apresentado por Rozenszajn está longe de ser uma análise neutra sobre comunicação e conflitos internacionais.
Segundo o movimento, o militar lançou recentemente um livro com o mesmo nome da palestra, cujo objetivo seria justificar as ações militares israelenses na Palestina.
“O major busca apresentar qualquer crítica a Israel como uma interpretação equivocada da realidade. Em suas palestras, procura demonstrar que organismos internacionais, países árabes e até a ONU dificultam a atuação israelense, sem abordar a ocupação dos territórios palestinos ou as violações do direito internacional”, afirma o comitê.
Ainda de acordo com a organização, o discurso apresentado pelo militar se apoia no desconhecimento do público brasileiro sobre a história e a geopolítica do Oriente Médio. “Ele se vale da enorme ignorância das plateias sobre a região para reafirmar estereótipos coloniais e racistas sobre os povos árabes e sobre o islamismo”, avaliam os ativistas.
O comitê também sustenta que a atuação de Rozenszajn extrapola a defesa política de Israel e se conecta à promoção de tecnologias e equipamentos produzidos pela indústria militar israelense.
“Ele tenta vender, literalmente atuando como um lobista, equipamentos e softwares desenvolvidos em Israel para estados e municípios brasileiros”, argumentam.
Tecnologias de vigilância e preocupação com a segurança pública
Uma das principais preocupações levantadas pelos movimentos palestinos diz respeito à aproximação entre forças de segurança brasileiras e a experiência israelense no campo militar e da vigilância.
Segundo o comitê, Israel se apresenta internacionalmente como referência em tecnologia de segurança, mas grande parte desses sistemas teria sido desenvolvida e testada nos territórios palestinos ocupados.
Os ativistas citam desde armamentos pesados até sistemas de monitoramento digital utilizados para vigilância em massa da população palestina. Entre eles, o software Pegasus, conhecido internacionalmente após denúncias de espionagem contra jornalistas, ativistas e opositores políticos em diversos países.
“Existe, sim, um risco para a população de Belo Horizonte e de Minas Gerais. O compartilhamento dessas práticas entre as forças de segurança certamente impacta a população local, especialmente os setores mais marginalizados”, afirma a entidade.
O grupo relaciona essa preocupação a episódios recentes envolvendo a atuação da Guarda Municipal durante a greve dos professores da rede municipal de Belo Horizonte. Segundo os ativistas, a postura adotada pelo prefeito Álvaro Damião (União Brasil) diante da mobilização dos trabalhadores demonstra uma crescente militarização da gestão dos conflitos sociais.
O comitê também lembrou que Damião esteve em Israel no ano passado, juntamente com outros prefeitos e parlamentares brasileiros, em uma viagem que contou com atividades conduzidas pelo próprio Rafael Rozenszajn.
O mapa sem Palestina
Outro ponto que chamou atenção dos manifestantes foi a exibição, durante a palestra, de um mapa apresentado como sendo o território de Israel, sem a delimitação da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental e da Faixa de Gaza.

Para o Comitê Mineiro de Solidariedade ao Povo Palestino, a imagem reproduz uma visão expansionista defendida por setores do governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.
“O major apenas reproduz a orientação do governo Netanyahu. Trata-se de uma tentativa de invisibilizar a existência do povo palestino e naturalizar a anexação dos territórios ocupados”, argumenta o movimento.
Os ativistas relacionam a imagem ao projeto conhecido por setores críticos como “Grande Israel”, que defenderia a expansão territorial israelense para além das fronteiras internacionalmente reconhecidas.
Segundo o comitê, a exclusão da Palestina dos mapas não é um fato isolado, mas parte de um processo histórico de apagamento da identidade palestina.
“Desde o início da colonização da Palestina, os sionistas buscam invisibilizar os povos originários da região. A negação da existência palestina faz parte dessa lógica”, afirmam.
Prefeitura e governo do estado negam apoio financeiro
Questionada pelo Brasil de Fato MG, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) informou que não houve apoio financeiro ao evento.
Em nota, a Guarda Civil Municipal declarou que agentes da corporação foram convidados para participar da atividade, assim como integrantes de outras forças de segurança.
“O evento foi organizado pela Federação Israelita do Estado de Minas Gerais (Fisemg) e não houve apoio financeiro da PBH, nem parceria firmada durante a palestra”, informou a administração municipal.
O Governo de Minas Gerais também foi procurado para responder se houve apoio institucional ou financeiro ao evento. Em nota, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) informou que a palestra não gerou despesa para o Estado de Minas Gerais e que a atividade teve “caráter formativo e de atualização profissional”.
Mobilização continua em Goiás
A passagem de Rafael Rozenszajn pelo Brasil deve continuar nos próximos dias. Um dos próximos compromissos do militar está previsto para acontecer na UniFANAP, em Aparecida de Goiânia (GO), onde também participará de atividades voltadas a estudantes, professores, lideranças e profissionais da área de segurança.
Assim como ocorreu em Belo Horizonte, movimentos de solidariedade à Palestina já articulam protestos contra sua presença. O Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino de Goiás convocou manifestações e acusa o militar de promover uma narrativa destinada a justificar a ofensiva israelense na região.
Em resposta às mobilizações organizadas contra suas palestras, Rozenszajn afirmou nas redes sociais que pretende manter sua agenda.
