O campo do Centro de Formação Patativa do Assaré, em Ceará-Mirim (RN), recebe neste sábado (13) a primeira de uma série de seletivas que levarão observadores da Ferroviária a assentamentos do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) no Nordeste. A expectativa é reunir mais de 300 meninas de acampamentos e assentamentos interessadas em uma vaga nas categorias de base de um dos clubes mais tradicionais do futebol feminino brasileiro.
A Ferroviária é considerada uma das principais forças da modalidade no país, com títulos nacionais e internacionais, investimento contínuo e tradição na formação de atletas. Criado em 2001, o projeto das Guerreiras Grenás antecedeu a entrada obrigatória de muitos grandes clubes no futebol feminino e já rendeu à equipe dois títulos da Libertadores, dois Campeonatos Brasileiros e uma Copa do Brasil.
A iniciativa começa em meio à disputa da Copa do Mundo masculina e ocorre em um momento de expansão do futebol feminino no país. Em 2027, o Brasil sediará pela primeira vez uma Copa do Mundo Feminina, também a primeira realizada na América do Sul. A modalidade vem ampliando calendário, investimentos, audiência e público nos últimos anos, mas as oportunidades de formação ainda permanecem concentradas em grandes centros urbanos.
Além da etapa potiguar, estão previstas seletivas em Lagoa Grande (PE), no Assentamento Madre Paulina, em 11 de julho, e em Prado (BA), no Assentamento Jaci Rocha, em 25 de julho.
A parceria entre MST e Ferroviária já apresentou seus primeiros resultados. Em setembro de 2025, durante uma seletiva realizada em Araraquara (SP), a jovem sem-terra Nicoly Gonçalves, do Paraná, foi aprovada aos 12 anos e hoje integra a categoria de base do clube paulista.

Futebol de mulheres nos territórios
A nova etapa da iniciativa dialoga com uma prática consolidada nos territórios do MST. Em diferentes regiões do país, torneios e campeonatos organizados pelo movimento mobilizam comunidades inteiras e contam com participação crescente de mulheres e meninas. O futebol também está presente em escolinhas e campeonatos da Reforma Agrária promovidos pelo MST, que há décadas trata o esporte como espaço de convivência, formação e organização comunitária.
Integrante da Frente de Esporte e Lazer do MST, Irislene Dias Lima avalia que a parceria fortalece não apenas o movimento, mas o próprio futebol feminino brasileiro. Ela lembra que a prática da modalidade foi proibida para mulheres no país até o final da década de 1970 e considera que a presença crescente de mulheres sem terra nos gramados é resultado de uma conquista coletiva.
Segundo ela, o futebol ocupa um lugar central na vida comunitária dos acampamentos e assentamentos. Os campos de terra costumam estar entre as primeiras estruturas organizadas nos territórios e se transformam em espaços de convivência, lazer e formação para crianças, jovens e adultos.
“O campinho de terra costuma ser uma das primeiras estruturas organizadas nos nossos acampamentos. Para a juventude, e especialmente para as mulheres, o esporte representa uma oportunidade de participação, fortalecimento e protagonismo”, afirma.
Irislene destaca ainda que a presença das mulheres nos gramados é um reflexo das transformações construídas nos territórios da Reforma Agrária Popular. “As mulheres que entram em campo hoje mostram os frutos da Reforma Agrária Popular, afirmando que o esporte é uma poderosa ferramenta de inclusão, emancipação e transformação social nos territórios.”
Para a diretora executiva do futebol feminino da Ferroviária, Nuty Silveira, a parceria também tem o papel de ampliar o acesso ao esporte de alto rendimento e diversificar o perfil das atletas que chegam aos clubes.
“Sabemos que existem muitos talentos espalhados pelo Brasil que, muitas vezes, não têm acesso às oportunidades necessárias para desenvolver seu potencial. As seletivas nos territórios de Reforma Agrária ampliam esse alcance e ajudam a tornar o futebol feminino mais diverso, representativo e acessível”, afirma.
Segundo a dirigente, a iniciativa vai além da identificação de futuras atletas. Ao criar oportunidades em regiões historicamente afastadas dos grandes centros esportivos, as seletivas ajudam a fortalecer a modalidade e permitem que mais meninas enxerguem a possibilidade de construir uma trajetória no futebol profissional.
