Mesmo depois de o casamento entre o senador Sergio Moro (PL-PR) e o bolsonarismo ter sofrido forte abalo, com sua saída ruidosa do Ministério da Justiça na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, o lavajatismo continua forte no estado do Paraná. Além disso, e também por isso, Moro, pré-candidato ao governo estadual, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência, fecharam acordo de aliança mútua para as eleições de 2026.
Segundo levantamento divulgado na quarta-feira (10) pelo Paraná Pesquisas, Moro lidera todos os cenários testados para o governo do Paraná, com pouco mais de 42% das intenções de voto em primeiro turno.
Em entrevista ao É de Manhã, no quadro especial sobre eleições, na Rádio Brasil de Fato, Matheus Albuquerque, doutor em ciência política, membro do grupo de estudos INCT ReDem da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e docente na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), avalia que, apesar do retrospecto de rompimento entre Moro e o bolsonarismo, a aliança atual deve seguir firme em virtude da incapacidade política do ex-juiz de se consolidar individualmente.
“Acredito que ela permanece principalmente pela incapacidade, hoje, ao meu ver, do Moro de ser uma figura com um voo próprio. Vale lembrar, fazendo um retrospecto bem rapidinho, que a Lava Jato tem um papel determinante não só nas eleições de 2018, mas no impeachment da Dilma Rousseff anteriormente, em 2016, sendo a principal força motriz daquele processo”, afirma.
“A Lava Jato teve um protagonismo muito grande, mas esse protagonismo foi em cima de uma sistemática irritação ao sistema político. Então, o sistema político nunca aceitou muito bem aqueles sujeitos da forma como eles estavam colocados. Quando Moro, de maneira até um pouco jocosa, tenta sair do governo Bolsonaro para alçar voos próprios, ele não consegue. O fato é que ele não consegue mais ter uma base própria, uma base social própria. Fora algumas exceções localizadas no estado do Paraná, a Lava Jato hoje não tem uma base própria sem o bolsonarismo”, pontua.
Albuquerque destaca que o eleitor paranaense é, hoje, pouco sensível a qualquer questionamento ao bolsonarismo, como a crise protagonizada por Flávio por causa do seu envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro. “O Flávio Bolsonaro tende a ganhar no Paraná se ele se mantiver candidato, mesmo com as crises postas. Então, para o Moro, não faria sentido uma ruptura com essa aliança”, afirma.
Com relação ao caso do ex-deputado federal Deltan Dallagnol (Novo-PR), que foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e hoje aparece nas pesquisas como favorito ao Senado, Matheus Albuquerque lembra a trajetória do promotor e destaca que ele foi uma peça para que o Podemos aumentasse consideravelmente sua bancada no Congresso.
“A candidatura de Dallagnol a deputado federal, quando foi eleito, era claramente uma candidatura que seria cassada, mas ele foi usado pelo partido para fazer uma quantidade de votos elevada. Elegeram uma bancada relevante, inclusive a nível nacional. Mas era visível que aquilo não ia se sustentar. Agora, para o Novo, continua muito interessante ele sair candidato porque, mesmo se ele for cassado, quem assume nesse caso é o suplente. É o tipo de cassação que não se perdem os votos”, analisa.
Ainda assim, segundo o especialista, a disputa ao Senado no Paraná promete fortes emoções. Isso porque a principal oponente de Dallagnol e representante da esquerda é Gleisi Hoffmann (PT-PR), que, embora apareça com desempenho ainda tímido, pode ser favorecida pela “dispersão do voto da direita”.
“A figura da Cristina Graeml [PSD] está gerando uma dor de cabeça muito grande no sistema político porque ela tem poucas chances de ganhar, mas esses 15%, 14% que ela faz têm grandes chances de tirar a vaga das pessoas, o que, inclusive, favorece muito a Gleisi, que não é uma das favoritas, mas tem relevante chance pela dispersão do voto na direita, ao mesmo tempo em que a esquerda se unificou em torno da Gleisi. “Então é uma eleição muito imprevisível”, explica.
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