Violência

Mais da metade de pessoas baleadas foi atingida durante operações policiais na Grande Rio em 2026

Do total de 698 vítimas, 367 foi atingida durante troca de tiros com participação policial

No audio source provided.
Manifestação realizada em outubro de 2025 na avenida Paulista, São Paulo, contra a violência policial. O protesto foi realizado três após Operação Contenção no Rio de Janeiro
Manifestação realizada em outubro de 2025 na avenida Paulista, São Paulo, contra a violência policial. O protesto foi realizado três após Operação Contenção no Rio de Janeiro | Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

Cerca de 16 pessoas foram baleadas por semana entre janeiro e maio deste ano no Rio de Janeiro e na região metropolitana, segundo dados coletados pelo Instituto Fogo Cruzado. Entre as 698 vítimas, cerca de 52% foram atingidas durante operações policiais.

Nos primeiros cinco meses do ano, foram registrados 405 tiroteios durante ações e operações policiais. Ao todo, 367 pessoas foram baleadas nesses episódios, que deixaram 181 mortos e 186 feridos. Entre as vítimas, estão 17 agentes de segurança atingidos enquanto estavam em serviço, dos quais três morreram. Ainda de acordo com o Instituto, o número de agentes baleados durante o trabalho representa 35% dos 49 agentes atingidos ao longo de 2026.

Para o coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado, Carlos Nhanga, as operações policiais em favelas não podem ser utilizadas como forma de combate ao crime organizado. “Quando a polícia diz que foi combater roubos, homicídios e exploração infantil, está justamente nomeando crimes que exigem investigação, inteligência e perícia para serem enfrentados de verdade. Esses crimes não se resolvem com confronto armado no meio de uma favela”, disse ao Brasil de Fato.

Entre os exemplos de operações bem-sucedidas Nhanga cita a Carbono Oculto, contra o PCC. “Uma prisão qualificada, de uma liderança viva, vale mais do que dezenas de mortos, porque subsidia investigações que se desdobram em outras e mapeiam toda a organização”, justifica.

Impacto das operações

Uma pesquisa realizada em quatro grandes conjuntos de favelas do Rio de Janeiro identificou que 73% dos moradores são contra as operações policiais, e 92% afirmam que elas precisam mudar. O levantamento foi divulgado em 20 de maio e ouviu 4.080 moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha — áreas que concentraram 11% dos tiroteios e 19% dos baleados desde 2017, de acordo com dados do Fogo Cruzado.

Para se ter uma ideia da frequência dessas operações, um relatório da Redes da Maré, organização coordenadora da pesquisa, informa que, entre 2023 e 2025, ocorreram 92 operações policiais na Maré, na zona norte do Rio. Isso representa uma média de 30 ações por ano.

Os motivos apontados pelos moradores para defender mudanças no modelo das operações apareceram nas conversas em grupo realizadas pelos pesquisadores. Entre os relatos mais frequentes estão: “Quando começa, ninguém sai. A vida para”; “A cidade continua, mas a favela para”; e “O que mais afeta é não poder sair, trabalhar ou levar o filho à escola”.

:: Quer receber notícias do Brasil de Fato RJ no seu WhatsApp? ::

Entre as mudanças necessárias de modelo está a execução de um plano para a redução da letalidade policial já enviado pelo estado do Rio de Janeiro e homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ADPF das Favelas (ADPF 365). O plano prevê câmeras corporais, protocolo de comunicação das operações com notificação ao Ministério Público, transparência sobre mortes em ações policiais e um grupo de monitoramento sob comando do Conselho Nacional do Ministério Público (CNPM).

Carlos Nhanga diz que o plano precisa ser colocado em prática. “No papel, dialoga com o que pode ser feito de melhor. Agora, precisa incluir metas concretas de redução para mortes nessas ações policiais. Enquanto o confronto seguir como resposta automática do Estado, câmera e protocolo viram instrumento de registro de uma tragédia que se repete, não de prevenção”, finaliza.

Editado por: Juliana Passos

|

Newsletter